Youssef diz ‘desconhecer’ propina para funcionários da Cemig

Youssef diz ‘desconhecer’ propina para funcionários da Cemig

Doleiro foi ouvido em inquérito que investiga transação envolvendo Pequenas Centrais Hidrelétricas no Estado de Minas Gerais

Redação

11 de agosto de 2015 | 12h31

Por Mateus Coutinho, Ricardo Brandt enviado a Curitiba e Fausto Macedo
PCHguanhaes
Em novo depoimento à Polícia Federal, o doleiro Alberto Youssef admitiu ter fechado contrato de fachada de R$ 4,3 milhões com a empresa Investminas, do ex-ministro do governo Collor Pedro Paulo Leoni Ramos (PP) e que atua no setor elétrico. Youssef afirmou, contudo, “não ter conhecimento” se a quantia foi utilizada para pagamento de propinas a funcionários da estatal mineira Cemig, envolvida em um negócio com a empresa de Pedro Paulo. O depoimento foi dado no inquérito que investiga a transação entre a empresa do ex-ministro e o doleiro.
O valor é referente a um contrato de 2011 da Investminas com a MO Consultoria, empresa de fachada usada pelo doleiro para lavar dinheiro de propina. O acordo de fachada previa prestação de serviços de consultoria para a venda da cota da empresa de Pedro Paulo na Guanhães Energia, uma sociedade entre a Investminas (51% das ações) e a estatal mineira Cemig (49% das ações) para a construção de quatro Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) no Estado de Minas Gerais.
VEJA O DEPOIMENTO DE YOUSSEF:
 depoimentoyoussefinvestminas
“Quanto ao contrato firmado entre MO Consultoria e Investminas, afirma que não intermediou qualquer aquisição de participação societária na  Guanhães Energia, e que o contrato era ideologicamente falso, com o fito de embasar as transações da conta corrente de Pedro Paulo”, afirmou o doleiro em depoimento prestado no dia 10 de julho. Dono da holding GPI Participações, que atua nas áreas de energia e saneamento e controla a Investminas, Pedro Paulo é investigado na Lava Jato devido as transações que mantinha com Youssef.
Apesar do contrato falso, em 2012 a cota da Investminas na Guanhães Energia (51%) foi vendida para a empresa Light, que também tem a Cemig como uma de suas acionistas, pelo valor de R$ 26,5 milhões. Na ocasião, a Cemig abriu mão de sua preferência nas cotas da Investminas, da qual ela detinha 49% das participações. A transação foi realizada antes de as obras das quatro PCHs serem concluídas. Questionado se o contrato de fachada tinha alguma relação com a estatal mineira, Youssef afirmou em seu depoimento que “não tem conhecimento que os valores depositados pela Investminas tenham sido utilizados para pagamento de vantagem junto à Cemig, Furnas ou outra estatal”. 

Alberto Youssef está preso desde março de 2014. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

Alberto Youssef está preso desde março de 2014. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

A Light afirmou que a proposta da compra das cotas da Guanhães foi oferecida pela própria Cemig. A estatal mineira, por sua vez, não comentou de quem foi a iniciativa de oferecer a proposta. Na época da transação o Estado de Minas era governado pelo PSDB, e atualmente está sob gestão do governador Fernando Pimentel, do PT, que assumiu neste ano e trocou a cúpula da estatal.
‘Conta’. Ainda de acordo com o doleiro, parte dos R$ 4,3 milhões do contrato foram entregues a Pedro Paulo em dinheiro vivo e outra parte teria sido recebida por meio de um contrato da Camargo Corrêa com a Globalbank, também de PP. Neste último caso, explicou Youssef, o contrato da empreiteira com a empresa de Pedro Paulo foi uma forma de abater a “dívida” que a Camargo tinha com Youssef referente aos contratos da Refinaria de Abreu e Lima e da Refinaria Presidente Getúlio Vargas , da Petrobrás. O doleiro recebia porcentagens dos contratos da estatal petrolífera que eram destinadas a abastecer o caixa de políticos do Partido Progressista.
O negócio envolvendo as hidrelétricas em Minas Gerais não é o único em que aparecem as empresas de Pedro Paulo Leoni Ramos na Lava Jato.  A PF suspeita de uma sociedade, no âmbito da Labogen, entre a GPI, o doleiro e a Linear Participações e Incorporações Ltda. O laboratório teria como foco o fornecimento de produtos químicos para a Petrobrás e medicamentos para o Ministério da Saúde. Além disso, a Investminas arrematou, com Furnas, a concessão da hidrelétrica de Três Irmãos – cujo contrato teve a assinatura suspensa por determinação do Tribunal de Contas da União.
 
 COM A PALAVRA, A LIGHT:
“A Light e a Cemig são parceiras em diversos projetos de geração como, por exemplo, UHE  Itaocara (noroeste fluminense), cujas obras estão previstas para ter início em 2016; e PCH Paracambi (Baixada Fluminense) – inaugurada em 2012. Por ser parceira da Light nestes empreendimentos e pelo fato de já participar de Guanhães, a Cemig – acionista da Light – propôs parceria da distribuidora do Rio de Janeiro em mais este projeto.
Em linha com seu plano de negócios – que contempla expandir sua capacidade em geração de energia – a Light realizou uma “due diligence” (auditoria) para avaliar se o projeto se enquadrava em sua política de investimentos. Após essa análise, efetivou a compra da participação de 51% da Investminas. A Light também informa que não tem conhecimento de qualquer movimento financeiro além do pagamento à Investminas na compra dos 51% de participação.”
COM A PALAVRA, A CEMIG:
“A Companhia Energética de Minas Gerais – Cemig informa que é acionista da Light e tem alguns projetos em parceria. Em março de 2012 foi realizada uma negociação e, por decisão empresarial, abriu-se mão do direito de preferência.
A atual gestão da Cemig desconhece qualquer pagamento indevido que possa ter ocorrido naquela ocasião.”
COM A PALAVRA, A DEFESA DA INVESTMINAS:O advogado Thiago Nicolai, que defende a Investminas na Lava Jato, afirmou que não iria se manifestar e que a defesa já apresentou as explicações à Justiça. Em petição encaminhada ao juiz Sérgio Moro, a Investminas afirmo que o contrato de consultoria com a empresa de Youssef foi cumprido e que o doleiro foi o responsável por ajudar a fechar o negócio com a Light.

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