A guerra na Ucrânia e as soluções frágeis para o aumento da fome

A guerra na Ucrânia e as soluções frágeis para o aumento da fome

REDAÇÃO

02 de maio de 2022 | 16h02

Atos Dias, Doutorando em Ciência Política (UFPE), com bolsa da CAPES. Pesquisador do FomeRI da UFPB (fomeri.org)

Parece não haver fim visível para a guerra na Ucrânia. A perpetuação e, mais do que isso, a intensificação do conflito, aumentam as incertezas sobre a segurança alimentar global. Estudos apontam para a existência de uma correlação entre a incidência de conflitos violentos e o aumento da insegurança alimentar nas populações envolvidas. Os problemas originados pela guerra na Ucrânia, no entanto, possuem grande capacidade de atravessar as fronteiras de Kiev e impactar o acesso de populações vulneráveis a alimentos suficientes em outros países, ainda que não estejam diretamente envolvidas no conflito.

O motivo é claro: Rússia e Ucrânia, juntos, são responsáveis pela oferta de 30% de todo o trigo e cevada, alimentos que – em conjunto com arroz, milho e sorgo – são os grãos mais consumidos no globo. Ambos os países também produzem um quinto de todo o milho consumido, bem como mais da metade do óleo de girassol. O problema não está apenas no fornecimento de grãos, mas também na oferta de fertilizantes, insumo importante para a produção alimentar: Belarus e Rússia exportam cerca de um quinto dos fertilizantes utilizados no mundo. Os dados alarmantes são encontrados em um relatório recente da Organização das Nações Unidas, publicado em abril de 2022.

Intitulado “O impacto global da guerra na Ucrânia nos sistemas alimentar, energético e financeiro”, o relatório expõe que as incertezas da guerra em curso, atreladas à pandemia de COVID-19, podem intensificar o aumento do preço dos alimentos em nível mundial, que já sofre uma alta de 34% em relação a 2021. A situação é inédita: os preços nunca estiveram tão altos quanto antes. No começo de abril, os preços alcançaram seu terceiro recorde consecutivo. É um fato: o mundo já vivencia uma crise alimentar mundial. Resta saber: qual será o impacto dessa atual crise na segurança alimentar global?

Vale lembrar, a FAO define segurança alimentar como sendo a garantia de que todas as pessoas, em todo o tempo, tenham acesso físico e econômico a alimentos suficientes, seguros e nutritivos, que atendam às suas necessidades e preferências alimentares para uma vida saudável. Os estudos que correlacionam conflitos violentos e aumento da fome observam que os países que dependem da importação de alimentos para garantir o seu abastecimento interno tendem a sofrer de insegurança alimentar quando vivenciam momentos belicosos. Está claro: as incertezas da guerra tendem a impulsionar o aumento dos preços. E os países mais pobres, dependentes das importações de alimentos, são os mais expostos a essas oscilações, pois gastam a maior parte de sua renda nacional com comida.

Em curto prazo, é de se esperar que a guerra na Ucrânia coloque incertezas para a produção alimentar na Rússia Ucrânia, sobretudo para o trigo e o milho, e agravem ainda mais a situação de alta recorde no preço mundial dos alimentos. Os países que dependem das exportações de alimentos dos envolvidos na guerra poderão, em curto e médio prazo, sofrer com a queda no número de calorias disponíveis para as suas populações. O relatório da ONU aponta que 36 países dependem em mais de 50% das importações do trigo russo e ucraniano; todos eles são nações em desenvolvimento. Há, ainda, o risco de, em um cenário de curto e médio prazo, na necessidade de atender as demandas de guerra e conter o aumento interno dos preços da comida, tanto a Rússia quanto a Ucrânia, que suspendam suas exportações alimentares, agravando ainda mais a deficiência calórica das nações que compram de ambos.

Em médio prazo, possíveis restrições à exportação de alimentos por parte dos países em guerra podem fazer com que as demais nações igualmente parem de exportar comida como forma de se precaver frente à alta dos preços, prejudicando, assim, toda a cadeia mundial de suprimento de alimentos. Países que dispõem de estoques de alimentos poderão sofrer menos prejuízos. Quais são? Em sua grande maioria, nações ricas: 77% dos estoques mundiais de cereais pertencem à China, EUA, Índia, União Europeia, Brasil, Argentina e Rússia. Países ricos, portanto, possuem capacidade de amenizar a pressão sobre os preços internos. Países pobres que dependem do comércio internacional para suprir suas necessidades poderão sofrer ainda mais com o aumento da inflação e, em longo prazo, com o acirramento da insegurança alimentar e possíveis desordens políticas e sociais. A história nos serve de lição: o estopim de revoltas como a Primavera Árabe ou a Revolução Francesa foi a falta de comida.

Na nutrição, a hipótese da origem fetal diz que o acesso do feto a nutrientes desde o útero da mãe condiciona suas futuras capacidades físicas e mentais. A exposição à falta de alimentos nos primeiros anos de vida traz impactos à saúde em longo prazo, aumentando ainda mais a vulnerabilidade das populações famintas. A desigualdade, nesse caso, se retroalimenta.

O relatório da ONU aponta para, no geral, quatro possíveis soluções conjuntas para o acirramento da crise alimentar causada pelo conflito na Ucrânia. Primeiro, apela para que os países continuem engajados em fóruns multilaterais. E quando a arena multilateral tem sofrido algum notável revés? Mesmo o governo do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, notavelmente avesso ao multilateralismo, não deixou de cooperar em questões alimentares: em artigo recente, demonstramos que seu governo alcançou recorde de doação para o Programa Mundial de Alimentos, a maior agência humanitária da ONU. No que compete às instituições multilaterais, é mais preocupante a incapacidade dessas em agir, em não se limitar ao papel meramente opinativo e orientador. Um problema, diga-se, histórico.

A segunda solução estaria ligada a um esforço coletivo para manter o bom funcionamento do comércio internacional de commodities alimentares, a fim de garantir o abastecimento alimentar dos países que, em muito, dependem da importação de comida. Mas, em um contexto de significativa perda do poder de compra, é de se esperar que o comércio internacional não seja uma fonte eficaz de abastecimento alimentar em países pobres.

Então, o relatório aponta para uma terceira solução: a necessidade de fortalecer a produção alimentar interna. Nisso também há problema. Em primeiro lugar, incentivar o aumento da incipiente produção interna em países dependentes das importações não é uma resposta eficaz para uma crise que já bate à porta. Em segundo lugar, o comércio internacional tende a sufocar qualquer tentativa de engajamento nesse sentido.

Há ainda uma quarta solução: apoiar o abastecimento alimentar de países vulneráveis por meio de instituições de ajuda humanitária. Embora o Programa Mundial de Alimentos seja a agência humanitária com maior orçamento, já mostramos, em artigo recente, que as doações dos países para a agência tendem a diminuir em momentos de alta no preço dos alimentos. É de se esperar que a lógica econômica que permeia a ajuda alimentar internacional possa enfraquecer a atuação das instituições humanitárias.

Não há saída fácil. É de se esperar um crescimento da fome, concentrada em países pobres, localizados na África, na América Latina e Caribe, e na Ásia. Mais uma vez, a história poderá mostrar, da forma mais dolorosa possível, a incapacidade do comércio internacional de, sozinho, garantir a segurança alimentar global e, mais do que isso, vencer a fome em um mundo que já produz alimentos suficientes para todos.

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