A longa noite da fome

A longa noite da fome

REDAÇÃO

16 de junho de 2021 | 15h51

José Graziano da Silva, Doutor em Ciência Econômica (Unicamp). Professor da Unicamp (1978-2012) e ex-Ministro Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome no Brasil (2003-2004). Diretor-Geral da FAO (2012-2019) e atual Diretor Geral do Instituto Fome Zero

– “Mamma?”

-“Dorme bambino che ancora è notte!”

O dialogo, que se repete uma vez mais, expressa o desespero da mãe toda vestida de preto que trata de manter o filho no berço, enquanto explica ao senhorio que vinha cobrar o aluguel da casa em ruínas: “se o menino acorda vai querer comer e não tenho nada para lhe dar!”.

A cena imortalizada pelo cineasta Pier Paolo Pasolini no filme “Uccellaci e Uccelline: la fame” * ocorria numa Itália devastada do final da segunda Grande Guerra. Infelizmente, como observou um colega depois de ver o filme no You Tube, “para 19 milhões de brasileiros agora é sempre noite!”.

A FAO, que se mudou para Roma no pós guerra para ajudar na recuperação econômica europeia, vai divulgar os primeiros números da fome no mundo após o início da pandemia no próximo 12 de julho. Mas numa recente conferência com os ministros de agricultura latino-americanos, o seu economista-chefe Máximo Torero antecipou alguns resultados preliminares para 2020, infelizmente piores que o esperado.

Utilizando as estimativas do FIES (Escala de Insegurança Alimentar) que representa o indicador 2.1.2 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), os dados preliminares mostram um forte aumento de 14% da insegurança alimentar no mundo entre 2019 e 2020. Outros 303 milhões de pessoas foram afetadas por insegurança alimentar moderada ou grave e mais 140 milhões por insegurança alimentar grave” em todo o planeta. (A estimativa do FIES divulgada anteriormente pelo SOFI 2020, já mostrava que 2 bilhões de pessoas em todo o mundo padeciam de insegurança alimentar grave ou moderada em 2019, o que significa que não dispunham de alimentos suficientes e saudáveis; e quase 750 milhões – quase 10 % da população mundial, enfrentavam uma insegurança alimentar grave, que equivale a dizer que estavam passando fome antes mesmo da pandemia).

Ainda segundo Torero, o aumento de 19% entre 2019 e 2020 foi mais pronunciado na América Latina e no Caribe (ALC) que em outras regiões do mundo: mais 44 milhões de pessoas foram afetadas em 2020 por insegurança alimentar moderada ou grave; e mais 21 milhões por insegurança alimentar grave.

O aumento da insegurança alimentar na América Latina entre 2019 e 2020 foi impulsionado por um aumento significativo na América do Sul (+27%). Nessa sub-região, mais 37 milhões de pessoas foram afetadas por insegurança alimentar moderada ou grave e mais 18 milhões por insegurança alimentar grave” na sub-região sul, o que representou 85% de todo o aumento da fome em 2020 na América Latina!

O economista chefe da FAO também destacou que as dietas saudáveis são muito mais caras na região (cerca de 4 a 5 vezes o custo de uma dieta energética mínima) e não estão disponíveis para a maioria da população latino-americana que tem rendimentos muito baixos: “A elevada proporção de pessoas que não podem pagar uma alimentação saudável nos países da região pode promover maiores aumentos de sobrepeso e obesidade em adultos. Na ALC, o sobrepeso e a obesidade estão aumentando, afetando 262 milhões de adultos e 50 milhões de crianças e adolescentes. (…) Por outro lado, o excesso de peso infantil aumentou para 7,5% em 2019, situando-se acima da média mundial de 5,6%. Na América do Sul essa proporção é ainda maior: 7,9%. Em 2019, havia 4,7 milhões de crianças com atraso de crescimento e 3,9 milhões de crianças com excesso de peso na ALC” .

Como sabemos, uma criança mal alimentada, tem o seu desenvolvimento intelectual e motor futuro comprometido. Estamos, portanto, comprometendo a performance das nossas gerações futuras; e o sobrepeso e a obesidade são causas de diabetes, pressão alta e problemas cardiovasculares que induzem uma proporção maior de mortes, especialmente agora na pandemia. Vale dizer que antes mesmo do COVID19, as doenças não transmissíveis (DNTs) já eram a principal causa de mortalidade na ALC causando 3 em 4 mortes de um total de 2,8 milhões” de acordo com o diretor da FAO.

Em resumo, a fome aumentou muito em 2020, o primeiro ano da pandemia, especialmente nos países da América do Sul – considerados o celeiro do mundo! E não é apenas o aumento da fome que preocupa a FAO, mas também o aumento da obesidade, especialmente entre crianças e adolescentes, em grande parte decorrente da má qualidade da nossa alimentação devido ao alto custo dos alimentos saudáveis numa região que exporta commodities para o mundo todo…

Os dados do Brasil para 2020 corroboram, infelizmente, essas conclusões. Segundo a pesquisa VIGISAN da rede PENSAN, a proporção da população em insegurança alimentar grave atingiu 9 % em dezembro de 2020, um salto de + 55% sem relação a estimativa do IBGE de 5,8% para 2018; e os com insegurança alimentar grave e moderada passava dos 20%, o que significa que um de cada 5 brasileiros não tinha acesso a alimentos suficientes para manter uma vida saudável. E ainda tínhamos 35% da população em situação de insegurança alimentar leve, o que significa que tinha que sacrificar a qualidade da sua alimentação, comendo menos produtos saudáveis, por exemplo, e aumentando a possibilidade de vir a ter sobrepeso. No total a insegurança alimentar atingia 55%, ou seja, mais da metade dos brasileiros!

Uma outra pesquisa realizada pela Universidade Livre de Berlim, em colaboração com a UFMG e a UNB na mesma data, revelou estimativas ainda piores: 15% da população em insegurança alimentar grave, o que representa um aumento de quase 160% em relação à estimativa do IBGE para 2018. Essa mesma pesquisa mostrou que a insegurança alimentar atingia 59% dos domicílios do país, sendo ainda maior nos domicílios com crianças até 4 anos (71%) e com crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos (66%). E que houve uma redução de 85% no consumo de alimentos saudáveis nos domicílios com insegurança alimentar no primeiro ano da pandemia, com destaque para as carnes (-44%), frutas (-41%) e hortaliças e legumes (-37%). Ou seja, mais de um terço das crianças e adolescentes brasileiros correm um sério risco de engrossarem a legião de obesos que cresce no país se sobreviverem à pandemia!

Na sua recomendação final, o economista chefe da FAO destacou que “a pandemia Covid-19 envia um alerta sobre a fragilidade da segurança alimentar na região da América Latina e Caribe. Mas também nos dá a oportunidade de reavaliar como abordamos as causas profundas da fome e construímos resiliência contra os riscos para construir um futuro melhor”. Duas primeiras medidas recomendadas pelo economista “para enfrentar os riscos”:

  • Foco em mecanismos de proteção social para apoiar o acesso à alimentação para os mais pobres e aqueles cuja renda foi mais afetada;
  • Redirecionar subsídios agrícolas das commodities para alimentos saudáveis.

Quero acrescentar uma terceira, que me parece fundamental para o Brasil que possui um sistema público e gratuito que entrega merenda escolar de qualidade para as nossas crianças e adolescentes: fortalecer o Programa Nacional de Alimentação Escolar!

O PNAE é uma política pública fundamental para a promoção da segurança alimentar e nutricional das nossas crianças e adolescentes, reconhecida internacionalmente por garantir comida saudável em todo o Brasil. Infelizmente, diferentes Projetos de Lei (PLs) atualmente em discussão no Congresso Nacional, ameaçam reduzir as compras de diferentes segmentos da agricultura familiar, na contramão da garantia de uma alimentação saudável e nutritiva para os nossos estudantes.

Segundo recente reportagem do Jornal da USP no Ar de 08/06/21,  “o Atlas da Obesidade Infantil no Brasil, de 2019, mostra que três a cada dez crianças de 5 a 9 anos estão acima do peso. A previsão da Organização Mundial da Saúde é que o Brasil esteja na quinta posição no ranking de países com o maior número de crianças e adolescentes com obesidade, em 2030, caso medidas efetivas não sejam tomadas”.

A PNAE precisa ser preservada para continuar a ser o raio de esperança de um novo amanhecer da longa noite da fome que estão  enfrentando milhões de crianças brasileiras.

*Pajaritos y Pajarracos filme de 1966 dirigido por Pier Paolo Passolini ou The Hawks and the Sparrows.

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