Voltaremos a 1989, Riba?

Voltaremos a 1989, Riba?

Sílvio Ribas*

24 de novembro de 2021 | 05h00

Sílvio Ribas. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Que falta o Riba e as suas análises estão fazendo! Se ainda estivesse entre nós, o saudoso Ribamar Oliveira, repórter do Valor Econômico e o maior entendedor das contas públicas que a imprensa deste Brasil maluco já teve, estaria traçando cenário para lá de enroscado para 2022 e depois.

Riba, que nos foi tirado pela pandemia em junho último, ajudaria a revelar a todos com detalhes ainda mais precisos a marcha da insensatez já iniciada pelos Poderes Executivo e Legislativo com a PEC 23/2021, mais conhecida como PEC (do calote) dos Precatórios. Receio, contudo, que sua lucidez não seria suficiente para conter a evolução da economia do país rumo ao caos.

O texto da PEC aprovado pela Câmara, que abre espaço de mais de R$ 100 bilhões não só para o Auxílio Brasil mas também para o orçamento secreto, vai ser votado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado como uma bomba fiscal inexplicável. Se prosperar, o mercado entra em pânico, a inflação engorda e o cenário político estressa. Voltaremos a 1989, Riba?

Com as contas do governo em pandarecos, lembro como se fosse hoje da animação do grande jornalista com a iminente votação da Reforma Previdenciária ainda do governo Michel Temer, que acabou frustrada pelas turbulências políticas. Ele me dizia que os juros despencariam e outras investidas do ministro Henrique Meirelles trariam novo tempo para as finanças públicas.

Contrariando a máxima do Tiririca, a coisa na política ficou pior e tende agora a piorar ainda mais. A crise sanitária e a inevitável freada da economia levaram o governo a pedir decretação de calamidade pública no início de 2020, com a suspensão da obrigação de cumprimento da meta de resultado primário. A pandemia se aproxima do fim, mas aí vem a praga do populismo.

A responsabilidade fiscal enterrada é a morte da democracia. Resta então aos analistas imaginar qual será o encaminhamento corretivo que o eleito para a Presidência em 2022 dará para 2023.

Teremos um novo FHC com um inédito plano de estabilização? Será que surgirá um Temer capaz de mobilizar o Centrão para sanar os desastres da gestão anterior? Ou ainda é provável Lula reviver Lula de 2003, com duríssimo ajuste para dissipar desconfianças que ele próprio gerou? O amanhã dirá.

*Sílvio Ribas, jornalista, escritor, consultor em relações institucionais e assessor parlamentar no Senado Federal

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