A Ética da Indiferença

A Ética da Indiferença

REDAÇÃO

20 de abril de 2020 | 19h50

Daniel Vargas, professor da FGV EESP e da FGV Direito Rio

 

Você sempre foi uma pessoa movida por valores. Desde a mais tenra idade, sentia na pele a dor da injustiça com os outros. Não se conformava com o sofrimento alheio. E na hora certa, decidiu ingressar em uma universidade para estudar humanidades.

Por quatro ou cinco anos, você foi apresentado aos clássicos da ética moderna, passando por Jeremy Bentham a Immanuel Kant, Jürgen Habermas a John Rawls, entre inúmeros outros. Bom aluno, prosseguiu para os seus estudos de pós-graduação, quem sabe em ética política, filosofia e economia ou direito.

Após longa e extenuante trajetória de estudos, tornou-se um intelectual. Foi trabalhar em um departamento de estado, ou virou diretor de grande empresa, ou foi ensinar em escola importante.

Até que, certo dia, na volta do trabalho, um mendigo cambaleante e esquálido te aborda na calçada, já na porta da sua casa: “com licença, poderia me dar uma ajuda para comprar uma comida?”

No espaço de um instante, um longo filme passa por sua memória. A criança espontânea, o jovem impulsivo e o adulto amadurecido são colocados de frente com sua consciência.

Os longos anos de preparação ética na alta cultura intelectual te equiparam para reagir. Você foi treinado, por muitos anos, para ver a realidade de uma maneira mais sofisticada.

Aprendeu a arte de cultivar a ‘distância’ dos fenômenos, para poder convertê-los em números, dados e regras. Assim, consegue enxergá-los melhor. A espontaneidade, um sentimento quase infantil, foi agora substituído pela razão. A antiga fé, um impulso medieval e atrasado, foi deixada de lado para que a verdade dos fatos pudesse emergir.

Enfim, sua formação intelectual te preparou para podar os impulsos ‘excessivos’ e ‘irrazoáveis’ da tradição, da religião, ou do romantismo juvenil.

Ao mesmo tempo, você também aprendeu como os problemas do mundo são complexos. Aprendeu que a democracia é um sistema sofisticado, formado por agentes em competição ou deliberação em uma engrenagem dura.

Aprendeu que o direito é um sistema de valores e regras imparciais. E que um bom regime exige dos juristas seguir os preceitos de justiça traduzidos em princípio universal. Aprendeu que a economia opera como uma plataforma espontânea, regida por uma ‘mão invisível’, tão poderosa que nenhum de nós, nem que quiséssemos, poderíamos fazer qualquer coisa para alterá-la.

Você é uma pessoa intelectualmente sofisticada. Não se move por instintos ou dogmas.

Se fosse um padre, ali na frente daquele mendigo, talvez lhe estendesse a mão, desse algo de comer, ou o levasse até a igreja para descansar.

Se fosse uma pessoa simples do interior, talvez convidasse o pobre homem pra entrar, ou quem sabe passar a noite no quarto de visita, como se fazia antigamente.

Se fosse um jovem impulsivo, talvez não se contivesse naquele instante, e por um ato pouco calculado, iniciasse ali mesmo um protesto ridículo no meio da rua.

Mas você, felizmente, não faria nada disso.

Você é racional.

Compreende bem que as chagas do mundo são fenômenos complexos. Saúde, educação, segurança, previdência… são todos problemas muito maiores do que uma mente ingênua consegue perceber.

Você aprendeu que tudo aquilo que se passa à sua volta, na verdade, é problema da “coletividade”: do governo, do mercado, do direito, da sociedade, da democracia, da justiça social, do capitalismo, do comunismo.

Mas, ao mesmo tempo, você também passou a acreditar que estes mesmos problemas do mundo não são “seus”. Afinal, você é só um sujeito cansado, após um longo dia de trabalho, querendo chegar em casa.

Em um instante, você também se dá conta de que a alta cultura te modificou.

Você aprendeu a converter o ardor e a paixão do mundo concreto, formado por gente de carne e osso, em exercício artificial de abstração.

Você é agora um “new member” da ética da indiferença. Indiferença à carne, à história, à cultura, às instituições, ao ambiente, ao seu próprio país e à miséria e sofrimento do próximo.

Felizmente! Porque assim você consegue conviver bem de perto com os dramas do mundo, lavar as mãos e dormir em paz.

“—Desculpe, senhor, não tenho trocado.”

Amanhã bem cedo, você escreverá um artigo criticando a jurisprudência à luz do segundo princípio da Justiça de John Rawls.

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