A comunicação política (em especial, a digital) agora permeia toda a ciência política

A comunicação política (em especial, a digital) agora permeia toda a ciência política

REDAÇÃO

02 de junho de 2021 | 16h19

Rafael Cardoso Sampaio, Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA). Foi diretor da Compolítica entre 2019 e 2021. Atualmente, é Coordenador do PPGCP-UFPR. Twitter: @cardososampaio

Terminado o 9º congresso da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (Compolítica), gostaria de frisar algumas coisas que eu disse por lá, mas que na verdade já foram ditas algumas dúzias, talvez centenas de vezes pelos colegas da Comunicação Política há pelo menos 20 anos. A questão, acredito eu, é que chegamos ao ponto de inflexão.

Com isso, assim declaro, (com nenhum poder a mim investido), que será impossível o estudo de praticamente qualquer objeto da ciência política sem algum conhecimento, reconhecimento ou noção da comunicação política como contexto, variável ou influência direta nos atores e instituições políticas. Ou ainda, que a comunicação política (em especial, a digital) agora permeia toda a ciência política.

Em outras palavras, todas as práticas políticas são permeadas, mediadas ou afetadas pela comunicação no seu sentido mais amplo. E, nos casos excepcionais em que não são, é porque acontecem em segredo e sob grande temor de serem afetadas por ela, como as reuniões de gabinetes às portas fechadas (ou em grupos de whatsapp “secretos”). E ai de quem vazar (Oi, Moro?).

Como nossos colegas mais próximos do comportamento político e da opinião pública já vêm notando há anos, todas as eleições e as campanhas eleitorais já são jogadas tendo o tempo de TV como importante variável. Não obstante, se há algo que as eleições de Trump, de Messias e outros eventos recentes nos ensinam é que há algo mais. Cabe agora ao cientista político compreender, mesmo que minimamente, aquilo que geralmente chamamos de sistema híbrido dos media ou ecologia midiática complexa. Nunca houve tantos dispositivos, tantas conexões, tantos canais como agora e eles não podem mais ser estudados ou considerados isoladamente. Jair não ganhou evidentemente apenas pelo ZAP, mas seu séquito digital formado anteriormente e suas redes de disparos pelo aplicativo são inegavelmente fatores importantes e que desafiaram regras tradicionais da ciência política para a lógica da vitória eleitoral: dinheiro, apoio de partidos, capilaridade, concorrência a um segundo mandato e o tempo de TV (isso para não mencionar a própria gramática estética do HGPE).

Todavia, podemos sair das eleições, se preferirem. Os políticos profissionais continuam em suas disputas e barganhas. Não é preciso, como Manin, negar a importância dos partidos ou fazer a defesa da democracia de público. Primeiro, porque ela tende a minimizar as ações e efeitos dos agentes midiáticos, tendendo a considera-los como simples “meios de comunicação”. E se Manin, naquele momento, estava preocupado com a perda da capacidade de mediação dos partidos entre público e políticos profissionais, o que diria para o momento atual em temos uma infinidade de mediadores nas mais diversas plataformas, aplicativos, veículos de imprensa tradicional e afins?

Em segundo, porque partidos e políticos profissionais ainda importam (e muito!) e porque se adaptaram à lógica youtuber/instagramer com mais velocidade que os acadêmicos. Já temos uma legião desses instagramers como políticos, mas é seguro afirmar que nas escalas mais elevadas (e.g. deputado federal, senador), já não há gabinetes sem assessores específicos para redes sociais e o que está sendo dito ali tem sua importância. Quem dirá o Senador que colhe (e, de fato, usa) sugestões de perguntas para CPI pelo Instagram? Dentre os vários quesitos do capital político, a visibilidade e capital midiático passam a contar para conquistar cargos (enquanto a ausência dos mesmos pode ser importante para atuar mais adequadamente nos bastidores).

A representação política, no seu sentido ampliado, agora passa muito pelas tais redes sociais digitais. E não são apenas as ruas e as surveys os termômetros da opinião pública. Com precisão invejável, tais corporações e uma série de empresas, atores profissionais e acadêmicos agora são capazes de dizer com enorme celeridade como estão as contendas discursivas digitais. E nossos políticos, como bem sabemos, são hábeis em usar essas vitórias nos campos digitais para fazer reivindicações de legitimidade de seus posicionamentos. Possivelmente, um lado até melhor que o outro.

Paralelamente aos políticos profissionais, também as instituições estão fazendo uso de ferramentas de comunicação digital e mesmo de comunicação pública. Ali são os burocratas que atuam para promoverem ou resistirem a inovações. As demandas por mais participação civil e, especialmente, por transparência de diferentes setores da sociedade são crescentes. Assim como para abertura e disponibilização atualizada de dados. Também os colegas das relações internacionais sabem bem como organizações multilaterais surgem, demandam, exigem e impõem esses novos mecanismos de governança digital. E aí surgem contrastes instigantes. Podemos ter uma legislatura conservadora e reacionária, por um lado, e termos um parlamento considerado com altos níveis de transparência, por outro, em avaliações de tais organizações. Afinal, essa Câmara é transparente ou não? Assim, como no outro extremo, esperamos que a conta oficial do Planalto ou do MPF sigam normas republicanas de comunicação pública. Afinal, na atual lógica, aquilo que o presidente ou uma instituição diz em sua conta do Twitter é considerado, para todos efeitos, uma declaração pública e oficial. Que o digam os interrogadores da CPI da Covid.

Por sua vez, a pandemia da covid 19 obrigou a todos (políticos, burocratas e instituições) a repensarem rapidamente em formas de manterem as suas rotinas, agora de forma remota, mudando a própria lógica de negociação entre políticos e forças partidárias, ao mesmo tempo que abriu brechas para inovações aqui e acolá. Outro ponto de inflexão pode estar acontecendo aqui (mas por favor sem “novo normal”).

Saindo das instituições, não temos mais como pensar em organizações cívicas, movimentos sociais e movimentos orgânicos que não passem pelos meios digitais. Seja para se comunicarem, para se organizarem, para dar visibilidade às suas pautas tanto para a sociedade quanto para pressionar os outros diferentes atores políticos. Movimentos e ações de grupos minoritários são cada vez mais capazes de pautar a agenda pública e suas discussões. Desde o #elenão #metoo ao #blacklivesmatter sabemos que a militância digital tem relevância crescente e uma conexão indissociável com as ruas e diversas outras ações. Em termos de Brasil, desde 2013, tornou-se quase impossível tratar desses protestos sem entender o mínimo do digital. Assim, como tratarei adiante, são peças vitais para a compreensão de movimentos e discursos recentes da extrema direita.

E a cereja no topo são as fake news. Estão em todos os lugares, em todos os discursos. A esfera pública nunca esteve tão em voga e possivelmente tão ferida, afinal também se abriu a “caixa de pandora” de discursos extremistas e de ódio. É praticamente impossível entender a nova direita (existiria MBL sem internet?), a extrema-direita e o bolsonarismo sem entender as redes e a lógica das fake news e campanhas de desinformação. A pandemia só reforçou como os efeitos podem ser devastadores. Afinal, quem nunca ouviu falar da “vachina”, da vacina chinesa comunista do Dória, que implementa chips, altera o DNA das pessoas e até as transforma em jacarés (e não é que isso terminou com uma grande disputa política por quem teria a primeira foto com a vacina?).

Fenômenos que despertam reações em termos de regulação dos mais diferentes órgãos de Estado. STF, TSE, Senado, Câmara todos discutem a regulação das fake news, enquanto também pairam as questões sobre os algoritmos e lógicas que gerem as tais plataformas de redes sociais e afins. Ora, são corporações gigantescas internacionais que pautam nosso debate público e que não desejam ser reguladas ou seguir as nossas leis sem sua plenitude. Deveria o YouTube (ou Facebook) deixar disponível um vídeo que recomenda cloroquina ou que afirma que a Terra é plana? Por outro lado, regulações pouco pensadas podem cercear a liberdade de expressão, dar excessivo poder a essas corporações e permitir a perseguição de determinados grupos.

A bola da vez é o voto impresso e as supostas fraudes da urna eletrônica. Pauta fake, cortina de fumaça, ataque à legitimidade das instituições democráticas, preparação para questionamento das eleições? É uma disputa que evidentemente acontece nas arenas políticas, porém que está neste momento reverberando por toda essa complexa e incontrolável ecologia midiática. Quantos já duvidam da segurança da urna e lisura do processo eleitoral? E quantos já repassaram material desse tipo? Da tia do zap ao médico cloroquinista.

E em tempo de atenção digital e pandemia, eis que Felipe Neto, o youtuber que falava com nossos filhos, torna-se ator político relevante no cenário nacional. Assim como no cenário de fake news da pandemia, Átila Iamarino é figura prodigiosa. Do outro lado do front, temos Alexandre Garcia que abandona o posto de jornalista para ser influencer, Vlog do Lisboa, Kim Paim, Nando Moura, Terça Livre e outros nomes que eram totalmente estranhos ao nosso dia a dia, mas eis que alguns deles lá estão como políticos profissionais, como Kim Kataguiri, Carla Zambelli, Joice Hasselmann, Fernando Holiday, entre tantos outros.

Ademais, os boatos da morte do jornalismo tradicional foram claramente exagerados. Outro dia mesmo, estávamos reclamando que três jornais não deram a primeira capa para as manifestações contra o governo. Acompanhamos e debatemos vividamente quem estará no Roda Viva e qual será a escalada do Jornal Nacional no dia de mais uma fala ou ato repulsivo do 01 ao 04. O editorial da “escolha muito difícil” é uma eterna lembrança nessas longas décadas do atual governo. Entretanto, tudo está mais complexo, pois agora temos uma miríade de outros jornais, blogs, canais e fontes para nos informar e estes podem ser parciais ideologicamente sem tantos questionamentos, afinal nem todos são ou se consideram jornalísticos. Com o detalhe que alguns só produzem conteúdo voltado para um lado, enquanto outros produzem sistematicamente fake news.

Há ainda a turba daqueles que apenas querem visibilidade, fama e dinheiro e espalham apenas imbecilidades. Assim, fact-checking tornou-se outra palavra do nosso dia a dia e parece ser algo que se conecta aos debates eleitorais, aos discursos de instituições e atores políticos ou ao dia a dia numa comissão parlamentar de inquérito. E vejam que CPI se torna o grande entretenimento nacional, uma vez que o BBB acabou e o No Limite não pegou. E o Senador, aquele mesmo do Insta, parece que não é munido por informações apenas por seus assessores, mas por dúzias de grupos da sociedade civil organizados para apontar dados, relatórios, discursos e falas que podem ser usadas para questionamento. Afinal, diferente de antes, quando os colegas que estudavam o HGPE precisavam desesperadamente gravar os episódios em seus vídeo-cassetes (tecnologia alienígena para metade da população mundial atual), agora está tudo disponível online. Tudo deixa rastros. E os rastros e os dados agora valem muito. Para as tais corporações, mas também para a política.

A Lava Jato, então, é um capítulo tão grande que vou praticamente saltá-la, porém não há figura, incluindo o próprio Moro, que não reconheça a importância dos media para sua própria existência e alcance. Assim como teve um veículo alternativo, o The Intercept, para seu desmascaramento. E, agora, interessantemente, julgamentos do STF chamam mais a atenção que jogos do campeonato brasileiro e todos sabem a escalação da Corte de cabeça. E o lado de lá, pela comunicação, está sempre atacando a instituição e seus membros. Criando, repercutindo e consolidando um discurso de desinformação, porém especialmente de deslegitimação de nossa Suprema Corte.

As coisas estão mudando rapidamente, meus colegas. Mesmo nós da comunicação política somos pegos de calças curtas vez em quando (ou volta e meia). Redes, telas, fluxos de mensagem e mensageiros se misturam neste complexo sistema híbrido dos media e a luta agora é por atenção. Empresas jornalísticas, youtubers e influencers digitais (cantores, artistas, jogadores de futebol etc.) e também políticos profissionais, partidos e instituições públicas estão todos lutando para que você não role muito rápido a tela de seu celular, ou para que curta ou compartilhe um conteúdo para sua tia do zap, que irá, por sua vez, repassar para o grupo da igreja, do bairro e, claro, da hidroginástica. E essa mensagem poderá ser o micro recorte de uma fala dita na CPI, uma fake news ou uma fact-checking. Poderá ser de um gabinete ou de uma campanha oficial, feito por agentes estranhos ou ocultos (afinal, quem são os responsáveis pelo “Bolsocaro”?). E dá-lhe polarização política, que alguns dizem se tratar de uma espécie de hiperpolitização do brasileiro, enquanto outros afirmam que é despolitização em si.

E isso porque não mencionei Big Data, inteligência artificial, machine learning, deep learning e outros nomes e conceitos complexos que estão aí no meio dessa salada mista. Entram, também, análises de redes (quem são os nós centrais e suas arestas apontam para onde?), fluxos de informação (quais as fontes e quais os direcionamentos?), viralização, alcance e velocidade; e outras métricas que certamente não valem ser mencionadas aqui, mas que em breve entrarão na gramática do cientista político. Na prática, numa outra linha que não quero aqui explorar, a ciência de dados também nos uniu em outras searas. O que foi muito pensado para baixar dados de redes sociais digitais agora também é usado para baixar banco de dados de instituições políticas. E a integração ali acontece com bastante naturalidade.

É claro que o objetivo não é dizer: cientistas políticos, parem tudo agora mesmo e vamos estudar apenas a comunicação política. Obviamente, todas as antigas, digo, tradicionais variáveis e todos os objetos clássicos aí estão. E nem é preciso deixar de reconhecer que a área tem prestado mais atenção ao fenômeno, ao menos nos últimos oito anos (depois do susto de 2013!). O mote, como mencionei ao início, é reforçar que estamos no ponto de inflexão.

O “óbvio ululante” dirão os mais velhos ou o “capitão óbvio” os mais novos a este ponto do texto, porém esta reivindicação/desabafo não está fora da realidade. Em verdade, é baseada em experiências próprias e recentes em bancas da própria área. Em uma, questionei o/a candidato/a sobre a desnecessária volta a autores clássicos para “justificar” seu objeto na ciência política. Depois, foi o/a orientador/a que me disse que, mesmo após uma década atuando na área, sente a pressão dos colegas por tal “pedágio”. E aí fui notar que o mesmo acontece em quase todas as bancas que participo sobre temas muito descolados. “Memes? Que horror! Onde está a ciência política nisso?”. “Democracia digital? Esfera pública digital? Isso não é excessivamente normativo e otimista?” – enquanto acompanham e participam vividamente desses mesmos debates digitais a cada dia, a todo momento e se questionam “Por que a esquerda é tão boa nas ruas e tão ruim nas redes?”.

E refleti como a minha escolha (e provavelmente a de muitos colegas da área) de revistas da área tende a ser extremamente racional e seletiva, pois nossos temas, objetos, estudos e teorias não são (considerados como) ciência política mainstream ou ciência política hard. E isso, neste momento que acadêmicos precisam eles mesmos fazer divulgação científica e comunicar. No qual, a visibilidade de nossas ações está ali na ficha de avaliação e só subindo no ranking de importância. E não só a combalida atual Capes, porém a própria sociedade parece nos demandar por isso. Logo, o Publish or Perish vai caindo diante do Go Public or Perish.

E o atual governo federal inteiro é a prova cabal do meu argumento. Luta constante contra o jornalismo tradicional. Redes paralelas e profissionais de comunicação. Tweets e lives para os convertidos. Militantes orgânicos ou robóticos são preparados e frequentemente ativados para combaterem e destronarem quaisquer discordantes, recheados de discurso de ódio. Discursos contra recomendações de entidades mundiais de saúde, a favor de remédios sem eficácia comprovada e com todo o tipo de inverdades, enviesamentos e teorias da conspiração. Todos em formatos de meme e/ou de consumos mais palatáveis que os da mídia convencional (que dirá dos intelectuais ou políticos). Se a vacina era ruim dantes, pode ser boa agora. Para eles, as fake news são os outros, é a Globo, a Folha, o Estadão e Cia Ltda. (os mesmos que já foram o “Partido da Imprensa Golpista” há não tanto tempo, mas este é um papo para outro texto). Em suma, o governo B. representa, de maneira plena, todos os fenômenos da comunicação política digital contemporânea e toda análise que não os têm em vista tende a ser incompleta ou equivocada (ênfase no “tende” por favor).

Portanto, repito, a comunicação política (em especial, a digital) agora permeia toda a ciência política!*

* Ou, claro, estou retoricamente exagerando para defender um maior olhar da área, como um todo, para esta nossa subárea que cresce gradativamente em tamanho e, defendo, em relevância, mas você, colega, caiu no click bait do título. Outro fenômeno do momento atual. Ainda assim, espero que alguma coisa do texto possa ter sido útil.

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