“A diferença entre quem está do lado da verdade e quem está do lado da mentira”: recortes sobre a desconfiança nas instituições e na imprensa no Brasil e a apropriação do modelo jornalístico*

“A diferença entre quem está do lado da verdade e quem está do lado da mentira”: recortes sobre a desconfiança nas instituições e na imprensa no Brasil e a apropriação do modelo jornalístico*

REDAÇÃO

30 de abril de 2022 | 17h00

Maíra Orso, formada em Jornalismo (UEPG) e Mestranda em Comunicação (UFPR)

Júlia Frank de Moura, graduada em Comunicação Social com habilidade em Publicidade e Propaganda (Unicentro), mestra em Comunicação (UEL) e Doutoranda em Comunicação (UFPR)

A confiança nas instituições midiáticas vem se deteriorando há décadas e, embora o objetivo desse texto não seja demonstrar qualquer relação estatística de causalidade entre distintos fatores, argumentamos que há um “novo” elemento que contribui para mitigar as instituições, que é um dos componentes das estratégias da retórica discursiva do ativismo de direita e de um discurso que se espalha majoritariamente nas redes sociais digitais.

E não se trata apenas de atacar as instituições jornalísticas, mas de criar uma nova rede informativa de referência de uma direita alternativa. Ou seja, uma situação que vinha se dando amplamente por distanciamento, pela atuação duvidosa, é intensificada por essa retórica do ativismo de direita.

A literatura nacional e internacional tem demonstrado que, a partir de laços permitidos pela web 2.0, a direita brasileira ressurge e se reorganiza (MIGUEL, 2020; ROCHA, 2019), numa rede que ficou conhecida como ativismo de direita online, formando repertórios de ação coletiva, ganhando visibilidade e movimentando o debate público com discursos reacionários, conservadores, e muitas vezes, antidemocráticos (MESSENBERG, 2017, FREELON, et al, 2020; SOLANO, 2018; OLIVEIRA, et al, 2021).

Uma das principais características desse ativismo nas redes sociais é o ataque às instituições jornalísticas, ambiente no qual articulam seus discursos numa lógica altamente impactada por conta própria, contribuindo para fenômenos como desinformação, fake news, descredibilização das instituições tradicionalmente detentoras de informação, numa tentativa de manipulação da opinião pública, com o uso de fábrica de trolls e de distribuição segmentada de mensagens (CESARINO, 2019; ALVES, 2019; BENNETT, LIVINGSTON, 2018).

Formato de escrita, links noticiosos, teases, manchetes, fotografias, fontes, créditos e demais características do campo jornalístico, assim como sites com layout, design e URL semelhante a um veículo de imprensa, são algumas das características típicas do campo técnico jornalístico, que tem sido encontradas nas páginas de direita online, numa tentativa de copiar o formato jornalístico, e passar à audiência a impressão de que o conteúdo é uma publicação de um jornal (BENNET; LIVINGSTON, 2018).

Dessa forma, os produtores e circuladores de narrativas falsas tentam o que Dourado e Gomes (2019) chamam de dupla contrafação, “seja inventando ou alterando os fatos a que referem as suas histórias, seja camuflando a narrativa, na ordem da linguagem, segundo o estilo e a aparência das reportagens jornalísticas” (s/p).

Isso acontece, no caso brasileiro, nas páginas do Twitter escolhidas para o escopo da pesquisa, as contas Direita Brasil e Verde e Amarela[1], que se alinham aos comportamentos e ao repertório de outros grupos de direita, propagando valores conservadores e reacionários.

Entretanto, entre alguns dos resultados importantes a serem mencionados, está uma nítida diferença entre os dois perfis analisados: há maior presença de ataques em geral na página Verde e Amarela. Essa diferença é comprovada no cálculo dos resíduos padronizados (-4,1% para presença de ataques na página Direta Brasil e 6,0% para presença de ataques na Verde e Amarela).

Após a devida categorização percebemos um maior percentual para ataques às instituições de maneira geral (18,2% das publicações contam com esse tipo de ataque). A mídia fica com a segunda posição (aparecendo em 15,7% das publicações), seguida dos ataques ideológicos (que aparecem em 10,6% dos conteúdos), ataques aos valores (presentes em 10,1% dos tweets) e, por fim, ataques gerais (em 4,1% das postagens).

Fonte: pesquisa das autoras.

Com mais de 40% dos ataques direcionados à imprensa, o Grupo Globo é a instituição midiática mais atacada no material pesquisado. Não há diferença significativa entre as duas páginas no que diz respeito a ataques a Rede Globo, o que é comprovado pelo cálculo dos resíduos padronizados (que não exibem diferenças significativas), ou seja, ambas páginas atacam igualmente esse veículo jornalístico em relação a seu total de postagens.

Já a Veja é atacada com mais frequência (em relação ao número final de postagens) pela página Verde e Amarela, que exibe um resíduo padronizado significativamente positivo de 3,8 para este cálculo.

Distribuição dos tipos de ataque às instituições midiáticas

Fonte: pesquisa das autoras. (Qui-quadrado: 23,333   p=0,001)

O humor e a ironia aparecem em maior quantidade nas postagens (17,60%), seguidos pelo radical (15%) e jornalístico (9,15%). O tweet de 4 de janeiro de 2020, da página Verde e Amarela é um bom exemplo do uso do modelo jornalístico por conveniência: “- Obras definitivas têm chegado em todo o Nordeste. No vídeo, poços artesianos no interior do Maranhão, o único estado governado por comunistas declarados no Brasil. https://t.co/a88r97rMJi”.

O modelo jornalístico, neste caso, foi utilizado para ressaltar obras feitas durante o mandato de Bolsonaro, ao mesmo tempo em que critica o governador do Maranhão. O mesmo modelo, conforme já exemplificado anteriormente no artigo, é também usado para críticas à imprensa tradicional, em outros contextos não convenientes à direita.

Dados sobre o uso do modelo jornalístico

Fonte: pesquisa das autoras.

Conclui-se, portanto, que o caso brasileiro é heterogêneo, como parte da literatura já propõe, no entanto, há pontos em comum entre as diferentes vertentes: o conteúdo dessas duas páginas sustenta o argumento de que é preciso compreender as formas de articulação de tais grupos de forma mais complexa – que era o objetivo do texto – demonstrando que há uma relação complexa nas dinâmicas do ativismo de direita quando se trata das instituições midiáticas, havendo ataques direcionados à imprensa e seus agentes atrelado ao uso estratégico tanto do modelo jornalístico quanto da cobertura feita pela imprensa.

Compreender o conteúdo publicado pelas páginas é também fator importante na compreensão do que parte da direita brasileira tende a propagar no meio online, e na busca pelo entendimento do que prospecta tantos milhares de seguidores.

* A presente publicação é recorte de uma pesquisa/artigo em construção pelas pesquisadoras Michele Massuchin, Maíra Orso, Júlia Frank de Moura e Dayane Saleh. As autoras/pesquisadoras deste texto fazem parte do Grupo de pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública da UFPR (CPOP – UFPR), coordenado pelos professores Emerson Cervi e Michele Massuchin. Site do Grupo de pesquisa: http://www.cpop.ufpr.br/portal/

REFERÊNCIAS

ALVES DOS SANTOS JUNIOR, Marcelo. Plataformização da comunicação política: governança algorítmica da visibilidade entre 2013 e 2018. E-Compós, vol. 24, p. 1-22, 2021.

BENNETT, W. L.; LAVINGTON, S. The disinformation order: Disruptive communication and the decline of democratic institutions. European Journal of Communication, v. 33(2), p. 122–139, 2018.

CESARINO, Letícia. Identidade e representação no bolsonarismo. Revista de Antropologia, v. 62, n. 3, p. 530-557, 2019. Disponível em: .

DOURADO, T. M. S. G. Fake News na eleição presidencial de 2018 no Brasil. Doutorado (Comunicação). Universidade Federal da Bahia, 2020.

FREELON, D.; MARWICK, A.; KREISS, D. False equivalencies: Online activism from left to right. Science 369, 1197–945, 1201, 2020.

GOMES, W. Crônica de uma tragédia anunciada: como a extrema-direita chegou ao poder. Salvador: Sagga, 2020.

MESSENBERG, D. A direita que saiu do armário: a cosmovisão dos formadores de opinião dos manifestantes de direita brasileiros. Soc. estado. Brasília, v. 32, n. 3, p. 621-648, Dec. 2017.

MIGUEL, L. F.. O mito da “ideologia de gênero” no discurso da extrema direita brasileira. Cadernos Pagu, (62), e216216, 2021. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/8667136

OLIVEIRA, A. S.; LEITE, B. R. de Messias; MARQUES, R. S. As novas direitas no Brasil e as estratégias de comunicação política nas mídias sociais. Em Tese, Florianópolis, v. 18, n. 2, p. 245269, set./dez., 2021.

RIBEIRO, E. Confiança política na América Latina: evolução recente e determinantes individuais. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, v. 19, n. 39, p. 167-182, jun. 2011.

ROCHA, Camila. ‘Menos Marx, mais Mises’: uma gênese da nova direita brasileira (2006-2018),  2021.

SOLANO, E. Crise da Democracia e Extremismos de Direita. São Paulo: Fundação Friedrich Ebert, 2018.

Notas

[1] Para a realização da pesquisa, foram coletados 2872 posts das contas Verde e Amarela e Direita Brasil, durante 18 meses entre 2020 e 2021, com o auxílio do software R (um ambiente de linguagem de programação).

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