Volume morto do Cantareira esvaziou lago do sítio de Atibaia, diz executivo

Volume morto do Cantareira esvaziou lago do sítio de Atibaia, diz executivo

Crise hídrica que atormentou São Paulo provocou esvaziamento do 'lago de cima' do Santa Bárbara, cuja propriedade a Lava Jato atribui a Lula

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Luiz Vassallo

27 de abril de 2017 | 05h00

Sítio de Atibaia. Foto: Marcio Fernandes/Estadão

A crise hídrica que atormentou São Paulo em 2014 atingiu um lago do sítio Santa Bárbara, em Atibaia (SP), propriedade que a Operação Lava Jato atribui ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A informação foi dada pelo executivo Paulo Gordilho, da OAS, interrogado pelo juiz Sérgio Moro na Operação Lava Jato nesta quarta-feira, 26.

Durante a crise hídrica, entre 2013 e 2014, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) recorreu ao volume morto do Sistema Cantareira para ofertar água à população da Região Metropolitana. O Cantareira é considerado o manancial mais importante de São Paulo.

Gordilho afirmou que fez uma visita ao sítio de Atibaia ‘na época da Cantareira, que estavam pegando o volume morto’. O executivo relatou que estava acompanhado do então presidente da OAS José Adelmário Pinheiro, o Léo Pinheiro.

“O lençol freático do sítio dele lá baixou. E, com isso, ele tem um lago na parte de cima e um lago na parte de baixo. O lago de cima estava esvaziando todo. O Léo me levou lá para dar uma solução técnica. Não se conseguiu resolver esse problema 100%, resolveu 80%. Foi feito um tapa buraco, esvaziou o lago”, relatou.

Gordilho declarou que ‘o lago estava em cima de uma camada de lama e uma camada de manta butílica e a água estava passando por debaixo da alvenaria de pedra e saindo pelo vertedouro e saindo pro lago debaixo’.

“As soluções técnicas para isso eram soluções de obra pesada. Você tinha várias soluções, você tinha solução de derrubar e fazer outra. Você tinha a solução de esvaziar o lago todo, tirar a lama e meter uma manta butílica no lago todo e você tinha soluções de levar bate estaca grandes para fazer uma cortina de concreto para evitar que… e ir com essa fundação até um terreno sólido, senão até a rocha, para poder evitar que a água passasse do lago de cima para o lago de baixo. Foram soluções que não foram feitas, porque estragava muito o sítio, as ruas, toda a região lá, porque são equipamentos pesados”, relatou.

Paulo Gordilho foi interrogado em ação penal na qual é réu também o ex-presidente Lula. O petista é acusado de receber R$ 3,7 milhões em benefício próprio – de um valor de R$ 87 milhões de corrupção – da empreiteira OAS, entre 2006 e 2012. As acusações contra Lula são relativas ao suposto recebimento de vantagens ilícitas da empreiteira OAS por meio do triplex no Guarujá, no Solaris, e ao armazenamento de bens do acervo presidencial, de 2011 a 2016.

O sítio de Atibaia não é alvo desta ação penal. Em outro inquérito, a Polícia Federal investiga se o ex-presidente é o verdadeiro dono da propriedade rural – o que é negado enfaticamente por seu advogado, o criminalista Cristiano Zanin Martins.

COM A PALAVRA, CRISTIANO ZANIN MARTINS, DEFENSOR DE LULA

“A narrativa de Paulo Gordilho, ex-diretor técnico da OAS Empreendimentos, de que soube em 2011 que a unidade 164-A do Condomínio Solaris, no Guarujá, havia sido reservada para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou isolada e sem nenhuma evidência após ele reconhecer, em respostas a perguntas da defesa, que não tinha qualquer conhecimento ou atuação na área de vendas da empresa.

A declaração também destoa não apenas das 73 testemunhas que o antecederam nos depoimentos sobre o caso triplex – entre eles funcionários da companhia-, mas também do que afirmou Fábio Yonamine, ex-presidente da mesma OAS Empreendimentos. Gordilho e Yonamini foram ouvidos hoje em Curitiba e também são réus na ação penal.

Subordinado a Léo Pinheiro, Yonamine foi categórico ao dizer que a área financeira da OAS Empreendimentos não tinha conhecimento de reserva de qualquer unidade para o ex-presidente – que nunca nenhum pedido lhe foi feito por Pinheiro nesse sentido – e que a unidade 164-A sempre integrou o estoque da empresa, ou seja, era e continua sendo um ativo da OAS.

A mesma informação havia sido prestada em depoimento por Igor Pontes e Mariuza Marques, ambos também da OAS Empreendimentos. Pontes foi ouvido no processo como testemunha, com obrigação de dizer a verdade, e reforçou, em seu depoimento, que a reforma era ‘para melhorar a unidade, já que era muito simples, com o intuito de facilitar o interesse de Lula pelo apartamento’.

O pedido de reforma do triplex foi feito a Yonamine por Pinheiro, que pediu igualmente que ele organizasse uma visita à unidade para Lula e d.Marisa Letícia, o que ocorreu em fevereiro de 2014.

Afirmou que essa visita foi uma apresentação do apartamento e das áreas comuns do prédio e que o ex-presidente e sua esposa não pediram nenhuma alteração no imóvel, mas fizeram apenas observações em relação ao local. Yonamine disse que a reforma feita pela OAS no imóvel de propriedade da empresa foi realizada com recursos próprios e lícitos, sem qualquer relação com a Petrobrás.

Quanto às melhorias feitas no sítio de Atibaia, de propriedade de Fernando Bittar, registra-se que o próprio Gordilho reconheceu ter estado com ele na propriedade e que era Bittar quem sempre tratou com a OAS sobre o imóvel.”

Cristiano Zanin Martins

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