Voto de Marco Aurélio é interrompido por hino do Flamengo e expõe divisões futebolísticas do STF

Voto de Marco Aurélio é interrompido por hino do Flamengo e expõe divisões futebolísticas do STF

De uma forma geral, os ministros do Supremo são apaixonados por futebol, mas as divergências que marcam julgamentos (como os que envolvem a Operação Lava Jato) se repetem quando se trata das paixões nos gramados

Rafael Moraes Moura/ BRASÍLIA

20 de agosto de 2020 | 18h25

O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal. Foto: Dida Sampaio / Estadão

O julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o dossiê elaborado pelo governo contra servidores antifascistas, marcado por duros recados ao Palácio do Planalto e mensagens enfáticas dos ministros a favor da democracia, teve um momento inusitado na tarde desta quinta-feira (20), quando o hino do Flamengo “invadiu” a sessão plenária. Em tempos de pandemia, o julgamento foi feito por videoconferência, com cada um dos ministros votando de suas casas ou gabinetes, o que abre margem para imprevistos.

Flamenguista fanático, o ministro Marco Aurélio lia pacientemente o seu voto, quando foi surpreendido pelo toque do seu celular, que começou a cantar em alto e bom som: “”Uma vez, Flamengo, sempre Flamengo…”

“Essa identificação não me abandona. Me acompanha o tempo todo”, disse Marco Aurélio imediatamente. “Eu acompanho”, respondeu, aos risos, o ministro Luís Roberto Barroso, também flamenguista.

Marco Aurélio já foi interrompido, em outra sessão, por uma de suas netinhas, que fez uma aparição-relâmpago numa das sessões plenárias do STF atrás de chocolates guardados pelo avô.

Divisões. De uma forma geral, os ministros do Supremo são apaixonados por futebol, mas as divergências que marcam julgamentos (como os que envolvem a Operação Lava Jato ou outras questões politicamente sensíveis) se repetem quando se trata das paixões nos gramados. Alexandre de Moraes, por exemplo, costuma aparecer nas sessões por videoconferência bebericando uma água de uma caneca do Corinthians (presente do 3º Batalhão de Choque da PM de São Paulo), quebrando assim o tom solene dos julgamentos para aliviar a sede e expor a paixão pelo clube.  Pé-quente, Moraes foi com a família para o Japão ver o Timão faturar o bicampeonato mundial em 2012. 

Discreta e avessa a entrevistas, Rosa Weber é torcedora do Internacional e volta e meia comentava resultados do Brasileirão com jornalistas antes das sessões plenárias, quando elas ocorriam presencialmente. No dia 22 de março de 2018, data em que o Supremo daria uma liminar blindando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de prisão até a conclusão do julgamento de um habeas corpus, Rosa chegou pelo tapete vermelho falando sobre placar – não do julgamento que começaria em instantes, mas da partida entre Grêmio e Internacional pelo Campeonato Gaúcho. “Perdemos. Quer dizer, ganhamos por 2 a 0, mas tínhamos perdido por 3 a 0. Não classificamos para a final.”

Torcedor do Santos, Gilmar Mendes guarda em seu gabinete uma camisa emoldurada do clube, assinada pelo Pelé.

O atual presidente do STF, Dias Toffoli, e Lewandowski são palmeirenses. O próximo presidente da Corte, Luiz Fux, que assume o comando do tribunal no dia 10 de setembro, é Fluminense.  Já Edson Fachin é torcedor do Coritiba e está feliz com o retorno do time à primeira divisão. O decano do STF, Celso de Mello, é São Paulo.

O Estadão procurou o gabinete de Cármen Lúcia e ainda aguarda resposta sobre o seu time de futebol. Uma ex-assessora de Cármen disse reservadamente à reportagem que a ministra nunca confessou o seu time, “talvez para alimentar a lenda de que mineiro não revela nem para qual time torce”.

Campeonato. Questões controversas envolvendo o esporte já chegaram ao tribunal para serem examinadas pelos ministros. Em 2017, por exemplo, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal negou por unanimidade um recurso apresentado pelo Flamengo contra decisão da Justiça que declarou o Sport como único campeão do Campeonato Brasileiro de 1987.

A Turma manteve a decisão justamente de Marco Aurélio Mello, que havia julgado inviável um recurso do Flamengo, considerando que a decisão que reconheceu o Sport como único campeão do campeonato de 1987 já havia transitado em julgado e não poderia ser alterada.

“O que se pretende claramente aqui, com o agravo regimental e os embargos de declaração, é a rediscussão do mérito. Todas essas questões foram muito debatidas”, disse o ministro Alexandre de Moraes na ocasião.

Moraes disse que o único fato novo entre o julgamento de abril e aquele foi o fato de o seu time do coração ter sido campeão do Campeonato Brasileiro de 2017.  “O fato superveniente é que meu time ganhou o Campeonato Brasileiro. Meu time ganhou mais um título brasileiro, até porque deixou os outros bem atrás, nem dúvida há. (Mas) não houve nenhuma alteração do que julgamos à época”, comemorou Moraes.

Rosa Weber fez uma breve intervenção naquela sessão da Turma. “Houve outro fato, sim: meu time conseguiu voltar à primeira divisão. Mas de qualquer sorte, nos embargos de declaração, acompanho integralmente (o voto do relator Marco Aurélio)”, completou Rosa.

Em 1987, o Flamengo venceu a Copa União, que tinha os maiores times do país – competição que acabou sendo organizada sem a CBF, que passava por uma crise financeira. Mas a confederação mandou que se jogasse um duelo semifinal com Inter (segundo colocado), Sport e Guarani (que venceram o Módulo Amarelo, um torneio sem os grandes).

No entanto, Flamengo e Inter se negaram a disputar os duelos. Assim, o Sport venceu o Guarani e acabou sendo considerado o campeão brasileiro daquele ano.

Tudo o que sabemos sobre:

STFFlamengoMarco Aurélio Mello

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: