A competitividade das empresas brasileiras: o problema também está dentro das organizações

A competitividade das empresas brasileiras: o problema também está dentro das organizações

REDAÇÃO

09 Abril 2015 | 17h06

Luiz Artur Brito

 

Muito tem se discutido sobre as limitações à competitividade das empresas brasileiras. O Custo Brasil é o culpado preferido. Normalmente os problemas já conhecidos do atraso logístico, da burocracia excessiva, da carga tributária elevada e complexa e da corrupção tão em evidência hoje são os malvados de plantão.

 

Existem, contudo, outros problemas dos quais se fala menos. Além de todos os fatores externos já citados há também fatores internos às empresas que limitam sua competitividade. Estudos na área de estratégia mostram que o maior componente da variabilidade do desempenho das empresas está nos fatores internos às mesmas. Este componente interno é pelo menos cinco vezes mais relevante que o conjunto dos fatores externos em estudos estatísticos amplos cobrindo empresas internacionais e brasileiras.

 

Um dos fatores internos refere-se ao uso de práticas de gestão. Nicholas Bloom, de Stanford, e John Van Reenan, da London School of Economics, em estudo concluído recentemente com mais de 10.000 empresas em 20 países, mostraram que as empresas de países emergentes como o Brasil usam menos estas práticas quando comparadas a empresas em países desenvolvidos ou a multinacionais que atuam em países emergentes. Os mesmos estudos comprovam que o uso das práticas de gestão está diretamente relacionado ao desempenho financeiro superior. Quando as empresas brasileiras competem crescentemente com multinacionais ou mesmo com produtos importados esta situação configura uma desvantagem competitiva. É como se estas empresas brasileiras tivessem um outro componente do Custo Brasil, mas desta vez dentro delas.

 

Na pesquisa citada, o Brasil foi o penúltimo colocado entre os 20 países, ficando apenas a frente da Índia. Existe, porém, uma grande dispersão no uso da práticas de gestão em todos os países. A média diz pouco. Há empresas brasileiras utilizando plenamente as práticas de gestão no mesmo nível das melhores empresas norte-americanas ou europeias. Mas a grande maioria tem na gestão uma desvantagem competitiva. É claro que os problemas básicos de educação contribuem para esta situação, mas, como a dispersão do uso de práticas confirma, muitas empresas brasileiras conseguem vencer esse desafio.

 

As práticas de gestão analisadas na pesquisa de Bloom e Van Reenan não eram muito sofisticadas. Elas constituem um conjunto básico cobrindo as principais áreas de administração como finanças, recursos humanos, marketing, estratégia e operações, representando o que se ensina hoje nos cursos de administração de empresas atualizados.

 

Os estudos internacionais foram confirmados com pesquisas recentes realizadas pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Estes estudos indicam que os maiores níveis de não-utilização das práticas de gestão estão concentrados nas empresas de menor porte e de origem familiar, embora, como sempre, existam exceções. Estas pesquisas também indicam que a falta de percepção do problema por parte dos gestores das empresas é uma das principais causas. É possível que o ambiente pouco competitivo e relativamente protegido onde essas empresas prosperaram tenha contribuído para esta miopia estratégica. O mundo competitivo mudou e tem se tornado cada vez mais global. É preciso enfrentar esse desafio com urgência.

 

A responsabilidade por este problema é de todos nós: gestores, associações de classe e escolas de administração. Os gestores devem buscar um equilíbrio nas suas ações focando a gestão básica antes da oportunidade, o foco interno  equilibrado com o foco externo. As associações de classe devem também direcionar seus esforços no apoio às empresas, além de batalhar pelas melhorias institucionais. As escolas de administração devem se questionar se estão realmente capacitando os seus alunos nas técnicas fundamentais da administração e se os estão motivando quanto a sua relevância.

 

O ensino de administração em todos os níveis deve ser aplicado, conectado com a prática e isso pode fazer diferença. A atual concepção dos mestrados profissionais em administração é um exemplo deste foco que deve ser perseguido por todos.

 

Este componente do Custo Brasil depende só de nós para ser vencido. Discutir os problemas externos da infraestrutura é importante, mas vamos fazer a nossa parte.

 

 

 

Luiz Arthur Brito é professor e pesquisador da EAESP/FGV.