A guerra da vacina e dos lugares

A guerra da vacina e dos lugares

REDAÇÃO

22 de janeiro de 2021 | 15h16

Cristovão Henrique, Doutor em Geografia Econômica pela (UFGD), Pós-Doutor em Geoeconomia pela UFG – e Professor da Universidade Federal do Acre (UFAC).

 

Iniciamos o ano de 2021, com o tom de continuidade do ano anterior claro, que entrará para a história em razão da mais grave crise sanitária do século XXI. As primeiras semanas do ano já anunciam que preço da cruzada obscurantista que alguns países do mundo decidiram trilhar nos últimos anos, com destaque para o Brasil, será cobrado em vidas. A pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2) trouxe consigo inúmeras crises, para além da sanitária, questões econômicas, sociais, antropológicas e regionais. Com esse pano de fundo, o contágio no Brasil, alcançou 8,7 milhões e ceifou a vida de mais de 214 mil brasileiros. Aliás, também já se passaram mais de 200 dias desde o início da guerra da vacina, protagonizada pelo Presidente da República, Jair Bolsonaro (Sem partido) e seu desafeto político, o Governador do estado de São Paulo, João Doria (PSDB).

Foram inúmeras vezes que, Jair Bolsonaro, com seu tom autoritário e obscurantista, mostrou-se um grande aliado do movimento dos anti-vacina. A Coronavac, vacina contra a COVID-19, produzida em parceria com o Instituto Butantã e corporação chinesa SINOVAC, virou alvo de críticas infundadas e de deboche do Presidente que, quando se infectou com o coronavírus, ofereceu cloroquina para as emas no jardim do Palácio do Alvorada. Mas enquanto, era travada a guerra da vacina, entre junho e novembro de 2020, criamos o platô de mil mortes/dia, e, em paralelo os epidemiologistas, virologistas alertavam para o que estava por vir após as festas de fim de ano: a segunda onda de contágio.

Enquanto a segunda onda era gestada, o que deveria ser feito era o Plano Nacional de Imunização (PNI), área que o Brasil até então, historicamente detinha o destaque no cenário internacional, por seus feitos na produção, distribuição de imunizantes em um país de dimensões continentais, cujas peculiaridades regionais devem ser levadas de modo basilar na definição das estratégias de imunização da população.

Se de um lado o contágio foi regional, por negligência pura da ação do Estado, a imunização deveria ser diametralmente oposta, com perspectiva nacional, por que há de haver uma dimensão territorial estratégica nas medidas respeitando as características e desigualdades regionais que esse país detém de Norte a Sul. Nesse ponto, o Governo Federal com sua capacidade nata de incompetência, além de forjar uma irresponsável guerra da vacina, repaginou o que o Geógrafo, Milton Santos, intitulou de guerra dos lugares em 1999. Agora repaginada, pelo Presidente da República, essa guerra, tem protagonismo nos lugares urbanos e rurais onde a vida das pessoas são descartadas, assoladas pela pandemia, e possui dois aspectos, explico:

Primeiro, é sabido que na pandemia, os Governos Estaduais e Municipais estão à deriva do ponto de vista da coordenação central, os decretos e leis tentam conter a curva de contágio ascendente, e, mas chocam-se diretamente com a incapacidade mortífera da gestão do Ministério da Saúde. Portanto, quando João Dória (PSDB), anunciou a imunização para 25/01, na primeira vez na história do país com o Plano Estadual de Vacinação, foi dada a largada ao que parece uma corrida maluca em busca do imunizante por parte dos governadores.

Isso tudo, a despeito das assimetrias e desigualdades regionais brasileiras, e por isso, a guerra dos lugares detém esse aspecto primário interno. Pois isso, a criação dessa guerra dos lugares pela imunização, faz parte de um jogo mórbido jogar as regiões e unidades federadas mais pobres no desalento, potencializando as desigualdades regionais brasileiras, agora, com uma dimensão sanitária que já ceifou a vida de mais de 214 mil brasileiros (Mapa 1).

 

Anexo 1_ – Mapa 1 – Mortes por 100mi/ hab e doses de CoronaVac administradas (20 de Janeiro de 2021)

 

Em segundo lugar, a guerra dos lugares forjada pelo Governo Federal, sai da escala nacional e salta para a escala internacional, com uma camada geopolítica e geoeconômica, que passa a cobrar as trapalhadas feitas pelo Chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, nesses dois anos de gestão conspiracionista e completamente débil do Ministério das Relações Exteriores. Pois então, na guerra dos lugares, as vacinas e os insumos para produção delas, tornaram-se elementos de negociação diplomática com China e Índia, rivais regionais no Sudeste Asiático, e alvos dos discípulos de Olavo de Carvalho, que momentaneamente, fazem essa vergonha à memória de Barão do Rio Branco e a diplomacia brasileira como um todo. Com esse traço claramente geopolítico e geoeconômico na corrida pela imunização e na guerra desses lugares internacionais, o Brasil colhe agora, os frutos da sua política externa errática e desastrosa

Parafraseando Jair Bolsonaro (sem partido), apesar disso, temos as vacinas! No saldo duas guerras – da vacina e dos lugares – Ficamos apenas 6 milhões da Coronavac, que foram distribuídas pelo país a fora ao longo dessa semana, agora incluída no PNI – Plano Nacional de Imunização, que aliás, poderia ser chamado de Plano Nacional de Imunização (Sem vacinas). Em paralelo a isso, assistimos o drama de Manaus/AM com o colapso dos sistemas de saúde e funerário, contraditoriamente, temos os estoques do Ministério da Defesa abarrotados de remédios sem efeito contra COVID-19. E o contágio regional continua seu curso natural, dando sinais de colapso, como um efeito dominó, no interior do Amazonas e no estado vizinho o Pará. Enfim, não importa qual seja a guerra, temos a certeza de que contra o novo coronavírus, o Governo Federal tem um projeto, e é sufocante.

 

 

REFERÊNCIAS

Data SUS – COVID-19 – Ministério da Saúde Insumos – https://covid.saude.gov.br/

Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) https://covid19.healthdata.org/brazil

SANTOS, M. A Guerra dos Lugares. São Paulo. 1999. https://bit.ly/395cdOI

BERMAN, Jonathan M. Anti-vaxxers: How to Challenge a Misinformed Movement. 2020.

 

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