A indução do caos: a política segundo Bolsonaro

A indução do caos: a política segundo Bolsonaro

REDAÇÃO

23 de maio de 2022 | 16h30

José Antonio G. de Pinho, Professor Titular Aposentado – Escola de Administração UFBA. Pesquisador da FGV-EAESP

Reduz-se o tempo para a eleição presidencial, pouco mais de quatro meses nos separam do pleito. O cenário para as hostes bolsonaristas não é nada animador. A inflação alta e persistente, apesar do delírio “ipiranguista”, a crise econômica se mantém incólume, com cerca de 12 milhões de desempregados, o custo de vida corroendo o poder de compra dos trabalhadores, formais e informais. Tudo isto forma um horizonte de nuvens carregadas. E o tempo cada vez mais escasso para uma reversão deste quadro, a esta altura já praticamente impossível. Mesmo o Auxílio Brasil, ex Bolsa Família, revela-se insuficiente, em extensão e valor, para amainar a pobreza brasileira e gerar votos governistas.

No plano político as notícias para Bolsonaro também não encorajam otimismo. Embora se mantenha em segundo lugar nas pesquisas eleitorais e até tenha experimentado algum crescimento, este é muito granular, ao passo que o seu principal concorrente, o ex-presidente Lula mantém a primeira posição e com uma expressiva gordura de frente. Até agora um 3.o postulante ainda não representa ameaça à Bolsonaro, mas ainda existe tempo para uma mudança no cenário.

Isto posto, só resta ao atual presidente fazer o que ele sabe melhor, que é produzir o caos no sentido de uma conspiração contra a democracia. Um primeiro passo já foi dado e vem sendo persistentemente mantido, o que coloca em dúvida a lisura das urnas eletrônicas, deflagrado tão logo tomou posse em janeiro de 2019. Com isso tenta criar uma espécie de jurisprudência imaginária, fictícia, de que ele próprio já foi vítima desta situação. Assim, não estaria agindo de forma oportunista caso seja derrotado e venha a contestar o resultado das urnas das eleições vindouras. Vale lembrar que em nenhum momento, o ex-capitão apresentou provas de sua peroração tendo reconhecido, inclusive, que não as tinha. No entanto, continua batendo na mesma tecla, causando insegurança e dúvidas em parte do eleitorado, induzindo o caos. Esta postura não lhe causa qualquer incômodo ou desconforto dada sua escassa relação com a lógica e a racionalidade.

Nessa ação tem recorrido ad nauseam a ataques aos membros do STF e do TSE tentando construir uma inversão de valores no que tange ao que é democracia, em particular, empunhando a bandeira de uma liberdade de expressão, componente basilar dos valores democráticos, que no seu entender seria elástica e estaria sendo atacada e restringida. Escondendo-se atrás deste álibi construído passa a atacar o STF e a defender seus apaniguados que também vociferam contra as instituições da ordem democrática. Novamente, volta-se Bolsonaro para a criação de um estado de confusão, apostando na construção de um ambiente de desordem e beligerância permanente para justificar uma necessária intervenção.

Aliás, pensar em Bolsonaro defendendo a democracia além de risível causa estupefação, relembrando todo seu histórico documentado. A isso se soma o fato de determinar sigilo de cem anos para determinados fatos de sua administração que não se revelam segredos de Estado, mas atos comezinhos de qualquer governo. Com este longo sigilo dá para imaginar a quem causariam dano caso viessem à luz.

Como já sinalizado, as eleições estão próximas e as possibilidades de vitória do campo governista, se não são impossíveis parecem reduzidas. Convém lembrar que quando o período eleitoral entrar na fase dos debates nas TVs, o candidato Bolsonaro ficará ainda mais exposto em sua indigência intelectual e ausência de valores democráticos. Além disso, estará carregando o fardo de uma administração pífia em realizações e de prevaricação como no caso do combate ao Covid-19, da política de destruição deliberada da Amazônia e menosprezo aos povos indígenas, entre outros.  Pode se ausentar dos debates, o que se adequa ao seu perfil, mas isto pesará negativamente frente ao eleitorado, ou parcela dele. São muitos debates programados e ficará difícil arranjar desculpas para o não comparecimento.

Mantidas todas as condições acima expostas quais serão as medidas a serem tomadas pelo presidente para criar um caos capaz, em sua mente, de justificar um golpe? Por um lado, continuará evocando a fragilidade das urnas eletrônicas, reclamando que os votos não podem ser conferidos, quando o Boletim de Urna, unidade mínima da apuração de votos, é instrumento disponibilizado e passível de conferência. Mesmo que saiba disso, o intuito de Jair Bolsonaro é gerar confusão e desconfiança. Deve-se voltar também contra os institutos de pesquisa, desacreditando-os. Todos esses elementos reunidos servirão de base para a contestação incendiária dos resultados. Do ponto de vista da política propriamente dita deve recorrer ao antipetismo mostrando-se o cavaleiro da cruzada anticomunista que, em sua visão e delírio e de seus fanáticos devotos, assola o Brasil.

No entanto, até agora as ações aqui arroladas estão na esfera do discurso, e isto não deve ser suficiente para os planos golpistas de Bolsonaro lograrem êxito. Assim, deve recorrer a um tipo de operação especial de ataques às urnas, tanto do ponto de vista digital como físico para mostrar que o eleitorado está manifestando a recusa ao voto eletrônico, repetindo a ladainha da necessidade do voto auditável. Para isto deverá se valer das milícias que orbitam em seu redor, formadas por brucutus com objetivo de gerar um caldo de caos e de insegurança.

Para consecução de um golpe, no entanto, faltam elementos fundamentais como o apoio e participação de militares e forças de segurança institucionais. Ainda que os primeiros sejam beneficiários de robusta política pecuniária do governo Bolsonaro, e sejam milhares, da instituição Forças Armadas se espera que sejam uma instituição de Estado e não de governo. No entanto, sobre estas ainda pairam muitas dúvidas quanto ao seu comprometimento democrático. Quantos generais seguirão do ex-capitão portador de uma carreira militar polêmica, para dizer o mínimo? Terão compostura ética para dar este passo?

Compondo as forças que se aliam ao campo bolsonarista encontram-se o presidente da Câmara, principal negociador do Centrão, beneficiário do Orçamento Secreto entre outras derrapadas democráticas desta aliança. And last, but not least, a “Protetoria Geral do Presidente” que até agora tem arado a favor do mandatário-mór, ao que parece confiante na sua reeleição, esperançoso de conseguir uma cadeira no STF em um suposto próximo mandato.

Como contrarrestar este desenho que se apresenta claramente à Nação? Do ponto de vista da sociedade e das forças políticas defensoras da ordem democrática, o que se espera? No caso do STF e do TSE a continuação da posição assumida de enfrentamento das insanas falas e atos do presidente e seus apoiadores, para defesa da democracia. Também, carrega enorme responsabilidade o presidente do Congresso, que tem assumido um protagonismo maior contra a nuvem golpista nas últimas semanas.

O mesmo se espera dos diversos órgãos da mídia de defesa intransigente dos parâmetros democráticas que regem nossa vida, o que já vem acontecendo para os maiores veículos, cabendo destacar o recuo recente de um destes veículos explicitamente bolsonarista, o que ainda não é possível de avaliar a extensão desta mudança. Também se espera o mesmo de instituições da sociedade civil, como as universidades e órgãos de classe, o que já ocorre, mas carece de se intensificar. Todo esforço é necessário para conter os impulsos golpistas do ex-capitão, que tem a tradição de desafiar a ordem instituída desde seus tempos de caserna. Ou seja, a Nação não está lidando com um neófito, trata-se de um transgressor da ordem em sua essência, que não esconde seus propósitos. Foi eleito assim, a Nação não pode desconhecer que um golpe está na sua mente. Do caos que está e será criado parece que não podemos escapar, mas aos golpistas cabe a ordem das leis.

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