A Covid-19 e o neoliberalismo: reorientação ou reforço de curso?

A Covid-19 e o neoliberalismo: reorientação ou reforço de curso?

REDAÇÃO

07 de maio de 2020 | 20h35

Rafael R. Ioris, Professor da Universidade de Denver, nos EUA.

O Covid19 é um vírus subversivo! Estranho nominar um agente não vivo com tal termo. Ocorre que sob a presença inesperada de tal micro-organismo o mundo todo foi forçado e se reorganizar, de maneira improvisada e sob enorme tensão, de formas não vistas por nenhuma geração presente. Da noite por dia, cidades inteiras, sob regimes democráticos ou não, foram forçadas a limitar o contato social e a ter horários de funcionamento público restritos ou mesmo cancelados. Milhões de pessoas, ao redor do mundo, se viram repentinamente obrigadas a uma existência nova, definida pelo acesso ao mundo exterior via novas ferramentas tecnológicas digitais. Assim, ao passo que o contato físico foi eliminado, a comunicação virtual se consagrou como a mais importante, talvez mesmo única, expressão de sociabilidade dos próximos tempos.

Muito tem se falado sobre a potencial capacidade do Covid19 de nos forçar a repensar padrões de consumo dado que estamos, todos, de fato consumindo menos. O preço do barril de petróleo ficou negativo nos últimos dias já que a circulação de pessoas foi fortemente reduzida. Alguns tem mesmo circulado nas redes sociais imagens, em sua maioria falsas, do retorno de golfinhos aos canais de Veneza, como se a própria natureza estivesse nos enviando uma mensagem dizendo: chega! Vocês tem que repensar seu modo de vida. Não aguentamos mais!

Embora lúdico, sabemos que personificar a natureza é um recurso retórico que somente serve para nós mesmos. Mas se a natureza não nos fala de maneira direta, qual impacto poderia, ainda assim, ter a experiência única de estarmos separados mas ao mesmo tempo em uma mesma vivência de isolamento ao redor do mundo? Sairemos dessa mais cientes das necessidades comuns de todos seres humanos? Ou, ao contrário, estaremos ainda mais egoístas pois teremos ainda mais medo da convivência comum?

A fim de melhor pensarmos tais questões, caberia, em primeiro lugar, pensar que a ideologia hegemônica que ajudou a definir não só o padrão de produção e consumo, mas principalmente a própria sociabilidade e processo de deliberação política aos longo dos últimos anos foi o neoliberalismo. Defendendo máximas do tipo: todo coletivismo é autoritário, e só o que existe é o indivíduo, o neoliberalismo reduz a sociedade como um todo ao atomismo individualista. E nessa concepção de mundo, onde não só a tal mão invisível atuaria mas onde agiríamos todos em disputas diárias que ecoariam a realidade Hobessiana da ´luta de todos contra todos´, a própria possibilidade de projetos coletivos é negada e mesmo condenada.

Ao atingir o mundo após 40 anos de defesa desse tipo de concepção de sociedade, especialmente após ter adquirido um tom ainda agressivo como propagado por líderes políticos autoritários, como Trump, Modi, Bolsonaro, etc., parece difícil crer que o Covid19 sirva como elo de ligação para projetos guiados ‘a promoção da noção de sociabilidades partilhadas. Alguns afirmam que sairemos dessa mais prontos a defender a necessidade de sistemas públicos e universais de saúde, ou mesmo projetos de renda básica universal. Ainda que isso possa ser verdade em países onde tais noções insistiam em existir antes da chegada do vírus (como Alemanha), não parece realista crer que sociedades mais imersas no neoliberalismo autoritário de hoje, como EUA e Brasil, tais projetos possam ser implementados.

Além disso, e aqui reside o grande paradoxo subversivo do Covid19. A única forma de prevenção ao vírus (ou pelo menos minoração de seu impacto), o distanciamento físico ou isolamento social requer uma lógica coletivista a qual não estamos mais acostumados após tantos anos de bombardeamento da ideologia neoliberal e cultuação do individualismo ´salve-se quem puder´. Em termos concretos, o Covid19 requer que cada um de nós se veja não somente como vítima mas também como ameaça potencial ao outro, a quem cada um deveria querer proteger a fim de também se beneficiar pela contenção do contágio coletivo. Ou seja, um vírus sem consciência, e com certeza sem ética, nos obrigou a um comportamento coletivo baseado em visão de sociedade onde cada um é, e tem que ser, responsável pelo bem-estar do outro, já que isso beneficiaria a todos.

Não surpreende, portanto que em vários países, como nos EUA e no Brasil, onde a lógica neoliberal foi tão fetichizada por décadas, muitos estejam se recusando, inclusive de maneira violenta, a cumprir as medidas de isolamento. Que essa recusa seja, no mais das vezes, articulada, cínica ou sinceramente, não importa, com base no argumento das liberdades individuais – nesse caso, liberdades suicidas, diga-se de passagem – demonstra efetivamente a introjeção da ética neoliberal ao extremo, onde eu me vejo no direito de potencialmente matar o outro. E ainda que muitos tenham apoiado as políticas de isolamento, isto não minora a gravidade de termos visto, em meio a maior pandemia mundial dos últimos 100 anos, uma resistência tão forte por parte de tantos a noção de uma coletividade partilhada.

A medida que as cidades de tantas partes do mundo passem a retomar suas atividades diárias, poderemos ter uma melhor noção do efeito e especialmente da importância do comportamento coletivo de contenção. Poderemos também compreender melhor o potencial da repentina e forçada retomada de uma concepção menos individualista das sociedades modernas. Assim, poderemos talvez pensar qual será o mundo pós-Covid19. Saberemos reorganizar nossos projetos políticos e econômicos por parâmetros mais inclusivistas ou reforçaremos a lógica privatista predatória dos últimos anos? Que viver verá!

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.