A McDonaldização da segurança pública

A McDonaldização da segurança pública

REDAÇÃO

07 de maio de 2019 | 12h13

Rafael Alcadipani, professor Adjunto da EAESP-FGV, External Fellow no Cardiff Crime & Security Research Institute – Cardiff University e associado pleno ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ph.D pela Manchester Business School.

 

Em 1993, George Ritzer, escreveu um livro em que destacava como o modelo de negócios do McDonald’s estava se transformando no paradigma para grande parte das organizações da sociedade, de hospitais até escolas. Um dos elementos centrais deste modelo é a calculabidade, ou seja, a ideia de que quanto mais quantidade for produzida, melhor. A ideia de um quarteirão com queijo ou de um Big Mac deixam claro esta lógica de mais é melhor.

Mensalmente, assistimos a divulgação de relatórios de polícias no Brasil que reportam operações que foram realizadas com milhares de presos, grandes quantidades de drogas foram apreendidas, enormes quantidades de efetivos foram empregadas, etc. Há uma preocupação clara da segurança pública em focar em quantidade de produção como se produzir mais fosse sinônimo de qualidade. Raramente se discute, por exemplo, que prender uma pessoa que furtou um supermercado ou que estava traficando uma pequena porção de drogas tem muito menos resultado para a sociedade do que prender o chefe de uma grande quadrilha. Na Segurança Pública McDonald’s, mais é melhor e não se observa preocupação com a qualidade daquilo que se é produzido. O que interessa são números e mais números para se passar a sociedade a sensação de que algo está sendo feito, mas a reflexão mais profunda daquilo que se está produzindo é deixada de lado.

Além disso, o modelo McDonald’s é focado em retirar o máximo e de forma mais sistemática das pessoas. Tudo é pensado olhando apenas na produção em uma áurea de valorização dos empregados configurada no “funcionário do mês”, em geral aquele que produz as maiores quantidades. Na gestão da Segurança Pública isso não é muito diferentes em muitos Estados: policiais extremamente mal remunerados e com poucas condições de trabalho recebem condecorações sem que haja uma preocupação com uma melhoria real das condições de trabalho. Vende-se uma fumaça de valorização quando muitas chefias são extremamente autoritárias e estão baseadas em regimentos disciplinares completamente anacrônicos onde um cabelo mal cortado é mais importante do que um chefe que realiza assédio moral.

Todavia, há uma diferença expressiva entre o modelo McDonald’s e a gestão da segurança pública no Brasil. No Mc, decisões são fundamentadas em evidências daquilo que a ciência mostra que dá certo. Na segurança pública, as decisões são tomadas com base na experiência individual daquilo que o chefe de ocasião acha que dá certo, sem que haja uma preocupação mais efetiva em usar estudos aprofundados e com metodologia séria para fundamentar decisões. Ao fim, a gestão de segurança pública a lá Mc vende para a sociedade e para os policiais uma fumaça que é apenas útil aos governantes que fingem estar mudando tudo, para que na essência tudo permaneça como está.