Voto útil e a falta de reflexão

Voto útil e a falta de reflexão

Cristiano Vilela*

04 Outubro 2018 | 04h30

Cristiano Vilela. Foto: Arquivo Pessoal

As pesquisas eleitorais são instrumentos fortemente utilizados no âmbito eleitoral. Para os candidatos, partidos e suas assessorias, se constituem em ferramenta para a compreensão dos anseios do eleitor, para decifrar mudanças nos humores da população, para afinar o discurso, para escolher áreas de maior ou menor atuação política, etc. Para os eleitores, serve como forma de visualizar o cenário da disputa e, com base nessas informações, ter mais esse elemento para tomar sua decisão de voto.

O resultado das pesquisas eleitorais faz parte, portanto, de um conjunto de informações que o eleitor se utiliza no momento da decisão de voto. Elementos ideológicos, elementos afetivos, interesses regionais ou corporativos, todos esses são componentes que se dispõe de modo que o eleitor formule sua decisão. Temos ainda o chamado “bandwagon”, fenômeno que indica a tendência de um cidadão dar seu voto a um candidato que surja como provável vencedor ou o “underdog”, que trata das zebras ou dos votos por “piedade”.

É desse plexo de informações que advém a decisão final de voto. Nesse sentido, tem ganhado grande repercussão nos últimos tempos o chamado voto útil, igualmente impulsionado pelas pesquisas de opinião. Esse voto, a rigor, não vincula o eleitor ao candidato que atenda ao seu caldo de interesses, mas, ao contrário, àquele candidato que demonstra ser capaz de não permitir a vitória do opositor. Não se vota, nesses casos, pela afeição, mas pela rejeição forte ao adversário.

Esse fenômeno do voto útil não é novo e, em certo ponto, justifica a existência da eleição em dois turnos. Em tese, no primeiro turno o eleitor votaria de acordo com suas convicções; no segundo, com apenas dois candidatos, votaria de forma mais objetiva, levando em conta os aspectos indesejáveis de eventual vitória do adversário. O que parece cada vez mais recente é a antecipação da decisão de voto, isto é, a tomada de decisão pelo voto útil ainda no primeiro turno.

A antecipação de decisão de voto útil confere, assim, um poder muito grande às pesquisas eleitorais. À luz dessa visão, vota-se naquele que os institutos de pesquisa apontaram como favoritos – ou em condição de bater o favorito nas urnas. Por mais que as informações demonstradas pelos institutos sejam fidedignas – e são várias as empresas sérias que prestam esse tipo de serviço no Brasil – é uma informação que chega ao eleitor refinada, industrializada, para consumo imediato, concedendo menor espaço para a reflexão e avaliação das características dos candidatos para a tomada de decisão.

Essa prática tende ao Fla-Flu: abandona um conjunto de candidatos pelo meio do caminho e a disputa se polariza, aumentando inclusive as tensões e os conflitos de parte a parte. O “anti” ganha enorme relevância e diferentemente dos “janistas”, dos “brizolistas”, dos “getulistas”, damos lugar aos “anti-pt”, “anti-psbd”, “#elenão”, etc.

Talvez o fenômeno dessa antecipação do voto útil seja a marca geracional de um momento histórico que exige rapidez para tudo, que deseja o consumo imediato ao invés da maturação. Uma geração que não tem paciência para debates, programa eleitoral ou discussão de projetos. Que deseja ir direto ao que interessa. Perde-se com isso a oportunidade de reflexão, sedimentação de ideias e construção de um projeto mais efetivo de construção política para o País.

*Cristiano Vilela
Advogado, sócio de Vilela, Silva Gomes & Miranda Advogados, membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB-SP

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