Zema dá gratificação de até R$ 6 mil somente a médicos e enfermeiros protestam

Zema dá gratificação de até R$ 6 mil somente a médicos e enfermeiros protestam

Governador de Minas Gerais concedeu benefício somente a médicos na linha de frente contra o coronavírus; enfermeiros promovem paralisação, por algumas horas, em hospital de Belo Horizonte

Juliana Pio e Luiz Vassallo

15 de abril de 2020 | 09h30

Romeu Zema. Foto: Jonathas Cotrim/Estadão

O governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) concedeu uma gratificação de até R$ 6 mil a médicos que atuam na linha de frente do combate ao coronavírus. A medida irritou os enfermeiros e técnicos do Estado – estes últimos chegam a ganhar perto de um salário mínimo -, que também reivindicam a bonificação. Entidades sindicais já ameaçam paralisação em um hospital estadual de Belo Horizonte.

O decreto do governo fixou valores de remuneração para médicos que serão temporariamente contratados. Eles terão gratificação temporária entre R$ 4.595,02 mensais para 12 horas semanais de trabalho e R$9 mil mensais para 24 horas semanais de trabalho.

No entanto, o Conselho Regional de Enfermagem de Minas pede que o benefício seja estendido também aos enfermeiros, que também atuam na linha de frente. Uma petição online do colegiado acumula 13 mil assinaturas.

“Enquanto arriscam suas próprias vidas para salvarem milhares de outras todos os dias, a Enfermagem continua aguardando a valorização vinda dos parlamentares e governadores”, afirma.

Sindicatos também se mobilizam para paralisar, por algumas horas, o hospital João XXIII, em Belo Horizonte, nesta quinta, 15.

Ao Estado, enfermeiros afirmam que, além da insatisfação com a falta do benefício, os salários são baixos, e faltam equipamentos de proteção em Minas. “”A diferença salarial é grande. Os salários dos médicos são mais altos e a carga horária deles é menor, costuma ser de 24h. Já a carga horária do enfermeiro e do técnico atualmente é de 40h semanais”.

“Estamos recebendo apenas uma máscara cirúrgica por plantão e temos que usá-la durante 12h. O problema é que o seu tempo de uso é de apenas 4h. Temos que prorrogar a utilização por 12h. O item está em falta no mercado, segundo o que eles alegam. Então, a máscara cirúrgica está insuficiente, visto que ela deveria ser trocada mais vezes durante o plantão e a gente não tem.
Os demais EPIs, estou tendo acesso”, afirma outro enfermeiro que falou ao Estado.

Os nomes dos servidores foram preservados a pedido deles. Outro técnico de enfermagem afirma trabalhar 30 horas semanais e ganhar R$ 1,6 mil. “É muito injusto bonificar apenas uma classe. E as pessoas que estavam dispostas inclusive a ajudar neste momento de pandemia, agora, já não estão mais. Já que há uma gratificação que é merecida, que seja igual, pois todos estão na linha de frente e passando pelos mesmos os riscos”.

“Se não tiver todos esses profissionais para atuarem durante o atendimento do paciente com a covid-19, não teremos sucesso. Além disso, todos estão sob risco, adoecendo, passando um stress absurdo, não justifica fornecer gratificação para apenas uma categoria”, afirma uma enfermeira.

Segundo levantamento do Conselho Federal de Enfermagem, em todo o País, já são 29 enfermeiros mortos desde o início da pandemia. O órgão também recebeu 123 denúncias em Minas Gerais sobre falta de equipamentos, ou sobre o assédio para que os EPIs não sejam usados para evitar pânico à população não atendida.

“Na Rede FHEMIG muitos profissionais dos grupos de risco hipertensos e pneumopatas não foram afastados e sequer periciados justamente pq não existe bem nunca existiu margem Técnica de segurança de pessoal e nesses momentos críticos isso se torna ainda mais crítico e evidente. Dessa forma , agora muitos estão se arriscando em virtude da falta de planejamento e investimento anterior do sistema de saúde brasileiro. Em relação aos EPIs hoje está sendo fornecido máscaras cirúrgicas que são controladas rigorosamente , não sendo possível a troca a cada duas horas como recomendado . As máscaras N95 só são fornecidas mediante casos suspeitos e notificados , sendo que existe os relatos dos profissionais de unidades que são referência para atendimento COVID de quem recebe são só profissionais médicos”, conta outro enfermeiro.

COM A PALAVRA, FUNDAÇÃO HOSPITALAR DO ESTADO DE MINAS GERAIS

A Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG) tem papel estratégico na resposta ao atendimento dos pacientes acometidos pela COVID-19. Dessa forma, foi desenvolvido um Plano de Capacidade Plena (PCP) que descreve o planejamento da fundação na resposta à pandemia. As ações propostas incluem aquisição de equipamentos, adequações físicas, remanejamento de serviços e a contratação de profissionais de saúde. Em relação a este último ponto, foi aberto um chamamento público para contratação emergencial de diversos profissionais como médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e fisioterapeutas.

Com exceção dos médicos, em todas as demais categorias houve interessados e classificados superior às vagas existentes, uma vez que o salário da FHEMIG nestas categorias é bem superior à maioria dos hospitais públicos e privados. No entanto, as vagas de médicos não foram preenchidas, já que os processos seletivos existentes na rede pública e privada oferecem vagas com remuneração superior à praticada pela FHEMIG.

Assim, houve a necessidade da equiparação do salário dessa categoria à existente no mercado, afim de garantir a ampliação dos leitos de atendimento ao COVID-19. Para evitar a possibilidade de profissionais da mesma categoria, prestando o mesmo serviço, mas com salários diferentes, foi criada a Gratificação Temporária de Emergência em Saúde Pública (GTESP) para haver isonomia entre os servidores ativos e os novos contratados que atuarão exclusivamente nos setores destinados atendimento de pacientes com COVID-19. Dessa forma, espera-se que a FHEMIG consiga formar as equipes necessárias para cumprir seu papel neste cenário sem precedentes.

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