A complexidade e a polarização no debate sobre a reabertura das escolas

A complexidade e a polarização no debate sobre a reabertura das escolas

REDAÇÃO

04 de setembro de 2020 | 16h40

Giovanni Iuliano Meira – ex-aluno de escola pública, é graduado em Administração Pública pela FGV-EAESP e atualmente trabalha com políticas educacionais no terceiro setor.

A educação esteve sob intenso holofote nas últimas duas semanas. Seguindo uma tendência de polarização do debate público, multiplicaram-se manifestações e artigos de especialistas quanto à data reabertura das escolas. Em linhas gerais, é possível ver um movimento de profissionais e representantes de escolas públicas manifestando-se contra uma abertura nas próximas semanas, bem como protestos de representantes de escolas privadas e pais que pretendem voltar ao trabalho e, para tal, necessitam da rede de apoio que as instituições educacionais privadas ofertam. No meio do jogo, governadores, prefeitos e autoridades de saúde debatem a pressão e os riscos envolvidos para qualquer decisão. Mas seria este jogo aquele que merece maior torcida?

A educação sofre com a redução do debate, o que induz a discussão para um breve posicionamento que pouco resulta em ação concreta. É possível enxergar uma ausência de diálogo para avaliar se as secretarias de educação são capazes de endereçar com efetividade qualquer protocolo, aspecto que em grande parte tem a ver com o “trauma” que toda a sociedade e, em especial o campo educacional, sofreu com o contexto dos últimos seis meses. Afinal, consequências difíceis existem em qualquer tomada de decisão. Deixar estudantes em casa implica fragilizar uma rede de apoio contra diversas violências existentes no mundo extraescolar, bem como deixar os mais vulneráveis isolados e sem estímulo para aprendizagem. Reabrir expõe à um risco de transmissão que não dá sinais de diminuir no curto prazo. Logo, mais do que perguntar quando voltar ou não, o que é preciso ser feito para lidar com os desafios sistêmicos de profissionais e comunidade escolar agravados pela pandemia, independente de quando as condições para um retorno presencial ou híbrido se derem?

Nesse sentido, é um imperativo discutir como podemos ter uma visão mais completa das urgências que temos no campo educacional neste momento. A primeira delas é sem dúvida a garantia da saúde, bem-estar físico e emocional de estudantes e profissionais da educação. Isso passa por protocolos sanitários que previnam o contágio, abastecendo escolas com equipamentos e estrutura adequada, mas não se reduz a isso. O acolhimento após 6 meses traumáticos de pandemia requer intencionalidade no preparo socioemocional e pedagógico dos estudantes para os próximos meses que virão.

Já a segunda é não perder nenhum estudante, dado que é plenamente conhecido os fortes efeitos que a ausência de vínculo possui na evasão do sistema. Não à toa, o maior esforço das secretarias durante a suspensão das aulas foi garantir algum tipo de contato com o estudante fora do espaço escolar, seja por meio de atividades impressas, por plataformas digitais ou grandes meios de comunicação. Nesse sentido, várias redes já planejam mecanismos como busca ativa para não deixar nenhum aluno para trás, e nesse aspecto, será imprescindível contar com o apoio de todos os integrantes da comunidade escolar.

Por fim, está o aspecto que foi mais impactado pela suspensão das aulas e o qual já não tínhamos bom histórico: a aprendizagem dos estudantes. Ainda é cedo para mensurar, mas não tenhamos dúvidas de que estamos nos deparando com o fenômeno que mais exigirá esforços de professores na história da educação brasileira. Atividades diagnósticas para saber como está a aprendizagem dos alunos e qual o tamanho da defasagem, priorização curricular daquilo que é mais importante de ser ensinado e preparação dos professores para conduzir esse processo de “pós-guerra” são algumas das ações possíveis nesse caminho. Não por acaso, as palavras-chave são planejamento pedagógico e contenção de danos.

Buscando mapear o que redes estão fazendo com relação a esses caminhos, na semana passada foi divulgado a pesquisa “Planejamento das redes de ensino para a volta às aulas presenciais: saúde, permanência e aprendizado”, conduzido pelo Interdicisplinaridade e Evidências no debate educacional (IEDE) e o Comitê Técnico da Educação do Instituto Rui Barbosa (CTE-IRB). Por meio de um estudo de caso com 20 redes, foram mapeadas diferentes estratégias que envolvem o planejamento para volta às aulas em diferentes formatos. Além disso, o estudo contribui com uma sistematização das “fases” possíveis para cada tipo de protocolo, permitindo assim que gestores públicos se orientem quanto ao que já foi feito e como podem avançar no preparo para um eventual retorno.

Apesar da complexidade e das evidências, até o momento pouco se vê de exigência e debate por parte da sociedade civil para a garantia desse planejamento em vários eixos, sendo que ele deve endereçar desafios sistêmicos da educação que foram agravados por conta da pandemia. Isso independe da forma pela qual qualquer rede conduzirá suas atividades até o final do ano e se o retorno às aulas presenciais se dará amanhã ou em alguns meses. Afinal, cuidados com a saúde e integridade dos estudantes, evasão escolar e defasagem na aprendizagem não são palavras novas na educação.

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