Lula acredita que a política pode vencer a justiça

Fernando Schuler

29 de julho de 2016 | 00h49

Lula acha que a política pode vencer a justiça. Talvez possa mesmo. O próprio Juiz Sérgio Moro botou lenha nessa fogueira ao dizer que os grampos poderiam justificar a prisão de Lula, mas que ele decidiu por coisa mais leve. Decidiu por boas razões, tenho certeza. Mas a pergunta ficou no ar: a política, o “impacto”, o medo da turma histérica gritando por aí, teve alguma coisa a ver com isso?

Lembro dos áudios de Lula: “é preciso botar pressão”. Ir “pro cacete”. Lembro da ideia de “botar a Fátima Bezerra e a Maria do Rosário pra cima dele”. E da melhor de todas: “bicho, eles têm que ter medo”. Lula se referia a “um desses fdp qualquer”, e logo antes havia mencionado o nome de Sérgio Moro.

Mês passado Lula pediu que Moro se declarasse “suspeito” para julga-lo. Na época, achei engraçado. Quase adaptei a frase-mito de José Dirceu. Imaginei o Juiz dizendo: estou cada vez mais convencido de minha falta de inocência.

Achei engraçado mas entendi o pedido. Era uma forma de “ir pro cacete”. Fazer o Juiz escrever quinze páginas se explicando. Gerar algumas boas manchetes, aqui e fora do País. Botar quem sabe um pouco de medo no homem. Quem sabe fazer o Juiz deixar de fazer com Lula o que faria com algum outro tipo menos poderoso. E de quebra preparar a militância pra se tudo der errado.

Lula agora foi mais longe. Contratou e mandou a Genebra o advogado Geoffrey Robertson. Robertson disse que as prisões feitas por Moro (todas as prisões da Lava-Jato? ) são “injustas”, pois “baseadas em confissões de suspeitos que só querem sair da prisão”. Disse que Moro “invadiu a privacidade” de Lula, e fica liberando gravações para a “imprensa hostil”. Robertson acha que a imprensa no Brasil é hostil a Lula. E que as pessoas são presas, aqui na selva, por que aparecem em alguma delação.

De minha parte, não acho que nossa imprensa seja hostil a Lula. Há gente que gosta e que não gosta do Lula, na mídia, o que é normal em uma grande democracia. Essa conversa de reclamar o tempo todo da “mídia” é malandragem pra deixar os veículos e jornalistas sob “pressão”. Pra fazer a imprensa se explicar, como o juiz Moro teve que fazer. Um jeito a mais de fazer politica, só isso.

No caso da ONU, vale muito pouco o conteúdo da denúncia. Vale a foto, em Genebra, e a manchete com as palavras “Lula” e “ONU”, ocupando os espaços que, nesta semana seriam da denúncia do arquiteto da OAS sobre a reforma do sítio de Atibaia.

É verdade que tudo isto pode terminar pegando mal. Vai que ninguém, na ONU, dê bola pra conversa de Robertson. Vai que achem que ele acreditou demais na turma do Lula. Tudo pode ficar meio ridículo, no fim das contas. E sequer servir para botar medo no Juiz Sérgio Moro. Não acho que vá, mas tudo é possível. Logo saberemos.

Meses atrás escrevi um artigo, aqui no Estadão, dizendo que o julgamento de Lula era a “prova de fogo” da democracia brasileira. Pra saber se nossas instituições eram mesmo fortes para investigar e julgar o “mais importante político brasileiro” como um “brasileiro comum”.

Confesso que ainda não tenho esta resposta. Percebo apenas, observando a estratégia de defesa de Lula, que ele acredita muito na força da “política”. Da ação na mídia ou em “botar uns deputados lá na frente”, se for preciso, pra constranger uma operação da Policia Federal. Lula deve tudo à política. Deve uma vida quase impossível. É quase um weberiano autodidata: a política como o lento perfurar de tábuas duras…

Lula está decidido a atuar em todas as frentes. Se precisar irá ao Vaticano, depois da ONU. Antes irá ao nordeste, convocará os sindicatos, fará drama e porá fogo em seus militantes. Está em seu direito. Ele testa os limites da nossa justiça. Testa sua força e independência em relação à política. Quem vai ganhar o jogo? Difícil saber. Por ora digo apenas que nunca-antes-neste-país alguém tentou peitar, desse jeito, o sistema de justiça brasileiro.

Fernando L. Schüler é Doutor em Filosofia (UFRGS), cientista político e Professor do Insper