‘Vossa Excelência foi aquinhoado com alguma parcela desses valores?’ (da PF para Temer)

‘Vossa Excelência foi aquinhoado com alguma parcela desses valores?’ (da PF para Temer)

Delegado Thiago Machado Delabary, no âmbito do inquérito 4462, investiga revelações de executivos ligados à Odebrecht que, em delação premiada, falaram do suposto pedido de 'apoio financeiro' à campanha do MDB

Naira Trindade, Fabio Serapião e Julia Affonso

21 Agosto 2018 | 17h39

Michel Temer. Foto: AP Photo/Eraldo Peres

No âmbito do inquérito 4462, a Polícia Federal enviou 20 perguntas ao presidente Michel Temer com base nas revelações de executivos ligados à empreiteira Odebrecht que, em delação premiada, contaram detalhes de uma reunião que teria ocorrido no Palácio Jaburu – quando Temer ocupava a vice-presidência no Governo Dilma. “Vossa Excelência foi aquinhoado com alguma parcela desses valores?”, questionou o delegado federal Thiago Machado Delabary, em documento de 7 de agosto.

Documento

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O próprio delegado federal assinalou, no início do questionário, que ‘algumas perguntas’ já foram enviadas ao presidente no âmbito do denominado Inquérito dos Portos, ‘e, muitas delas, respondidas’.

Temer, assim como no inquérito dos Portos, sentiu-se hostilizado com algumas perguntas, as quais reputou ‘ofensivas’ e ‘invasivas’. O presidente não escondeu sua indignação diante de determinadas indagações, ‘repetitivas’ e ‘desrespeitosas’. Segundo aliados, Temer já declarou ter participado do jantar no Jaburu, mas sempre negou que os participantes tivessem falado em dinheiro. Esses aliados avaliam que várias perguntas foram ‘mal formuladas tecnicamente’.

A pergunta número 3 irritou o presidente.

“Alguns executivos da Odebrecht afirmaram, no âmbito de seus respectivos acordos de colaboração premiada, que, em meio à segunda rodada de concessões de aeroportos, receberam do ministro Moreira Franco solicitação de apoio financeiro à campanha do PMDB, o que teria redundado na disponibilização de R$ 4 milhões pela construtora, em recursos não contabilizados. Vossa Excelência teve ciência da solicitação e do encaminhamento dos valores? Vossa Excelência foi destinatário de alguma fração desses valores?”, perguntou o delegado.

“Não tenho a menor ciência do aporte desses recursos. Em razão deste fato, descabida a segunda parte da questão”, respondeu Temer.

Na pergunta 4, o delegado faz menção ao jantar. “Vossa Excelência participou de jantar realizado no Palácio do Jaburu, em maio de 2014, no qual estiveram presentes Marcelo Odebrecht e Cláudio Melo Filho?” O delegado arrematou. “Em caso de resposta afirmativa, quem mais participou do evento, qual o propósito de sua realização e o que foi efetivamente tratado?”

Temer respondeu: “Deu-se o jantar. Além dos mencionados na pergunta, o Ministro Eliseu Padilha. Marcelo Odebrecht comunicou que iria colaborar com vários candidatos do PMDB, o que fez oficialmente por meio do partido”.

Outros questionamento que irritou Temer foi o que o delegado perguntou se João Baptiosta Lima Filha, o coronel Lima, recebeu algum valor em espécie destinado a ele (Temer) em 2014. “Apesar de insultuosa a indagação, registro que não haveria nenhum motivo para tal recebimento”, respondeu o presidente.

Segundo a PF, os executivos da Odebrecht, em declarações prestadas no âmbito do Inquérito 4462, afirmaram que, no jantar, ‘fora objeto de discussão o encaminhamento de R$ 10 milhões ao PMDB pelo grupo empresarial, dos quais R$ 6 milhões seriam direcionados à campanha de Paulo Skaf ao Governo de São Paulo, nas eleições de 2014.

Sobre esse tema, o delegado perguntou: “Tomou conhecimento de algum apoio financeiro prestado pela Odebrecht à campanha de Paulo Skaf?”

“Não tomei conhecimento”, respondeu Temer.

Outras indagações citam o advogado José Yunes, igualmente velho amigo do presidente e também alvo da Operação Skala. “Qual a relação mantida entre Vossa Excelência e o advogado José Yunes? É possível afirmar que José Yunes é pessoa da máxima confiança de Vossa Excelência?”.

“Conheço-o desde os tempos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. A confiança é proporcional a esta longa amizade”, explicou o presidente.

Yunes afirmou, em declarações prestadas no Inquérito nº 4462, que, a pedido do ministro Eliseu Padilha, ‘recebeu uma pessoa em seu escritório. em São Paulo, no ano de 2014, a quem posteriormente identificou tratar-se de Lúcio Funaro’ – doleiro preso na Operação Sepsis.

COM A PALAVRA, JOSÉ YUNES

O Estado procurou a defesa de Yunes. O espaço está aberto.

COM A PALAVRA, O PRESIDENTE MICHEL TEMER

A defesa de Temer disse que não vai se manifestar sobre o caso

COM A PALAVRA, O MINISTRO MOREIRA FRANCO

Jamais tratei de recursos de campanha com qualquer empresário. Muito menos com executivos da Odebrecht. A afirmação do senhor Cláudio Melo em delação é mentirosa.

COM A PALAVRA, O MINISTRO ELISEU PADILHA

O ministro Eliseu Padilha não irá comentar sobre o assunto, uma vez que as perguntas foram dirigidas ao Presidente da República, Michel Temer. Cabe somente a ele as respostas.

COM A PALAVRA, PAULO SKAF

Paulo Skaf disse que não irá se manifestar sobre o caso.