2021 não é 1964

2021 não é 1964

REDAÇÃO

31 de março de 2021 | 10h50

Amon Barros, Professor nos cursos de graduação e do mestrado e doutorado em Administração de Empresas da FGV-EAESP

No dia em que o Golpe de 1964 comemora mais um aniversário, o Brasil se vê novamente às voltas com os militares nas manchetes dos cadernos de política – que sempre frequentaram mais do que seria esperado. Com o governo que apoiam fracassando diante de todos os desafios enfrentados, salvo fazer gestos para a torcida, talvez os militares vejam duas saídas. Uma, aprofundar seu comprometimento com esse malogrado projeto de país e, com isso, continuar suportando um governo para 15% de apoiadores fanáticos, que não se atenta aos desafios ambientais, como a preservação dos biomas, sociais, como o combate à fome, ou de lisura, enfraquecendo instituições de controle e fortalecendo o papel do centrão. Alternativamente, poderiam optar por desembarcar gradativamente, negando sua responsabilidade sobre a ascensão do Tenente Bolsonaro ao posto de Comandante-em-Chefe das Forças Armadas.

De toda maneira, não parece que um golpe à 1964 ou um autogolpe sejam opções viáveis. Em 1964 o “movimento [de tanques]” que desembocou no fim do governo constitucional contava com apoio nas elites do país. Empresariado, fazendeiros, boa parte da mídia escrita e falada e porções das classes média-alta urbana apoiaram a aventura golpista. Adicionalmente, a derrubada do governo constitucional aconteceu no contexto da Guerra Fria, quando rupturas eram aceitas se fossem justificadas pelo medo do fantasma do comunismo – que aparece para quem quer acreditar nele e justificar paranoias.

O golpe de 1964, que prometeu eleições rápidas, jogou o país numa longa ditadura e teve consequências de longo prazo. Dificultou a emergência de elites políticas comprometidas com o povo e com a democracia, porque matou e perseguiu opositores. Centralizou decisões, inclusive econômicas, limitando o espaço para a emergência de soluções criativas para os problemas brasileiros. Inevitavelmente criou canais de comunicação enviesados e que tornavam o Estado refém de uma visão de mundo e com dificuldade de incorporar novas perspectivas. Contribuiu, ainda, de forma decisiva para o aprofundamento das desigualdades econômica e política no Brasil.

Atualmente, a falta de apoio entre as elites empresariais, grupos de mídia e a perspectiva de uma reação negativa externa, aumentam os riscos de qualquer aventura. Mesmo as elites empresariais que temem vocalizar os limites das políticas econômicas prometidas, assinaram uma carta evidenciando preocupações. Esses grupos, que se radicalizaram em seu Guedismo millenialista nos últimos 15 anos, se importam menos com a democracia do que deveriam, mas temem que uma ruptura influencie negativamente os mercados, especialmente num ambiente globalizado. Ademais, o governo atual não tem quadros técnicos aptos a centralizar decisões adequadas para desafios do século XX, quem dirá do XXI.

Ainda que mantenham o titular do Ministério da Economia numa cúpula de cristal, sem querer acreditar nos seus desacertos, boa parte das pessoas de negócios já viu que o governo faz água. Na crise, mostrou sua incompetência e incapacidade de mudar de ideia. Mesmo quando milhares de brasileiros morrem diariamente de uma doença para qual há vacina, cuja compra foi rejeitada e produção sabotada. Assim, parece que depois das primeiras manifestações de minimizar a doença e as mortes, um número crescente de empresários assiste embasbacado ao óbito de milhares de brasileiros. Ou, trabalhadores e consumidores, se isso os fizer entender melhor.

Um golpe num país tão fraturado, para manter um presidente impopular, que trabalhou ativamente para jogar no caos, não parece ser um movimento estratégico. Além disso, em 1964 os militares contavam com uma sociedade civil menos plural, sofisticada e participativa. Hoje, o único golpe que o Brasil merece, seria de sorte. Talvez, uma vacina que possa ser produzida em largas quantidades localmente, como a prometida pelo Butantan. Por sua vez, o inimigo interno é, primeiramente, o vírus, em seguida os que sabotaram os esforços para combatê-lo, minimizando a importância de vacinas e desorganizando as iniciativas de mitigação e diminuindo a efetividade de ações de conscientização. A única mobilização das Forças Armadas atualmente deveria ser para acelerar os esforços de vacinação dos brasileiros, de forma a tentar reduzir essa tragédia na qual o governo Bolsonaro jogou o Brasil. A política deve ser deixada para os civis.

 

*Esse texto não representa a opinião da FGV – EAESP

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