A dupla epidemia em curso

A dupla epidemia em curso

REDAÇÃO

09 de março de 2020 | 17h10

Antonio Gelis Filho, professor da FGV-EAESP, é Doutor em Administração (FGV-SP), Especialista em Direito Sanitário (FSP-USP), Advogado (USP) e Médico (USP).

Há duas epidemias em curso.

A primeira é causada por um novo tipo de coronavírus (COVID-19). O micro-organismo age como o fazem habitualmente os vírus patogênicos: infiltra seu material genético no material genético de seu hospedeiro humano e este passa a trabalhar para o vírus, reproduzindo-o. Durante tal processo, efeitos biológicos danosos podem causar síndrome respiratória que evolui com gravidade em cerca de 5% dos casos de contaminação, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. O vírus causou (números de 09 de março) a morte de mais de 3500 pessoas e já contaminou mais de 100 mil. Embora tais números empalideçam perante o número estimado em dezenas de milhões de mortes da pandemia de gripe espanhola em 1918, representam uma trágica perda de vidas e muito sofrimento.

A segunda epidemia em curso, causada por um “vírus digital”, é de pânico. Motivadas pela vontade mal dirigida de ajudar, pelo medo, ou por interesses escusos, pessoas disseminam pelo mundo desinformação sobre a epidemia causada pelo coronavírus. A existência de uma rede de comunicação planetária quase instantânea permite que experimentemos um nível de pânico poucas vezes observado em epidemias anteriores.

Epidemias exigem respostas rápidas e, por vezes, severas. Mas a adoção inconsequente de medidas como pseudo-quarentenas, determinadas arbitrariamente por particulares apavorados ou governos pressionados a “fazer qualquer coisa” por uma população descontrolada; o medo, sem qualquer fundamento na realidade, de contaminação pelo contato com produtos deste ou daquele país; e o cancelamento de eventos sem adequada justificativa científica, amplificam as consequências sociais inevitáveis da epidemia real. A interrupção de cadeias de suprimento pode levar à falta de alimentos, de remédios e de transporte. Tudo isso pode causar mais danos à saúde e até mesmo mais mortes. A queda na atividade econômica, em um mundo já com muitas dificuldades, compromete o crescimento econômico globalmente e promete gerar ainda mais desemprego, com suas consequências negativas atingindo até a saúde da população. Alguns cenários oferecidos sobre a evolução da epidemia parecem ser baseados não no conhecimento científico, mas sim em “informação” extraída de filmes adolescentes sobre o apocalipse zumbi, tamanha sua irracionalidade e natureza especulativa e alarmista.

É ainda muito cedo para avaliar e compreender tal fenômeno de “dupla epidemia”. Mas algumas hipóteses em relação às reações das instituições públicas e privadas podem ser geradas a partir da observação dos acontecimentos. Merecem estudos detalhados.

A primeira hipótese é a de que, em um mundo intensamente conectado, à medida que a dupla epidemia se espalha, espalha-se mais amplamente a desinformação. Os “vírus digitais” que geram pânico e comportamentos irracionais são muito mais infecciosos que os vírus biológicos.

A segunda hipótese é a de que, à medida que a dupla epidemia se espalha, é crescente a porcentagem de decisões tomadas por agentes públicos e privados por conta do pânico e não do coronavírus propriamente dito. Muitas quarentenas inadequadas, por exemplo, parecem estar sendo determinadas por agentes que sabem de sua ineficácia, mas que temem a reação de seus administrados se não o fizerem.

A terceira hipótese, derivada da segunda, é a de que, à medida que se espalham as duas epidemias, uma crescente porcentagem dos danos é causada pelo pânico e não pelo coronavírus. Os custos financeiros e humanos causados por medidas tomadas de forma inadequada crescem à medidas que estas são mais frequentemente tomadas.

Finalmente, uma hipótese prospectiva: sem adequado combate à epidemia de pânico, suas consequências sobreviverão ao fim da epidemia do coronavírus. Um exemplo de possível situação seria a alocação futura irracional de recursos de saúde. Não é difícil imaginar um cenário no qual, pressionados por sua população ainda apavorada, governos gastem os quase sempre insuficientes recursos da saúde em prioridades definidas por esse pânico e não pela lógica científica e social.

A emergência de novas doenças, diferentemente daquilo que muitos pensam, é algo comum. Em artigo publicado em 2008 na respeitada revista britânica Proceedings of the Royal Society: Biological Science, Woolhouse e outros afirmam que, em média, dois novos vírus humanos são descobertos por ano. Os autores analisaram dados que remontam a 1901. Os nomes da maior parte dos agentes infecciosos e as doenças que causam sequer se tornam de conhecimento geral do público: Nipah, Menangle, Torque, Febre de Whitewater Arroyo, Hantavírus de Juquitiba são apenas alguns exemplos. Some-se a isso o conceito de doenças infecciosas “emergentes”, aquelas já conhecidas, mas cuja incidência aumenta, e temos uma constatação inevitável a fazer: epidemias são parte do fenômeno da vida e devemos construir e manter mecanismos coletivos racionais para enfrentá-las. Isso inclui combater o desnecessário, custoso e perigoso pânico que as acompanha.

Em 1851, representantes de vários países reuniram-se na primeira Conferência Sanitária Internacional, onde os princípios racionais de reação coletiva à ameaças epidemiológicas foram consagrados. Seu produto mais concreto foi a primeira versão do Regulamento Sanitário Internacional, ainda hoje um dos pontos centrais do combate a tais ameaças, com sua versão mais recente datando de 2005. Talvez seja a hora de se discutir globalmente um mecanismo de combate às “epidemias digitais de pânico”, pois os meios de comunicação hoje disponíveis parecem favorecer seu surgimento, em decorrência de epidemias biológicas ou de outros fatores.

Os princípios racionais estabelecidos em 1851 para o combate às ameaças epidemiológicas constituem ótima base para eventuais discussões sobre como combater as “epidemias digitais de pânico” . Podem ser resumidos em algumas poucas e sensatas palavras: evitar e combater ao máximo os danos reais, buscando ao mesmo tempo minimizar efeitos colaterais, sejam aqueles para a liberdade individual, sejam aqueles para os interesses sociais e econômicos.

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