Voto sem influência de pesquisas

Murilo Hidalgo*

11 Dezembro 2018 | 11h08

As pesquisas de intenção de voto são instrumentos relevantes para capturar o sucesso de um partido ou de um candidato em determinada eleição. Os números dos resultados não transpiram emoção e retratam um fato passado: não são capazes, portanto, de prever o futuro, apontar vencedores e perdedores. Para o futuro, ela indica tendência e, agregadas, movimento de eleitores.

Dois estudos conduzidos pelos professores canadenses André Blais e Richard Nadeau “Measuring Strategic Voting: A Two Step Procedure” e “Measuring Strategic Voting in Multiparty Plurality Elections” mostraram que 5% dos eleitores mudam seus votos motivados pela intenção de alterar o resultado da eleição. Nesse caso, eles optam pela segunda opção simplesmente porque ela tem mais chances de vitória do que a primeira escolha. Essa conclusão foi baseada em campanhas no Canadá.

É fato, portanto, que as pesquisas de intenção de voto podem contaminar a corrida eleitoral por conta desse voto estratégico, mas também (e essa é uma parte relevante) pelo efeito de contágio. Como as pesquisas, novamente de acordo com os pesquisadores canadenses, afetam as expectativas sobre o resultado, as preferências e as avaliações dos eleitores acabam sendo impactadas e alteradas. Ou seja, eles mudam de votos.

A literatura científica cita essa possibilidade de apenas 5% dos eleitores serem motivados por esse tipo de mudança. Seria um efeito inexpressivo no universo de eleitores no Brasil. Na última eleição tivemos 147,3 milhões de eleitores aptos a votar. Nessa conta, 7,365 milhões de eleitores estariam nessa massa volúvel de alterar sua escolha baseada em quem vai vencer.

Isso é desprezível? Neste último pleito houve muita volatilidade. Jair Bolsonaro não venceu no primeiro turno por apenas 4.248.347 votos. Em 2006, Luiz Inácio Lula da Silva teve de disputar um segundo turno com Geraldo Alckmin porque teve 1.336.002 milhões de votos a menos do que o necessário (50% + 1) para encerrar a fatura na primeira rodada.

Esses dados mostram que a massa de eleitores que são impactada e mudam seus votos de acordo com pesquisas não é desprezível. Eles podem, sim, ditados por um levantamento levar a eleição para um lado ou para o outro. Por isso é preciso cautela. As pesquisas de intenção de votos são muito relevantes para mostrar o desempenho de partidos e candidatos, mas não podem ser instrumentos de massa de manobra. Não podem servir como dado e ciência para ditar os rumos dos votos de uma parcela considerável do eleitorado.

As pesquisas são uma fotografia daquele instante, apenas e tão somente. Num mundo cada vez mais polarizado, mais intolerante e menos racional, é preciso adotar posturas enérgicas para preservar o direito e a capacidade do eleitor decidir baseado no que ele entende como relevante. É preciso tomar a decisão em cima de ideias, propostas e plataformas. Precisamos fortalecer o eleitor para garantir que ele vá para as urnas convicto que está optando pelo melhor candidato, pelas melhores propostas e não pelo candidato que tem mais chance de ganhar.

A democracia se constrói em cima de valores transparentes e do empoderamento do cidadão, do eleitor. Numa crise de representatividade, ele deve se sentir acolhido por sua escolha. O Brasil é um país complexo, muito volátil, com cada vez mais ambiguidades. Não podemos enfraquecer o eleitor. Por isso é preciso retirar todos os fatores externos e alheios que influenciam o voto durante o período de campanha eleitoral.

O Tribunal Superior Eleitoral deveria, nesse sentido, adotar uma resolução proibindo a divulgação de pesquisas de intenção de voto no horário eleitoral gratuito como instrumento de marketing. As pesquisas devem servir como fonte de informação e não peça publicitária e manobra para estimular movimentos de mudança de voto. Seria uma medida saudável que protege o eleitor, os cidadãos, as instituições e a democracia brasileira. Não seria uma medida para deixar todos no escuro, deixar todos cegos caminhando no deserto. Muito pelo contrário. Seria uma ação para garantir que os eleitores ficassem de olhos bem abertos para ouvir propostas e escolher seus candidatos de forma livre e com maior isenção. Democracia é dar o maior poder ao eleitor e não deixá-lo navegando conforme a maré.

*Murilo Hidalgo, 50, é diretor-presidente do Instituto Paraná de Pesquisas

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