Zambelli diz que se tivesse informações privilegiadas da PF, operação que pega Witzel chamaria ‘Estrume’

Zambelli diz que se tivesse informações privilegiadas da PF, operação que pega Witzel chamaria ‘Estrume’

Em bate boca no Twitter com a deputada Talíria Perrone (PSOL), que diz ser grave o acesso antecipado a ações policiais, parlamentar do PSL-SP faz referência a trecho do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, na qual o presidente Jair Bolsonaro chamou o governador fluminense de ‘estrume’ e o chefe do Executivo paulista, João Doria, de ‘bosta’

Redação

26 de maio de 2020 | 10h49

Após repercussão sobre entrevista na qual declarou que a Polícia Federal estava prestes a deflagrar operações para investigar irregularidades cometidas por governadores durante a pandemia, a deputada federal Carla Zambelli afirmou em seu perfil no Twitter na manhã desta terça, 26, que se tivesse informações privilegiadas da corporação, a operação que fez buscas em endereços ligados ao governador Wilson Witzel seria denominada ‘Estrume’. O nome sugerido pela parlamentar faz referência a trecho do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, na qual o presidente Jair Bolsonaro chamou o governador fluminense de ‘estrume’ e o chefe do Executivo paulista, João Doria, de ‘bosta’.

A indicação se deu após a deputada Talíria Perrone (PSOL) repercutir afirmação de Zambelli à Rádio Gaúcha nesta segunda, 25. “A gente já teve algumas operações da Polícia Federal que estavam ali, na agulha, para sair, mas não saíam. E a gente deve ter, nos próximos meses, o que a gente vai chamar, talvez, de ‘Covidão’ ou de… não sei qual vai ser o nome que eles vão dar… mas já tem alguns governadores sendo investigados pela Polícia Federal”, disse a parlamentar, como mostrou o BR Político.

Em publicação no Twitter, Talíria apontou que o fato de Zambelli saber antecipadamente de operações da PF ‘contra governadores’ é grave e questionou: “Como a deputada sabe? E por que ela sabe? As relações da cúpula do governo Bolsonaro e a PF estão cada vez mais promíscuas e precisam ser explicadas.

Em resposta, a aliada de Bolsonaro fez a declaração sobre o nome da operação – que na realidade foi batizada como Placebo – e chamou a deputada do PSOL de ‘defensora de maconheiro’. Antes, também após repercussão de sua entrevista, Zambelli compartilhou um tweet que diz que ‘qualquer cidadão sabia que as operações aconteceriam’.

A deputada federal Carla Zambelli. Foto: Luis Macedo / Câmara dos Deputados

A líder do PSOL na Câmara, deputada Fernanda Melchionna, também se manifestou sobre as declarações de Zambelli. “As fortes suspeitas de interferência na Polícia Federal por parte de Bolsonaro ficam mais evidentes diante da confissão de Carla Zambelli ontem em entrevista à Rádio Gaúcha. A sociedade precisa saber como ela tinha informações privilegiadas. O Brasil não pode ter uma polícia política que sirva para perseguir adversários da “familícia” e esteja a serviço dos interesses de Bolsonaro. Zambelli não pode seguir atuando diante da certeza da impunidade, precisa ser responsabilizada pelas ilegalidades que comete”, afirmou em nota.

A deputada indicou ainda que já protocolou na Comissão de Ética da Câmara um pedido de cassação do mandato de Zambelli por ter declarado que solicitava informações ao ex-ministro Sérgio Moro sobre investigações a respeito de autoridades e disse que vai adicionar as novas informações ao pedido.

Como mostrou o Estadão, Zambelli tem se configurado como uma espécie de auxiliar informal do Planalto e está no centro de eventos recentes do governo Bolsonaro – a saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça e da atriz Regina Duarte da Secretaria Especial da Cultura. Depois da polêmica troca de mensagens com Moro, na qual a deputada procurou evitar a saída do ex-juiz e sugeriu que ele teria uma vaga garantida no Supremo Tribunal Federal – diálogo incluído no inquérito que apura se Bolsonaro tentou interferir na Polícia Federal –, Carla Zambelli assumiu a missão de resolver a crise com Regina Duarte, de quem tornou-se amiga e conselheira.

COM A PALAVRA, FENAPEF

Nota – Sobre a Operação Placebo

A respeito da Operação Placebo e seus desdobramentos, a Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) informa que:

1. A Fenapef apoia todo e qualquer esforço para apurar e combater a corrupção. Mesmo em tempos de pandemia, os policiais federais seguem fazendo seu trabalho de investigação.

2. A lisura das investigações e o sigilo das operações devem ser preservados em qualquer circunstância.

3. Sobre as suspeitas de que a deputada Carla Zambelli (PSL- SP) foi informada antecipadamente da Operação, é conhecido e notório o vínculo da parlamentar com a Associação de Delegados, desde quando era líder do movimento Nas Ruas. Esse laço se demonstra pela participação de Zambelli em eventos, vídeos e homenagens. A Fenapef defende a apuração, com responsabilidade e profundidade, sobre a possibilidade de que esse vínculo possa ter sido utilizado para a obtenção de alguma informação privilegiada.

4. A Operação Placebo é realizada pela equipe do SINQ (Serviço de Inquéritos) da DICOR (Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado) da Polícia Federal. O SINQ atua em inquéritos de tribunais superiores que tenham como alvos pessoas com foro nesses tribunais.

5. As buscas nos Palácios das Laranjeiras e da Guanabara foram autorizadas pelo Superior Tribunal de Justiça e têm como objetivo encontrar elementos de um possível esquema de corrupção envolvendo uma organização social contratada para a instalação de hospitais de campanha e servidores da cúpula da gestão do sistema de saúde do Estado do Rio de Janeiro, conforme informou a Polícia Federal.

Federação Nacional dos Policiais Federais
Brasília, 26 de maio de 2020
Sobre a Fenapef

Fundada em agosto de 1990, a Fenapef é a maior entidade representativa da Polícia Federal (PF), com mais de 14 mil filiados. Além de defender e representar os servidores da PF, a federação também atua como agente transformador nas políticas de segurança pública.

Dentre as principais áreas de atuação da Federação Nacional dos Policiais Federais, destacam-se a defesa irrestrita dos filiados e a luta por uma segurança pública moderna e eficiente.

COM A PALAVRA, OS DELEGADOS

A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF), que há 43 anos representa os delegados da Polícia Federal e tem um histórico de defesa ética e séria da instituição, repudia veementemente a irresponsável nota da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef), em razão das graves e infundadas ilações sobre possível vazamento de informações de investigações por parte desta Associação.

No momento em que a Polícia Federal é colocada involuntariamente no centro do debate político, nada mais danoso para o órgão do que a utilização desse ambiente para se criar instabilidades por rixas classistas que nada colaboram com a defesa da instituição.

A ADPF defende há muitos anos a criação de um sistema de proteção para a Polícia Federal baseado em autonomia e mandato para o Diretor Geral do órgão. Uma blindagem essencial contra possíveis interferências políticas que ameacem uma instituição de Estado respeitada pela sociedade brasileira.

Na defesa dessa pauta que interessa ao Brasil, a Associação contou e conta com o apoio público de diversos parlamentares, movimentos sociais, instituições e grande parte da população brasileira. Em 2017, toda essa mobilização voluntária, de caráter nacional, resultou na entrega de mais de setecentas mil assinaturas de apoio à Proposta de Emenda Constitucional que prevê autonomia para a Polícia Federal. Dentre esses apoiadores, está a então líder do movimento social “Nas Ruas”, Carla Zambelli, atualmente deputada federal pelo estado de São Paulo. Apoio este recebido às claras e de maneira institucional. A ADPF se orgulha de ter conseguido demonstrar às mais diferentes correntes políticas e da sociedade civil organizada a necessidade de proteção da instituição.

Importante esclarecer que a ADPF não se confunde com a instituição Polícia Federal, não tendo acesso a informações referentes a qualquer investigação ou operação policial em anda- mento. Aliás, é uma regra da diretoria da Associação se manter distante de fatos investigados e não se manifestar sobre inquéritos ou apurações em andamento.

A ADPF atua na defesa da Polícia Federal e sempre condenou, de forma intransigente, qualquer tipo de vazamento de informações sigilosas, por quem quer que seja. Os responsáveis por revelação de qualquer segredo profissional, devem ser processados e demitidos, semprejuízo das sanções cíveis e penais cabíveis. Para tanto a Associação espera uma investigação rigorosa para revelar se houve esse tipo de crime e seus eventuais autores a qualquer tempo e, no caso concreto, para servir como mais um elemento que comprove a atuação maliciosa contra a ADPF.

A ADPF, independentemente da apuração, irá imediatamente tomar as medidas judiciais cabíveis para que os dirigentes da Fenapef provem as insinuações que fizeram ou respondam pelas leviandades lançadas publicamente e entendam que divergências classistas não estão acima da ética, da moral, tampouco do nome e da credibilidade da Polícia Federal.

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