Você tem razão! Mas reaja!

Você tem razão! Mas reaja!

José Renato Nalini*

28 de abril de 2022 | 15h10

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

É compreensível o desencanto da juventude com a política partidária praticada no Brasil. Aqueles que se propõem a representar o povo, único titular daquilo que um dia se chamou “soberania”, não são os protótipos do altruísmo desinteressado que só existe no discurso. Ao contrário, o que se vê é uma série escandalosa de práticas nefastas.

O partido político deveria ser a expressão de um ideal. Com princípios, metas e estratégias para bem servir aos objetivos da nação. Selecionar os melhores, pois o guia deve ser inexpugnável. Precisa ser paradigma ético.

É isso o que acontece nesta terra? Podem existir quarenta fórmulas distintas de concepção de governo? Os partidos brasileiros têm musculatura sólida no campo da moral e dos bons costumes? Ou servem apenas para sustentar aqueles que fizeram da política uma profissão?

Foi-se o tempo em que as Câmaras Municipais reuniam homens dispostos a ceder o seu tempo e, de forma espontânea e gratuita – muitas vezes até com gastos pessoais – para ajudar a administrar a cidade. Local onde tudo acontece.

Os partidos se tornaram fontes de receita, alimentados por milionários Fundos – Eleitoral e Partidário – que sustentam estruturas que só se preocupam com a retroalimentação do sistema.

Quando se pensa em “orçamento secreto”, em “falta de decoro”, em cooptação remunerada para fazer parte dos que se apoderam do Erário para atender à sua cupidez narcísica, é óbvio que o jovem – que ainda sonha, que é sensível para captar a falsidade e a hipocrisia – se desalente e abomine a participação nessa coisa que está longe de ser gratificante.

Todavia, é preciso que essa coragem se posicione. Ainda não se dispõe de outra fórmula viável de transformar a melancólica situação da República em algo digno de apreço. O voto do jovem a partir de dezesseis anos é o reconhecimento de que o adolescente merece respeito. Ele tem voz. Ele pode transformar o panorama tétrico em algo palatável.

A nossa concepção imperial de governo ainda incensa o Executivo, que é o poder concentrador das atribuições. Dispõe de recursos e da discricionariedade das nomeações. Daí a evidente hipertrofia dessa função à qual incumbiria apenas administrar, ou seja, cumprir a lei, enquanto não exista controvérsia.

Mas é no Parlamento que reside o foco da vulnerabilidade sistêmica. O Brasil adotou um constitucionalismo assimétrico. O orçamento é engessado e todo destinado ao atendimento de objetivos considerados essenciais. O que restaria para investimento – fundamental para o desenvolvimento gerador de empregos – é pouco e fatiado entre os áulicos do Parlamento.

Fala-se em “governo de coalizão”, mas – na verdade – tem-se um “governo de captação” do combalido Erário. Refém de quarenta partidos, que servem como vestimenta transitória dos sequiosos gastadores do dinheiro do povo, o Executivo se submete às barganhas. As mais constrangedoras.

Por isso é que o jovem precisa banir de todos os Parlamentos, nas três esferas da Federação, aqueles que se comportam de forma inteiramente antípoda ao que deveria ser. As eleições de outubro de 2022 poderiam servir para a renovação desses quadros comprometidos.

Existem pessoas honestas. Retas e bem-intencionadas. Estas é que devem merecer a atenção e o voto da mocidade. Aqueles que terão décadas para viver, não podem abdicar de seu poder de decidir. O Brasil está pagando um preço muito elevado pelas más escolhas. A sangria é fatal. A República sofre de contínua e crescente hemorragia ética.

Mais importante até do que eleger as chefias dos Executivos, é prover esta Pátria maltratada de parlamentares dignos, não aqueles que depois nos deixarão frustrados, com todos os motivos “para lamentar”…

Só a renovação do Legislativo poderá reabrir as portas hoje aparentemente fechadas da esperança, com vistas à adoção da seriedade na gestão da coisa pública.

Desde logo, um compromisso que é praticamente inexistente entre nós: acompanhar o eleito, cobrar dele, fiscalizá-lo, chamá-lo à ordem, recriminá-lo, quando for o caso. Não se esquecer que o representante é mero mandatário, instrumento do verdadeiro poder, que está no representado. E caminhar, o quão possível, para uma Democracia verdadeiramente participativa. Pois a sua versão representativa já foi corroída e cupinizada.

Jovem brasileiro: você tem razão ao nutrir ojeriza pela política partidária. Mas reaja: a sua omissão tem o efeito bumerangue. Você é que continuará a ser a vítima indefesa dos abutres que não têm compromisso com a ética e com o verdadeiro amor à Pátria.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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