A campanha “Vacina, sim” e a responsabilidade de cada um de nós

A campanha “Vacina, sim” e a responsabilidade de cada um de nós

REDAÇÃO

23 de fevereiro de 2021 | 10h27

Wladimir Gramacho, Professor adjunto da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do Centro de Pesquisa em Comunicação Política e Saúde Pública (CPS-UnB).

Max Stabile, Doutorando em Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB) e Diretor do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD).

Em contraste com a omissão do governo federal em esclarecer e promover de modo consistente a vacinação dos brasileiros contra a Covid-19, o consórcio formado por veículos de imprensa dos grupos Estado, Folha e Globo vem cumprindo um papel responsável e relevante no incentivo à imunização da população nacional contra o novo coronavírus. Se o Estado brasileiro tem faltado, ao menos a sociedade civil e o jornalismo profissional vêm cumprindo seus papéis sociais.

Estimular a vacinação numa sociedade complexa e dividida como a brasileira, entretanto, é um desafio enorme. Dezenas de estudos feitos em diferentes países mostram que há várias razões pelas quais algumas pessoas têm receio às vacinas, demoram a se vacinar ou até mesmo fazem campanha contra as imunizações. Mas, em geral, há três principais motivos – segundo um estudo global pulicado por Heidi J Larson e outros colegas britânicos na prestigiada revista Vaccine.

Em primeiro lugar, a influência de indivíduos ou grupos sociais tem um papel muito importante na decisão das pessoas em se vacinarem. A participação de celebridades como Fernanda Montenegro, Drauzio Varella e Lázaro Ramos na campanha do consórcio de mídia é provavelmente acertada, pois vários estudos mostram um efeito positivo da presença de pessoas famosas sobre a intenção de vacinação.

Todavia, quando lideranças combatem a vacina, isso também produz um efeito sobre seus simpatizantes, com sinal contrário. No Brasil, os dados disponíveis sugerem que a maior influência contrária à vacinação contra a Covid-19 foi produzida pelo presidente Jair Bolsonaro. Mas ela afetou sobretudo os indivíduos que aprovam o governo federal e simpatizam com o presidente, conforme duas rodadas de pesquisa realizadas em outubro e dezembro de 2020 pelo Centro de Pesquisa em Comunicação Política e Saúde Pública (CPS) da Universidade de Brasília, com apoio do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (Ibpad).

Em segundo lugar, algumas pessoas resistem à imunização por fatores específicos de cada doença ou vacina, nos quais entram em jogo as percepções individuais sobre os riscos de contrair a doença, a gravidade de seus sintomas ou os efeitos e a segurança da vacina desenvolvida. Dúvidas assim são comuns entre pais e mães sobre a vacinação de seus filhos e filhas, desde a tríplice viral, ainda na primeira infância, até a vacina contra o HPV, dada na adolescência. No caso da Covid-19, por exemplo, algumas pessoas ainda têm resistências à vacina chinesa, apesar de sua comprovada eficácia e segurança.

Finalmente, há fatores contextuais dos mais diversos, que fazem com que algumas pessoas deixem de se vacinar devido aos custos financeiros de ir até o posto de vacinação, perder um dia de trabalho, não entender bem a importância da vacina para proteger a si mesmo e às pessoas mais próximas, não confiar no sistema de saúde, nos governos ou nas empresas, entre outras razões.

Para desarmar pré-disposições, dissolver resistências e estimular a imunização contra a Covid-19, infelizmente, ainda não há vacina – muito menos em dose única. As pesquisas sobre comunicação em vacinas mostram que alguns segmentos populacionais respondem melhor a certos porta-vozes do que a outros, assim como a alguns argumentos em comparação com outros. A atriz Fernanda Montenegro provavelmente tem maior capacidade persuasiva sobre a população mais idosa, enquanto o ator e ex-BBB Babu Santana deve falar mais diretamente com jovens conectados.

Instar brasileiros e brasileiras hesitantes a se vacinar – quando vacina houver! – implica, portanto, identificar as “chaves” de comunicação que combinem as melhores mensagens e porta-vozes para cada segmento social, num match persuasivo. Um esforço que deve unir não só veículos de imprensa, mas também a sociedade civil, as universidades, a iniciativa privada e a parcela do setor público que ainda conhece seu propósito moral e constitucional de preservar a vida e cuidar do bem-estar da população.

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