A CPI da Pandemia e a violência política de gênero

A CPI da Pandemia e a violência política de gênero

REDAÇÃO

26 de maio de 2021 | 16h39

Ananda Beatriz Marques, Mestra em Ciência Política pela UFPI

A CPI da Pandemia completa um mês de atividade no dia 27 de maio, e nestas quatro semanas testemunhamos cenas ilustrativas de como a desigualdade de gênero se reflete nas estruturas de poder, em especial nas instituições políticas brasileiras. Tivemos um pouco de tudo que o sexismo oferece: desde a ausência de mulheres como membros titulares ou suplentes da comissão, até tentativas de silenciamento e constrangimento, tratamento discriminatório, pedidos de “calma, senadora” e a pergunta clássica “a senhora está nervosa?”

Talvez, a cena mais ilustrativa (até agora) aconteceu no dia 13 de maio, quando um senador maranhense fez solicitação à presidência da CPI para que, assim como as mulheres, pessoas com comorbidades pudessem ter representação na comissão. O raciocínio do senador era de que se havia representação feminina e a CPI “não trata de temas específicos das mulheres”, deveria haver também representação para as pessoas mais afetadas pela pandemia, aquelas com comorbidades, como ele. Disse ainda que se as mulheres não têm assento, a culpa é dos partidos.

A CPI tem 18 membros, 11 titulares e 7 suplentes, todos indicados pelos partidos políticos a partir de negociação interna. Como nenhuma mulher foi escolhida, a bancada feminina do Senado, formalizada em oito de março deste ano, solicitou que pudessem falar na mesma lista de membros, ainda que sem direito à voto e à apresentação de requerimentos. Ficou acordado, assim, que as representantes da bancada feminina podem inscrever-se para falar antes dos demais senadores não-membros da comissão.

O direito de se inscrever para falar foi suficiente para incomodar e mobilizar os homens políticos do Senado. Chegamos ao ponto de os governistas utilizarem os ataques às senadoras como estratégia para tumultuar os depoimentos. Entretanto, o machismo é democrático, independe da posição no espectro ideológico, ataca a qualquer mulher e usa dos mais diversos malabarismos retóricos para justificar o injustificável.

Dentre todas as situações, a fala do senador maranhense foi a que mais me chamou atenção porque equipara gênero à comorbidade e ignora que as mulheres são afetadas pela pandemia. Diferente do que este alegou, a CPI deveria tratar da vida das mulheres porque ser mulher no Brasil é um fator de risco – somos a maioria dos profissionais da linha de frente, a maioria dos desempregados e pobres e, temos no Brasil a espantosa porcentagem de 80% das mortes maternas por Covid-19 no mundo.

Não bastasse esta realidade difícil, temos acompanhado em tempo real o sexismo televisionado. Senadoras são publicamente submetidas à situações de constrangimento e discriminação, e têm suas vozes – as nossas vozes – cortadas pela fala mais alta do colega senador, abafadas pela risada da bancada governista ou invalidadas pelos panos quentes da presidência da comissão.

O que temos acompanhado tem nome e definição: é violência política de gênero, que é a violência contra uma pessoa devido a seu gênero e que objetiva impedir o acesso ou exercício da política. Em tese, homens e mulheres podem sofrê-la, porém, em nosso país, mulheres têm sido o grande alvo. O caminho dessa violência é extenso, desde os impedimentos para participar das disputas eleitorais até as violações no exercício da política, chegando ao assassinato.

As situações na comissão evidenciam a prática desta violência pelos senadores e até mesmo testemunhas, quando tratam as senadoras de modo diferenciado e geralmente negativo, devido ao seu gênero e com o intuito de impedir o pleno exercício da política. Estas práticas são nocivas à própria democracia brasileira, que tem sido corroída de dentro para fora há algum tempo. Portanto, as cenas que estão acontecendo não dizem respeito somente aos protagonistas. A violência política de gênero tem um duplo efeito, agride a senadora que está sendo alvo no momento, mas agride, simultaneamente, todas as mulheres brasileiras. E sem as mulheres, não há democracia.

Penso que a metáfora que Virginia Woolf nos apresenta em Um Teto Todo Seu, de que as mulheres têm servido de espelho de aumento para os homens, é bastante útil para compreender o que estamos assistindo. Parece-me que a CPI é um território em disputa e que os homens que ali pisam, quando encaram uma senadora falando, se vêem diante de um espelho que lhes aumenta o tamanho. Que homem não vai querer parecer maior numa guerra política?  Somente aqueles que reconhecerem que mulheres são seres humanos e não objetos, mas estes homens, parecem raros, ainda mais na CPI da Pandemia.

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