O Brasil precisa de um choque de bom senso

Fernando Schuler

10 de março de 2016 | 18h44

Há quatro saídas para a crise brasileira: a renúncia, o impeachment, a cassação, via STE, ou a sobrevivência de Dilma até 2018. A primeira é a menos traumática, ainda que a mais improvável. A última é a mais provável, ainda que a mais custosa para o País. Significa mais três anos sem reformas estruturais e sem correção de rumos. Talvez seja o preço que devamos pagar. O duro aprendizado da democracia.

Há quem fale em uma quinta alternativa: a saída parlamentarista. A ideia conta com o patrocínio de Renan Calheiros e é objeto de uma proposta de emenda constitucional do PSDB. Não acho que emplaque. É inútil pensar que a razão da crise brasileira seja o sistema de governo. Diagnóstico errado, solução fora de lugar. Nossa sedução pelo autoengano. E mais: a memória triste de 1961. O parlamentarismo pode ser uma modelo para o futuro, não a solução circunstancial para a crise política.

O fato é que o Brasil vive o impasse perfeito. O governo não tem força para se manter no poder, nem a oposição para tira-lo de lá. A oposição, diga-se de passagem, é de uma surpreendente nulidade. Do principal governador oposicionista, Geraldo Alckmin, nada se escuta. Idem para José Serra. Aécio Neves se defende de uma suposta delação e pede “serenidade”. O ex-presidente Fernando Henrique segue fiel a seu figurino de “magistrado” (não sem boa dose de razão). A oposição, no Brasil, parece surgir dos fatos. Da investigação criminal, da cobertura da imprensa, do ativismo nas redes sociais.

O impasse pode começar a se desfazer no domingo, dia 13. Se uma estupenda multidão tomar as ruas do Brasil, como ocorreu em 2013 e em março de 2015, um passo importante terá sido dado para antecipar o fim do Governo. O contrário também se dá. É o dia “D” do Brasil, para um ou para outro lado. Não tenho prognóstico sobre o vai acontecer. Ninguém tem. Pode chover uma barbaridade no domingo e pouca gente sair de casa. Mas é possível que o País acorde muito diferente, na segunda-feira pela manhã.

O dia 13 vem na sequência de uma semana paradoxal. O governo se desmancha, mas o petismo se recompõe. Resultado da ação do dia quatro, autorizada pelo Juiz Sérgio Moro. Não tenho capacidade para dizer se a condução coercitiva de Lula foi, ou não, exagerada. Há milhares de juristas do PT, nas redes sociais, garantindo que foi. Não entro neste terreno.

Meu ponto é o seguinte: a condução de Lula para depor abriu a caixa de pandora do nosso desvario político. O MST sente-se no direito de invadir emissoras de televisão; o ex-ministro e braço direito de Lula acha-se autorizado a ameaçar o País com uma fogueira, se “prenderem o Lula”. A retórica do “golpe” e da “resistência” corre solta nas redes sociais.

Em meio ao desvario, há tipos pitorescos. A Deputada Jandira Feghali, por exemplo, para quem a ação da policia federal indica que vivemos em um “estado de exceção”. O escritor e propagandista petista Fernando Morais, para quem a polícia federal, “se quiser autonomia deve disputar eleições e fazer 54 milhões de votos”. Morais sugere, na prática, que o País se torne um estado policial. Nada que surpreenda, vindo de um conhecido admirador dos irmãos Castro. O que surpreende é que tipos assim alcancem alguma audiência.

O delírio mais patético que assisti, nesta semana triste, foi a história segundo a qual teria havido um “contragolpe” do comando da aeronáutica, no Aeroporto de Congonhas, na manha do dia 04, enquanto Lula depunha, impedindo que e Polícia Federal o conduzisse até Curitiba. Fiquei imaginando o coronel aviador conduzindo um grupo de pilotos de caça estilo “top gun” e cercando o aviaozinho da PF aos gritos de “no pasarán”! Belo roteiro para um faroeste caboclo.

De novo: o interessante foi ver gente boa, com PhD, com experiência de jornalismo, reproduzindo roteiros desse tipo pelos jornais e na internet. Ao menos me diverti. E me lembrei do grande Georges Orwell: há ideias tão absurdas que só mesmo um intelectual poderia acreditar nelas.

O pedido de prisão preventiva de Lula, feito pelo Ministério Público de São Paulo, só tende a fazer crescer a onda de delírio político nacional. O PT tentará mostrar que não apenas Sérgio Moro, a Polícia Federal, o Ministério Público e a Receita Federal são parte de um complô universal contra Lula, mas também o Promotor Cássio Conserino e sua equipe, do MP paulista.

É possível pensar que, em algum momento, a avalanche diária de novas informações funcione para arrefecer o ímpeto criativo dos dirigentes e militantes governistas. Mesmo a “liquidez” da realidade, para usar a expressão de Bauman, tem lá seus limites. Foi o que ocorreu com José Dirceu. Na primeira prisão, ele era o “guerreiro do povo brasileiro”. Na segunda, quase ninguém apareceu, nem Dirceu surgiu com os punhos cerrados. Acontecerá o mesmo com Lula? Cedo para dizer.

Minha tese é a de que o principio de realidade termina sempre por se impor. Pode demorar um pouco, mas o bom senso, no fim das contas, tende a vencer o devaneio.

 

Fernnado L. Schüler é cientista político e professor do Insper

 

@fernandoschuler

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