‘Vou falar uma coisa do fundo do meu coração, o dinheiro não me importava’, afirma Costa

Em delação premiada complementar, gravada pela força tarefa, ex-diretor da Petrobrás que amealhou fortuna de mais de US$ 30 milhões em propinas na Suíça e nas ilhas Cayman, disse que 'gostava muito de sua atividade como engenheiro'; assista ao vídeo

Redação

26 de março de 2015 | 17h00

Por Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

Em sua delação premiada perante a força tarefa da Operação Lava Jato, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, fez uma revelação que surpreendeu, mas também provocou ironias entre investigadores. Ele declarou. “Vou falar uma coisa aqui do fundo do meu coração, vocês acreditem se quiserem. Vocês não são obrigados a acreditar. Nessa parte toda de recurso, de dinheiro que vinha para mim, o dinheiro não me importava, eu gostava muito do que eu fazia, da minha atividade como engenheiro lá (na estatal).”

Primeiro delator da Lava Jato, Costa amealhou uma fortuna incalculável no período em que ocupou a diretoria de Abastecimento da Petrobrás, de 2003 a 2012. Só em contas na Suíça e em Cayman ele somou mais de US$ 30 milhões em propinas. No acordo de delação premiada ele abriu mão do dinheiro, autorizando a repatriação espontânea.

VEJA O DEPOIMENTO DE PAULO ROBERTO COSTA NA ÍNTEGRA

Alguns investigadores, porém, suspeitam que o ex-diretor ainda mantém outras grandes somas em outros paraísos fiscais. Após deixar a Petrobrás, Costa abriu uma consultoria, a Costa Global. Pela empresa, ele teria simulado contratos com empreiteiras para mascarar o recebimento da propinas atrasadas.

No depoimento gravado em vídeo, Costa falou sobre o esquema de corrupção instalado na estatal petrolífera, o cartel de empreiteiras que fraudava licitações e o pagamento de propinas a políticos. Ele “abriu o coração” enquanto falava sobre um calote que diz ter sofrido do deputado federal Aníbal Gomes (PMDB-CE), aliado do senador Renan Calheiros (PMDB/AL).

O ex-diretor contou que Aníbal ficou devendo R$ 800 mil reais prometidos a ele. Costa conta que o deputado pediu que ele ajudasse o Sindicato Nacional dos Mestres de Cabotagem e Contramestres em Transportes Marítimos a resolver um impasse com a Petrobrás.

“Ele (Anibal) me procurou lá para poder agilizar o processo. Porque eu podia chegar lá e dizer: ‘Não vou ver isso. Talvez daqui a um ano.’ Eu podia fazer isso. Eu falei: ‘tá bom, Anibal, vamos ver isso'”, contou o delator. “O Aníbal falou: ‘Paulo, esse aqui, se a gente conseguir resolver esse assunto aqui, você vai ter um ganho aqui de R$ 800 mil. Só que ele nunca me deu esse valor. Ele me passou a perna.”

Segundo Costa, o deputado Aníbal Gomes disse que estava “representando” o senador Renan Calheiros (PMDB-AL). O ex-diretor disse que acabou não recebendo nada por sua atuação no caso. Ele afirmou também que não houve sobrepreço no ajuste com o Sindicato e nem conversa entre ele e Renan. A tratativa, contou o delator, teria sido feita diretamente com Anibal, suposto emissário do senador, em uma reunião no Rio.

“Então, por exemplo. Esse dinheiro aí (R$ 800 mil) eu nunca cobrei dele. Eu nunca cobrei dele. Ele não tocou no assunto, depois eu saí da companhia, e aí morreu. Ele não pagou, não pagou”, afirma Paulo Roberto Costa.