Xô, definhamento!

Xô, definhamento!

José Renato Nalini*

20 de junho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Muitas pessoas estão com uma sensação indefinida de mal estar. Já não as anima a notícia de que a vacinação poderá chegar aos níveis desejáveis. Encontram dificuldade para concentrar seu pensamento, não sentem dores, mas algo que lembraria esgotamento ou depressão.

Corey Keyes, Um sociólogo que analisou o fenômeno, chamou esse estado de definhamento. e o estado médio negligenciado da saúde mental. uma espécie de vazio entre depressão e florescimento: ausência de bem-estar, de esperança quanto ao futuro, falta de vontade em relação a quase tudo.

Se não se pode falar em doença mental, também não se pode aceitar o quadro como de uma perfeita higidez mental. O definhamento priva a pessoa de sua plena capacidade. Embota sua motivação, perturba suas faculdades e multiplica a probabilidade de regressão em vários sentidos.

Tudo indica que a potencialidade de uma grande depressão com transtornos de ansiedade na próxima década será mais comum entre os portadores do definhamento. Nem é difícil explicar o motivo dessa pré- depressão. O mundo está acuado e descobriu ser vulnerável, impotente quando regido por pessoas desprovidas de sensibilidade e focadas em projetos personalíssimos, nefastos para a maior parte dos cidadãos.

O Brasil tem ainda mais razão para cultivar o definhamento. Superou o meio milhão de mortes, a maioria das quais perfeitamente evitáveis. Assiste perplexo à eliminação de seu mais valioso bioma, a Amazônia e não consegue se opor a uma deliberada implementação de feroz antipolítica ambiental, no maior retrocesso já verificado em meio século.

A polarização da sociedade, hoje dividida entre “nós” e “eles” fez recrudescer uma animosidade intolerável. A disseminação de armas já está mostrando a que causa veio servir: os honestos tornam-se fornecedores de instrumentos letais para a bandidagem.

Outro elemento a se considerar é o hiato nos rituais de luto imposto a quantos perderam familiares ou pessoas queridas e não puderam abraçar

os sofridos sobreviventes.

Para os psicólogos, o maior perigo é não perceber que se está definhando. Quem não consegue enxergar o próprio sofrimento, é incapaz de procurar ajuda. Para eles, os psicólogos, a melhor estratégia é chamar pelo nome essa nuvem angustiante que obscurece a consciência de muitas criaturas. Ante o primeiro sintoma, autoindagar-se: estou definhando?

Há muito a aprender em relação ao definhamento, assim como é urgente descobrir meios de minorar as sequelas da covid 19, em sua prolífica explosão.

Uma estratégia indicada pela psicologia para enfrentar o definhamento é o antídoto chamado fluxo, aquele fugidio estado de absorção em um desafio importante ou uma ligação momentânea em que a sensação de tempo lugar e self se dilui.

Quando teve início a pandemia, o melhor previsor de bem-estar não era o otimismo, era o fluxo. Manter-se atento em seus projetos pessoais é uma forma de evitar o definhamento. Cada qual sabe como usar o seu fluxo.

Ler aqueles livros que estavam à espera de tempo, ouvir músicas, não esporadicamente, mas atentar para concertos disponíveis no mundo web, escrever memórias, ligar para amigos, enfim, procurar fórmulas de se entreter, sem deixar de se compadecer por aqueles que tiveram suas vidas ceifadas.

O silêncio pode ser um outro aliado. Isso é científico. Grande empresa de software da Índia definiu um tempo de silêncio como política oficial e com isso obteve 65% de produtividade acima da média

A pandemia da Covid19 é uma catástrofe. Ela deve ser também uma lição de vida para aqueles que se acreditavam incólumes a qualquer desgraça. A peste atinge pessoas de todas as idades, raças, cores ou estamentos. Ainda é inexplicável. Deixa sequelas que se multiplicam e, para outros, não passa de uma enfermidade leve.

Estes tempos são propícios a que se faça uma revisão da maneira como se vive e se relaciona com os demais. Período de investir no autoconhecimento, para depois vivenciar um relacionamento mais saudável com o próximo. Revigorar o amor pela natureza, a terceira imprescindível esfera para um equilíbrio mental e devotar-se à meditação, para também enfrentar o necessário encontro com a transcendência

Definhar está nas circunstâncias, mas pode receber um freio numa consciência bem cuidada. aquela cabeça cheia de bons propósitos e pronta a reconhecer uma hierarquia valorativa compatível com o nosso discurso.

Enfim, crer firmemente que tudo isto passará um dia. pois como dizia Teresa D’Ávila, doutora da igreja, “tudo passa, só Deus não passa”.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – gestão  2021 – 2022

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