Youssef também atuava para empreiteiras do cartel na América Latina

Youssef também atuava para empreiteiras do cartel na América Latina

Lista de 750 obras e serviços alvos do doleiro Alberto Youssef, pivô da Operação Lava Jato, mostra negócios em Cuba e Angola, onde ex-ministro José Dirceu prestou consultorias

Redação

22 de março de 2015 | 15h08

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, e Fausto Macedo

O doleiro Alberto Youssef também atuava em países da América Latina e da África, entre eles Cuba, Uruguai e Angola – áreas onde o ex-ministro José Dirceu prestava consultoria internacional para empreiteiras do cartel investigado pela Operação Lava Jato. É o que mostra a lista de cerca de 750 contratos apreendida em seu escritório, em São Paulo, em abril do ano passado.

Em Cuba, a lista de Youssef registra negócio nas obras do Porto de Mariel. De responsabilidade da Construtora Norberto Odebrecht – alvo das investigações da Lava Jato por cartel e corrupção -, a obra de US$ 1 bilhão teve financiamento do governo brasileiro.

O cliente de Youssef é a Olex – Odebrecht Logística e Exportações, segundo o registro. O valor do contrato negociado pelo doleiro é de R$ 3,6 milhões, referente à cotação de tubos. O contrato data de 2010. A construtora nega irregularidades e relação com Youssef.

Há ainda referências a negócios no Uruguai, em Costa Rica, na Argentina, no Equador e em Angola para outros clientes alvos das investigações.

Alberto Youssef está preso desde março de 2014. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

Alberto Youssef está preso desde março de 2014. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

A força-tarefa da Lava Jato considera a lista o mapa dos negócios em que Youssef atuou entre 2009 e 2012, intermediando contratos via empresa Sanko Sider. Os donos da Sanko são alvo da ação penal, em que o doleiro é acusado de usar a Sanko e empresas de fachada de sua “lavanderia” de dinheiro para desvios nas obras da Refinaria Abreu e Lima, em parceria com o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa.

No total, são 750 contratos aproximadamente, num total previsto de R$ 11 bilhões em valores que ele pode ter recebido. Na planilha, para cada projeto destacado há um cliente vinculado, geralmente uma grande construtora, e para cada cliente há um cliente final, quase sempre empresas públicas como Petrobrás e algumas empresas privadas, como a Olex.

“É claro o envolvimento de Alberto Youssef e seu grupo com grandes empreiteiras, e através da planilha apreendida, pode-se deduzir que Youssef tinha um interesse especial nos contratos dessas empresas, onde de alguma forma atuava na intermediação”, informa a Lava Jato.

Para a força-tarefa da Lava Jato, o documento demonstra “a ampla gama de abrangência e diversidade” dos negócios do doleiro, delator do processo. O juiz federal Sérgio Moro considerou a lista prova de que os crimes do doleiro transcenderam a estatal petrolífera.

Veja os dois registros de negócio em Cuba na tabela de Youssef/Reprodução

Veja os dois registros de negócio em Cuba na tabela de Youssef/Reprodução

Cruzamento. Investigadores da Lava Jato cruzam agora os negócios de Youssef nesses países da América Latina e na África com os serviços de consultoria prestados pelo ex-ministro José Dirceu.

Contratada por empresas do cartel acusado de corrupção na Petrobrás, a JD Assessoria e Consultoria – do ex-ministro – passou a ser investigada no final do ano passado, suspeita de ter prestado falsas consultorias que serviram para ocultar o pagamento de propina.

A JD prestou serviços à empresas do cartel que atuava na Petrobrás em países onde Youssef também buscou negócios.
Cuba é um deles. A função de Dirceu seria “abrir portas”, o que incluiria a intermediação de encontros entre autoridades estrangeiras e empresas brasileiras que pretendiam fazer negócio no exterior.

A JD foi contratada pela Engevix Engenharia e pela Jamp Engenheiros Associados – empresa do operador de propinas na Diretoria de Serviços Milton Pascowitch – para abertura de negócios em Cuba e no Peru.

Recebeu um total de R$ 2,5 milhões, entre 2008 e 2012, referente aos serviços prestados. Os contratos e os pagamentos são considerados suspeitos, por apresentarem divergências de datas e valores.

Na última quarta-feira, em depoimento à Justiça Federal, Gérson de Mello Almada, um dos sócios da Engevix, preso desde 14 de novembro de 2014, confirmou que contratou os serviços da JD para “lobby internacional” em Cuba e Peru.

Admitiu também pagar Pascowitch, via Jamp, por ser um lobista com capacidade para “abrir portas” na Petrobrás via seus contatos políticos do PT. Citou o tesoureiro do partido, João Vaccari Neto.

Ao todo, a empresa de consultoria do ex-ministro recebeu R$ 29 milhões entre 2005 e 2013, por essas consultorias internacionais.
Defesa. O ex-ministro informou, via sua assessoria de imprensa que os serviços prestados em Cuba e outros países da América Latina e África foram legais. Informou que fez cerca de 120 viagens ao exterior a trabalho, percorrendo cerca de 30 países, com frequentes viagens a Portugal, Venezuela, Estados Unidos, Peru, Panamá e República Dominicana.

A assessoria do ex-ministro negou, em nota à imprensa, que haja relação entre os serviços de consultoria prestados pelo petista e contratos da Petrobrás. Segundo a nota, Dirceu foi contratado pelas construtoras para prestar consultoria sobre mercados externos, principalmente América Latina e Europa.

“A relação comercial com as empresas não guarda qualquer relação com contratos na Petrobrás sob investigação na Operação Lava Jato”, diz a nota publicada no blog do ex-ministro.

COM A PALAVRA, A DEFESA

O ex-ministro informou, via sua assessoria de imprensa que os serviços prestados em Cuba e outros países da América Latina e África foram legais. Informou que fez cerca de 120 viagens ao exterior a trabalho, percorrendo cerca de 30 países, com frequentes viagens a Portugal, Venezuela, Estados Unidos, Peru, Panamá e República Dominicana.

A assessoria do ex-ministro negou, em nota à imprensa, que haja relação entre os serviços de consultoria prestados pelo petista e contratos da Petrobrás. Segundo a nota, Dirceu foi contratado pelas construtoras para prestar consultoria sobre mercados externos, principalmente América Latina e Europa.

“A relação comercial com as empresas não guarda qualquer relação com contratos na Petrobrás sob investigação na Operação Lava Jato”, diz a nota publicada no blog do ex-ministro.

 

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