A difícil travessia

A difícil travessia

REDAÇÃO

29 de abril de 2020 | 10h58

Rafael R. Ioris, Professor da Universidade de Denver.

 

Vozes de diferentes quadrantes da sociedade brasileira tem nos últimos dias alardeado que o governo Bolsonaro teria acabado. É inegável que o curto e turbulento período de Bolsonaro na presidência encontra hoje sua maior crise. Ainda que fortemente erodida, a gestão Bolsonaro não vai, porém, ter um desfecho final a menos que as forças democráticas do país coordenem esforços em prol da defesa do que ainda resta do Estado de Direito e da institucionalidade da própria democracia.

Não é surpreendente que um governo montado em um arranjo esquizofrênico com base no moralismo Udenista e na agenda neoliberal, aglutinados ‘as pressas sob o comando de um político do baixo clero parlamentar – cuja carreira sempre foi definida pela defesa de interesses corporativistas e da cultura militarista – não tenha funcionado. Bolsonaro já vinha perdendo credibilidade junto ao seus eleitorado de perfil menos ideológico dadas as revelações do envolvimento de seus filhos com milícias cariocas – de fato, algo notoriamente conhecido mas que recebeu mais atenção da mídia após a eleição do pai. Da mesma forma, os insucessos da agenda neoliberal em apresentar resultados positivos ajudou a desacreditar o governo junto a importantes setores empresariais.

Ainda assim, foi a desorganizada e ideologicamente pautada resposta dada aos desafios enormes criados pela chegada da Covid-19 ao Brasil que aprofundou de maneira decisiva os problemas do governo ao longo das últimas semanas. A recente demissão do Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta acelerou o desgaste de Bolsonaro frente as classes médias que vem batendo suas panelas nas janelas e varandas das maiores cidades do país quando da aparição do presidente na televisão. Da mesma forma, a saída do ex-juiz Sérgio Moro, um dos pilares centrais do governo, em protesto pela demissão do Diretor da Política Federal Maurício Valeixo, parece representar, sim, um momento decisivo de um governo que talvez esteja mesmo em seu ocaso.

Mas como se dará o processo concreto de fim da administração Bolsonaro? Governos podem implodir, mas ao menos que uma transição seja construída – especialmente na ausência de um alternativa de poder legitima ou pelo menos de fato capaz de assumir – pouco de positivo emerge de tais processos.

O atual momento político tem todos os elementos para ser uma das mais importantes crises da história do país. A economia enfrentará uma recessão talvez sem precedente, a crise sanitária  em curso será a maior dos últimos 100 anos, e o sistema político enfrenta um impasse profundo já que o governo não governa mas as oposições partidárias e parlamentares e o sistema jurídico não dispõem de um escript claro do que fazer.

Apesar de grave, a sociedade brasileira enfrentou crises similares na sua tortuosa trajetória histórica, especialmente no pós guerra. Em 1954, tivemos o suicídio de um líder político popular que se encontrava sob a ameaça de deposição militar. Assim, o país sofreu o trauma de perde de forma trágica seu presidente por causa da incapacidade de construir uma forma alternativa de transição política.

Desdobramento similar, que poderia ter gerado violência em escala maior, foi abortado em 1961, quando lideres importantes do período, com Trancredo Neves, articularam a solução parlamentarista para a crise da renúncia de Jânio Quadros. Transição que parecia ainda mais difícil, pois significava por fim a ‘a ditadura militar que funcionava a vários anos e que detinha profundas raízes institucionais e subtrato cultural estruturado por todo país, ocorre no início dos anos 80, quando lideranças desgarradas do regime vigente, como Teotônio Vilela, se dispuseram a construir junto a forças da oposição um caminho de transição, talvez negociado e cerceado demais, mas ainda assim absolutamente necessário.

Já na Nova República, sob a chamada Constituição Cidadã, experimentamos o impeachment de Fernado Collor de Mello em um processo que poderia ter fragilizado nossa nova democracia, mas que, pelo contrário serviu para aprofundá-la por ter incorporado várias vozes sob a liderança personalidades apartidárias, como Barbosa Lima Sobrinho. Infelizmente a mesma lógica não pautou o questionável processo de afastamento da presidente Dilma Rousseff em 2016, processo que, ao invés de consolidar nossa recente experiência democrática, acabou por polarizar o pais de uma forma não vista desde o início dos anos 60.

É no substrato desse processo fratricida de confronto ideológico e demonização do adversário político, agora visto como inimigo mortal, que o Brasil se encontra novamente frente ‘a necessidade de afastar um presidente, embora os caminhos para o mesmo não estejam dados e nem serão facilmente construídos.

Bolsonaro ainda possui uma base social importante e o apoio de figuras chave das Forças Armadas. E na dinâmica destrutiva dos últimos anos acabamos por deslegitimar qualquer personalidade que teria que desempenhar um papel similar ao que foi feito em experiências anteriores por atores como Dom Paulo Evaristo Arns e Evando de Lins e Silva.

 

Enfrentamos hoje o maior desafio político desde o nosso processo de redemocratização. Como responderemos ao mesmo nos próximos meses definirá nossa trajetória como democracia, república das bananas, ou talvez mesmo um novo regime ditatorial. A ser bem sucedida, a travessia a ser feita requer união e visão, infelizmente elementos em falta no país nos últimos anos.

 

       

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