M.K. Street 3.600: o País tem direito de saber

Fernando Schuler

12 de janeiro de 2016 | 12h26

O País tem direito de saber o que significa “MK Street 3.600”. Parece um endereço, mas não é. Coloquei no Google Map e não deu nada. Um código? Leo Pinheiro, então presidente da OAS, escreve ao atual Ministro da Casa Civil, Jaques Wagner dizendo que precisa tratar do “assunto MK”. No mesmo dia, Mário Kertész anuncia apoio ao candidato do PT à prefeitura de Salvador, contra a orientação de seu partido. Os executivos reclamam que o valor “é muito alto”. Valor? Os 3.600? Isso parece um thriller policial, mas não tem graça. E não se trata de acusar ninguém, mas o País tem direito de saber, ou não?

O País tem direito de saber mais: que diabos o ex-governador da Bahia, Jaques Wagner, tinha a ver com os investimentos do Funcef? Os funcionários da Caixa devem lhe agradecer pelo zelo com sua aposentadoria? O episódio parece tratar da compra, pelo FUNCEF, de papéis do fundo FIP OAS Empreendimentos, e as mensagens são explícitas: “Vamos precisar do apoio de JW”, diz uma; “JW perguntou como foi no FUNCEF”, diz outra. Tudo pode ser perfeitamente republicano, como diz o Governo, mas, convenhamos, não é o que parece. E o País tem direito de saber.

Observe-se que não se está falando de “denúncias” contra Ministro Chefe da Casa Civil, como uma parte da imprensa noticiou. São mensagens trocadas diretamente entre o atual Ministro e o então Presidente da OAS, e entre este e seus executivos.

Por muito menos que isto, em 1993, o ex-Presidente Itamar Franco exonerou o Chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves. Haviam denúncias envolvendo Hargreaves e Itamar o afastou para que a coisa fosse apurada. Tudo esclarecido, o readmitiu. O episódio serviu para estabelecer um parâmetro, à época, sobre como tratar desvios éticos no governo. Hoje, é fácil perceber, os parâmetros são outros.

Ao contrário do que fez Itamar, a Presidente Dilma não pede nenhum esclarecimento ao Ministro Wagner. Vai em direção oposta: determina que o Ministro da Justiça abra um inquérito administrativo para investigar o vazamento das mensagens.

Com esta atitude, o governo dá uma pequena mostra do porque está metido nesta imensa crise de governabilidade. A Presidenta Dilma poderia, se quisesse, virar o jogo. Dizer que tem, sim, seus parâmetros, e com isto iniciar um processo de recomposição de sua autoridade política. Mas aposta na tática contrária: ignorar os fatos, ensaiar um discurso “indignado” e apostar no esquecimento da opinião publica.

O problema é que os fatos continuam lá. E ninguém sabe bem até onde um governo pode brincar com eles. A oposição, representada pelo DEM e pelo PPS, já ingressou com pedido para que o Ministro Jaques Wagner seja convocado a dar explicações, na CPI dos Fundos de Pensão.

Algumas conclusões deste episódio: o governo começa mal o ano de 2016. Jaques Wagner era para ser o craque do time, a chave para a retomada da governabilidade, e torna-se agora um problema. Quer o governo queira, quer não.

O Governo mostra que continua, em 2016, apostando na estratégia de negação. Doações foram todas legais, corrupção sempre existiu, não se comenta vazamentos seletivos, o golpismo, a elite que não aceita a ascensão dos mais pobres, a oposição que não aceita o resultado das urnas, e por aí vai. O governo sabe que tem uma base militante que acredita em qualquer coisa, e põe nela suas fichas. Parece acreditar que a política é um terreno movediço, onde (quase) tudo pode ser explicado.

Por fim, tudo isto parece nos mostrar o quanto o País anda anestesiado. O quando esticamos a corda da nossa tolerância ética. E passamos a considerar como normais coisas que há bem pouco tempo, nos inícios de nossa democracia, teríamos considerado inaceitáveis.

Fernando L. Schüler, Professor do Insper.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.