“Vou entrar no circuito”, disse Pezão no grampo da Lava Jato

“Vou entrar no circuito”, disse Pezão no grampo da Lava Jato

Governador do Rio de Janeiro, preso na quinta-feira, 29, foi flagrado em ligação telefônica após seu antecessor e padrinho político Sérgio Cabral ter sido confinado na solitária do presídio de Bangu

Julia Affonso

03 Dezembro 2018 | 11h54

Foto: Reprodução/MPF

O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (MDB), caiu no grampo da Operação Lava Jato. Pezão, preso na quinta-feira, 29, foi flagrado em conversa telefônica em julho deste ano, dizendo que entraria ‘no circuito’ após o ex-governador Sérgio Cabral (MDB), seu antecessor e padrinho político, preso desde novembro de 2016, ter sido mandado para a solitária. A transferência para o isolamento foi requisitada por um promotor que fazia inspeção na cela em que Cabral cumpre pena – o ex-governador já está condenado a penas que somam 183 anos de reclusão por corrupção e lavagem de dinheiro.

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O alvo da interceptação telefônica era Pezão. Às 11h43 de 24 de julho, o governador do Rio falou com um interlocutor identificado por ‘Ricardo’, que lhe contou que estava ‘saindo lá de Bangu 8’.

“O MP fez uma visita lá e fez uma indelicadeza muito grande com Cabral e até acho que fisicamente forçaram ele jogar ele numa cela lá rapaz”, relatou Ricardo.

“É mesmo?”, perguntou Pezão.

“É o Edson pediu mim tentar falar contigo ou com Marco Antonio”, disse o interlocutor.

Foto: Reprodução/MPF

Ricardo narrou a Pezão que Sérgio Cabral ‘foi pro enfrentamento com o Ministério Público, aí o Ministério Público, os Promotores que estão aí chamaram polícia’. O interlocutor relatou ao governador do Rio que ‘a cela que botaram ele não tem nada, lugar horrível’.

Pezão quis, então, saber. “Mas porque que o Ministério Público fez isso, você sabe por quê?”

“Porque eles estão fazendo vistoria, eles fazem visita né, tipo uma vistoria, né, uma rotina inclusive deles”, respondeu Ricardo.

O interlocutor prosseguiu o relato. “E o Sérgio se recusou a fazer porque ele alegou que ele não é preso é detento, e não ia ficar naquela posição, questionou a equipe que tava lá do Ministério Público e ficou aquele questionamento, né, aí eles usaram da autoridade e..”

“Mas a Polícia levou ele pra outro lugar?”, perguntou Pezão.

“Aí levou ele pra outra cela aqui em Bangu oito mesmo”, afirmou Ricardo.

“Puta que pariu!”, disse o governador.

Em seguida, Pezão pergunta. “O que é que posso, o que você acha que posso fazer aí, o que dá pra gente fazer?”

“Ô governador acho que talvez falar com o Diretor aqui vê se, assim”, respondeu Ricardo.

“Tá”, afirmou Pezão.

“Assim que acabar a visita, reconduz ele pra sala normal, entendeu, ou…ou, dar condições de acomodar ele pra onde ele foi, porque é local fisicamente não tem nada, é uma sala até que tava em desuso”, disse o interlocutor.

“Tá bom. Eu vou ver aqui”, respondeu o governador. “Vou entrar no circuito, tá bom.”

Na petição em que pediu a prisão de Pezão, a procuradora-geral da República Raquel Dodge afirma que ‘as atuais ligações de Pezão com a organização criminosa segue ativa ainda hoje como se infere da ligação interceptada, que, contemporaneamente, desfruta de vínculos com o condenado e associado Sérgio Cabral’.

Pezão foi vice-governador de Sérgio Cabral entre 2007 e 2014. Assumiu a chefia do Executivo fluminense com a renúncia de seu antecessor, em 3 de abril de 2014. Pezão foi também Secretário Estadual de Obras do Governo Cabral entre 1 de janeiro de 2007 e 13 de setembro de 2011.

Para a procuradora-geral, Pezão ‘assumiu a liderança da organização criminosa com a prisão de Sérgio Cabral’.

“Continua a ordenar atos de corrupção e de lavagem de dinheiro público, o que demonstra a necessidade da prisão preventiva para garantia da ordem pública ante as evidências de que a prática criminosa segue ativa no governo do Estado do Rio de Janeiro”, afirmou Raquel.

“Tem-se um cenário criminoso liderado por Luiz Fernando de Souza (Pezão), que governa o importante Estado do Rio de Janeiro. Seus associados ocupam função pública de destaque ou dirigem empresas que recebem recursos públicos, que estão sendo corrompidos, desviados e lavados de modo criminoso, numa pilhagem que pode a se intensificar nos meses finais de sua gestão.”

COM A PALAVRA, PEZÃO

A reportagem está tentando contato com a defesa do governador do Rio de Janeiro, Pezão. O espaço está aberto para manifestação.