Youssef ‘usou cunhada com retardo mental para desvios’, diz juiz

Magistrado que impôs 5 anos de prisão ao emblemático doleiro da Lava Jato por supostos desvios de R$ 15 milhões na prefeitura de Maringá (PR) afirmou na sentença que acusado lançou mão de Cristina, já falecida, para lhe ‘repassar uma procuração com poderes para realizar movimentações bancárias’

Julia Affonso e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

07 de outubro de 2017 | 06h15

Doleiro Alberto Youssef ‘modernizou’ métodos de lavagem de dinheiro, segundo a Lava Jato. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

O juiz Joaquim Pereira Alves, da 3.ª Vara Criminal de Maringá, afirmou que o doleiro Alberto Youssef, da Operação Lava Jato, ‘usou uma cunhada, com retardo mental’, para promover desvios na Prefeitura de Maringá, no interior do Paraná. Youssef foi condenado a 5 anos, 1 mês e 20 dias por ‘apropriar-se de bens ou rendas públicas, ou desviá-los em proveito próprio ou alheio’ (violação reiterada 25 vezes ao artigo 1º, inciso I, do Decreto Lei nº 201 de 1967).

A segunda chance de um ‘criminoso profissional’

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“Conforme demonstrado nos autos, Alberto Youssef utilizava de ‘laranjas’ para efetuar as movimentações financeiras ilegais, sendo que dentre essas pessoas figurava até mesmo sua irmã, Olga Youssef. Insta registrar que, o acusado Alberto Youssef se aproveitou do fato de sua cunhada, a denunciada Cristina (falecida), que possuía retardo mental, para lhe repassar uma procuração com poderes para realizar movimentações bancárias”, afirmou o juiz na sentença.

A condenação foi revelada pelo site Maringá Post. Nesta ação, Youssef teve extinta a punibilidade pelo crime de associação criminosa.

Neste processo, o Ministério Público do Paraná apontou desvios de R$ 15.425.175,17 na Prefeitura de Maringá entre 1993 e 1996, durante a segunda gestão do prefeito Said Felício Ferreira. As fraudes, segundo a Promotoria, eram feitas ‘por meio da emissão de cheques, sacados da conta corrente do município de Maringá, em nome da Caixa Econômica Federal’ em nomes de ‘laranjas’.

A denúncia foi recebida em 2 de abril de 2003. A sentença foi proferida em 31 de agosto deste ano e condenou também Olga Youssef, irmã do doleiro. Ela teria sido funcionária do doleiro, responsável por uma casa de câmbio em São Paulo, e recebido valores desviados.

Youssef disse à Justiça que tinha uma empresa de investimentos e sua renda mensal era de R$ 400 mil. O doleiro relatou que, em 2003, fez um acordo com a Justiça de Maringá e prestou vários depoimentos.

Segundo Youssef, o então diretor de Contabilidade e Finanças da Prefeitura, Luis Antônio Paolicchi, repassava a ele pagamentos através de desvios feitos no Executivo de Maringá. Paolicchi morreu e, assim, acabou excluído da ação penal.

“Confessa que o Paolicchi que era secretário da fazenda de Maringá, quando ele fazia os desvios, ele lhe repassava os valores; que não sabia que o Paolicchi desviava os valores; que o Paolicchi era seu cliente, ele repassava os valores que ele desviava; que tomou conhecimento disso mais tarde”, narrou.

À Justiça de seu Estado natal, o doleiro afirmou que ‘quando fez o acordo com o Sérgio Moro, em 2003, acabou englobando um acordo geral, englobando municípios e governo do estado’. Youssef se referiu à delação no âmbito do caso Banestado.

Em alegações finais, Youssef ‘pleiteou’ a suspensão da ação penal, pelo prazo de 10 anos, ‘nos termos de colaboração premiada’, solicitou uma declaração judicial de que o doleiro já está cumprindo a pena, e de consequência a extinção da punibilidade e o reconhecimento da atenuante da confissão espontânea.

Na sentença, o juiz anotou que, ‘em delação premiada, Alberto Youssef mencionou ter sido movimentado cerca de R$ 245 milhões no período de um ano’.

Para o magistrado, ‘Alberto Youssef não mediu esforços e escrúpulos para disfarçar as movimentações financeiras ilícitas, envolvendo até mesmo familiares na ilegalidade, com a ajuda de Paolicchi e Said (ambos falecidos)’.

Lava Jato. Antes de ser capturado pela maior investigação contra corrupção no País, Youssef foi detido três vezes, envolvido em esquemas de desvios na administração estadual e municipal entre 2000 e 2003. No ano seguinte, o doleiro foi capturado no primeiro grande escândalo de corrupção, como um dos operadores das contas CC5 (de não residentes), usadas para remessa ilegal de mais de R$ 30 bilhões ao exterior, na década de 1990, por meio do antigo Banco do Estado do Paraná, o Banestado.

Em 2005, fechou um dos primeiros acordos de colaboração da Justiça brasileira, com o Ministério Público Federal de Curitiba, homologado pelo juiz federal Sérgio Moro. Dos sete anos que pegou, cumpriu 1 e meio.

Voltou às ruas e ao crime. Foi preso em 2014 pela Lava Jato e perdeu os benefícios da delação no caso Banestado. Seis meses depois, fechou novo acordo, desta vez com a força-tarefa da Lava Jato.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA ANTONIO FIGUEREDO BASTO, DEFENSOR DE YOUSSEF

O advogado Figueredo Basto afirmou que vai recorrer da decisão.

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