A bola do dia

A bola do dia

REDAÇÃO

02 de agosto de 2019 | 13h52

José Antonio Gomes de Pinho
Professor Titular Aposentado Escola de Administração UFBA; Pesquisador da FGV-EAESP
Nos primórdios da TV no Brasil havia um programa chamado A Bola do Dia (TV Tupi, SP). Era um programa cômico comandado por Walter Stuart, grande humorista que vinha da vida circense. Era um sketch diário, com pouco mais de cinco minutos em torno das 19 horas a partir de uma tirada, uma sacada, uma piada, à semelhança dos quadros curtos do “Porta dos Fundos”, entre outros, só que 60 anos atrás. Era um programa muito aguardado pela qualidade da situação exposta, muito inteligente. O que temos visto no Brasil do atual presidente é uma sucessão de bolas do dia, com uma diferença fundamental: seria cômico se não fosse trágico. Apenas para nos determos nos últimos dias, as tiradas foram (e correndo o risco de ficar superado quando este texto for publicado): a defesa da retirada das cadeirinhas para crianças em veículos, o desconhecimento de quem era João Gilberto, a defesa de um ministro para o Supremo vindo das hostes evangélicas, posteriormente enfatizada como um ministro “terrivelmente evangélico”, a minimização dos problemas do trabalho infantil, o apontamento de um filho seu para embaixador na mais importante embaixada, o comentário que não existe fome no Brasil, a minimização da devastação na Amazônia, o uso preconceituoso do epíteto de “paraíba” para os nordestinos, a revisão da política de controle dos agrotóxicos, a forma agressiva e jocosa como se referiu a morte de um militante contrário ao regime militar no começo dos anos 1970.
Impressiona a quantidade e a diversificação dos temas tratados pelo Presidente, atirando (sem trocadilho) em várias direções. Isso tudo pode soar como alguém que tem incontinência verbal, que não mede o que fala, e que não tem noção do cargo que ocupa e a liturgia requerida, conforme apontado por diversos analistas da cena política brasileira atual. Buscando uma explicação mais estruturada suas ações podem ser vistas como voluntarismo, medidas diversionistas. Ainda pode ser mobilizado o argumento de que podem ser ideias que são lançadas como balão de ensaio para ver se “colam”. As que granjeiam repulsa da sociedade os bombeiros do Planalto, ministros mais próximos, tentam apagar o incêndio. Outra postura tem sido dizer que não era bem isso que foi dito, que foi mal entendido ou interpretado, ou ainda, desdizer o que foi dito dias antes.
O que tem se confirmado é que estamos frente a um governo insólito, que foge dos padrões usuais e normais. Não há dúvida que o Presidente tem uma veia de entertainer haja vista a forma como se sentiu a vontade no evento de seus 200 dias de governo, algo também insólito a ser comemorado. Verdade seja dita que estava falando para os seus, dentro de casa. Nesse contexto, no entanto, o que tem que ser percebido é que o serviço mais macro está sendo feito, não está sendo deixado de ser feito, como a insidiosa desmontagem dos conselhos de participação e representação da sociedade civil nas estruturas governamentais, configurando um retrocesso na já fragilizada democracia brasileira; o combate à corrupção, um dos carros chefe da plataforma governamental, começa a se esmaecer, a sede em combater a universidade pública e gratuita, entre outras ações. Outra estratégia tem sido discordar dos dados, mesmo que oficiais, como no caso do desmatamento. Neste caso, configura-se outra vertente do portfólio governamental, qual seja, quando a realidade se confronta com as ideias governamentais, duvida-se dela, revelando um traço preocupante de negação da realidade. Outra linha adotada tem sido a de se calar quando não quer enfrentar problemas e se posicionar frente a eles. Muitas dessas falas estão eivadas de contradições. Apenas um apontamento, nas enchentes ocorridas na Região Metropolitana de Recife com várias mortes o “cabra da peste” não se mobilizou, até onde sei, para expressar solidariedade às famílias das vítimas. O escopo é longo e não dá para se deter e examinar cada uma dessas tiradas do mandatário.
Assim, percebe-se uma sucessão de “bolas do dia”, que, como dito acima não tem nada de cômico, mas que cumprem um objetivo de chamar e atrair a atenção geral, enquanto o que se constitui mais essencial ao projeto governamental está sendo implantado. Assim, parece haver duas agendas, uma de “bolas do dia” e outra “prá valer”. E como dito acima, algumas dessas “bolas do dia” são tentativas para ver se tem guarida e apoios suficientes para serem implantados. Não dá nem para argumentar que o governo segue uma política “Panis et circenses”, pois com mais de 13 milhões de desempregados (desemprego aberto) falta pão. O programa A Bola do Dia durou 10 anos, de 1955/65, o governo Bolsonaro já completou 200 dias.

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