‘Você pega a diferença, quita lá e me dá esse dinheiro em espécie’

‘Você pega a diferença, quita lá e me dá esse dinheiro em espécie’

Em depoimento, jogador Márcio Nobre, com passagem pelo futebol turco, conta que reclamou com corretor sobre pagamento em dinheiro vivo por salas comerciais em Curitiba, de empresa ligada a Beto Richa (PSDB), segundo a Operação Integração II, desdobramento da Lava Jato que põe ex-governador do Paraná no banco dos réus pela segunda vez

Julia Affonso

11 de fevereiro de 2019 | 14h03

Um depoimento do jogador Márcio Nobre, com passagem pelo futebol turco, como testemunha, é uma das bases de investigação da Operação Lava Jato contra o ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB). O Ministério Público Federal mira o tucano em três transações imobiliárias que envolveram ‘vultosos pagamentos com dinheiro em espécie’. Os negócios, segundo os investigadores, teriam sido operacionalizados pelo contador Dirceu Pupo Ferreira, homem de confiança da família, e ‘configurariam lavagem da propina recebida por Beto Richa das empresas concessionárias de pedágio’.

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Uma transação resultou em denúncia contra Richa, Pupo e André Richa, filho do tucano. Em janeiro, a Lava Jato, acusou os três por lavagem de dinheiro relacionado à compra de um terreno num condomínio de luxo no bairro Santa Felicidade, em Curitiba, no final de 2012.

A investigação que ouviu Márcio Nobre envolve salas comerciais no Edifício Neo Business, em Curitiba. Os imóveis foram adquiridos por R$ 1.858.403,69, de acordo com os procuradores, pela empresa Ocaporã Administradora de Bens, representada por André Richa e Pupo.

A Lava Jato afirma que a Ocaporã estava formalmente em nome de Fernanda Richa – mulher do ex-governador – e de seus filhos, mas Beto Richa tinha o poder final de decisão. O Ministério Público Federal destaca que e-mails apreendidos durante a investigação indicam que o ex-governador tinha a palavra final sobre as atividades da Ocaporã relacionadas à compra e venda de imóveis.

Ao pedir a prisão de Beto Richa no âmbito da Operação Integração II, o Ministério Público Federal relatou. “Os referidos imóveis haviam sido vendidos a Marcio Ferreira Nobre, que acabou fazendo a cessão de seus direitos referentes ao contrato de promessa de compra e venda dos supracitados imóveis para a empresa Ocaporã. Alexandre Ricardo, procurador na época de Marcio Ferreira Nobre, declarou que negociou os referidos imóveis com a Ocaporã em troca de um apartamento no Condomínio Porto dos Sonhos, em Balneário Camboriú e de R$ 600 mil em dinheiro vivo, pagos por Dirceu Pupo Ferreira residência de Marcio Ferreira Nobre e que, posteriormente, assinou o contrato de cessão de direitos com a Ocaporã, na ocasião representada por André Richa.”

Um corretor de imóveis que ficou responsável pela intermediação do negócio confirmou que o dinheiro em espécie foi entregue na residência do jogador por Dirceu Pupo.

O corretor, no entanto, declarou que o valor entregue foi de R$ 1,4 milhão – e não de R$ 600 mil – e que ‘viu o dinheiro sendo contado e entregue’.

Nobre relatou a investigadores que estava na Turquia quando o valor em espécie foi entregue. O atacante declarou em 18 de setembro do ano passado que ‘a princípio não foi isso que tinha combinado’ com o corretor.

“Esse dinheiro em espécie foi…tipo no último minuto do jogo, assim melhor dizendo, usando uma frase da minha profissão. Aí ele chegou e falou assim ‘o dinheiro vai ser assim, vai ser entregue’ eu falei ‘po, mas como assim vai ser entregue? Não foi isso que nós combinamos’ entendeu? E daí eu falei ‘não dá pra fazer o negócio assim’ aí ele falou ‘não, tudo bem, eu pego a minha comissão, no caso a comissão eu pego desse dinheiro…eu pego desse dinheiro a comissão, e eu fretarei o restante’, ‘não, o restante você tem que pagar o AR, não, minto, o AR não, o Neo” – essa é outra sala que eu tenho – ‘você tem que, não, eu tenho uma dívida com ele aí, que eu tenho que quitar o balão’, porque ia ficar pronto e eu tinha que quitar, só que como eu tava com dificuldade na minha transportadora, e eu precisava quitá-la, então eu não tinha dinheiro, por isso que eu pus à venda”, narrou o atacante. “Eu falei ‘então você pega a diferença, quita lá e me dá esse dinheiro em espécie, da minha comissão’, aí por isso que eu fiz o negócio, porque eu ia cancelar aos 90 do…”

Nobre foi questionado sobre o que tinha sido combinado e ‘mudou de última hora’. O atacante respondeu que ‘a forma de pagamento’, pois havia sido combinada uma transferência.

“A forma de pagamento, a forma de pagamento…esse dinheiro em espécie”, disse o jogador. “Até então eu não tinha falado nada que ia ser em espécie…que ia ser em transferência. E até então também eu não sabia quem que ia ser o dono…quem que tava comprando.”

O atacante declarou. “Nunca vi o comprador, nunca soube do comprador, até o último minuto, ele falou “tá, o contrato tá aqui…a mais é pra fulano”…sei de nome quem é, mas nunca o vi, nunca conversei, nunca sentei, nunca…somente de nome”, afirmou. “Eu só sei que era o filho do Beto Richa, não sei o nome dele. É o filho do Beto Richa.”

O jogador contou ainda que, como não estava no Brasil, não sabe ‘ao certo quem foi assinar’. “Eu só sei que foi uma pessoa levar o dinheiro, que é Dirceu Pupo”, afirmou.

De acordo com Márcio Nobre, parte do dinheiro que recebeu da venda das salas comerciais pagou dívidas que ele tinha com uma empresa de transportes em Mato Grosso do Sul.

Beto Richa foi preso no dia 25 de janeiro, pela segunda vez. No entanto, foi solto na quinta-feira, 31, por decisão do ministro do STJJoão Otávio de Noronha. A força-tarefa da Lava Jato chegou a apontar ‘sérias dúvidas’ sobre a parcialidade do magistrado.

A reportagem está tentando contato com todos os citados. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, DIRCEU PUPO FERREIRA

A defesa do contador Dirceu Pupo Ferreira não se manifestou. Em setembro do ano passado, Dirceu Pupo Ferreira foi ouvido pelo Ministério Público Federal em Curitiba. O contador declarou que um imóvel em Balneário Camboriú ‘foi dado em permuta com salas comerciais em Curitiba com Márcio Nobre’.

“Nesta parte, por orientação do seu advogado, o depoente se reserva no direito do silêncio”, afirmou.

COM A PALAVRA, ANDRÉ RICHA

Em depoimento, o empresário e estudante André Richa tratou das salas comerciais à investigação. Leia as perguntas da investigação e as respostas do filho do ex-governador do Paraná.

“Promotor: E de quais outros o senhor participou que o senhor se recorda?
Investigado: Eu me recordo de ter gostado do Neo Business, do prédio.
Promotor: Gostado?
Investigado: É.
Promotor (Dr. Fernando): Por quê?
Investigado: Porque nós alugávamos na época, não lembro de quem, um prédio mais antigo, e eu
achava interessante que tivéssemos um lugar nosso, e o Neo Business era um prédio muito
bonito, propaganda… Daí eu sugeri ao Dirceu que comprasse um imóvel ali.
Promotor (Dr. Denilson): E como é que foi isso?
Investigado: Ele achou, negociou e comprou.
Promotor: Quem era o proprietário?
Investigado: Não sei dizer quem era.
Promotor (Dr. Fernando): E os valores da negociação ele reportava a quem?
Investigado: Não foi a mim.
Promotor (Dr. Denilson): Quanto que foi?
Investigado: Não vou me lembrar agora, acho.
Promotor: Era uma compra corriqueira, assim?
Investigado: O que é corriqueira?
Promotor: Não, eu digo assim, a gente esquece de coisas insignificantes, corriqueiras, tipo um
compromisso na semana passada. Agora comprar um apartamento de 3 milhões e não lembrar do
preço…
Investigado: É que não era a minha função, né.
Promotor (Dr. Fernando): Mas você escolheu o apartamento.
Investigado: Escolhi, mas nunca me liguei nos detalhes…
Promotor (Dr. Denilson): Você escolheu o prédio, né. Quantas salas foram compradas?
Investigado: Eu sei que é um meio andar. Não sei quantas salas são nisso.
Promotor (Dr. Fernando): Quantas garagens?
Investigado: Também não sei te dizer.
Promotor (Dr. Denilson): Era pra ser a sede da Caporan e da BFMAR, é isso?
Investigado: Era pra ser o nosso escritório.
Promotor: E por que seis salas?
Investigado: Não sei. Foi o que foi decidido. Seria um preço bom, não sei…
Promotor: Preço bom? Quanto?
Investigado: Não sei, o que ele achou que valia a pena. Falei “gostei do prédio, veja se nos cabe,
se seria viável, se nos interessa”.
Promotor: E a sede das empresas é lá? Ocupa seis salas?
Investigado: É. Acredito que ocupe 2 salas. As demais acho que foram alugadas. Não sei, não
participei também. Não tenho conhecimento de quem esteja alugando.
Promotor: O senhor frequenta a empresa?
Investigado: Quase que nada.
Promotor: Nem sabe assim o que tá funcionando na sala do lado, se é um dentista, se é…?
Investigado: Não. Nunca soube.
Promotor: O senhor falou “gostei do prédio, procura lá” e ele falou “achei”. Quem era o
proprietário lá?
Investigado: Não sei. Eu não me interessava por essas coisas, só queria saber se tinha dado certo
ou não.
Promotor (Dr. Fernando): Por que você ficou encarregado de escolher o prédio se o senhor não
frequenta? Por qual motivo coube a você essa escolha?
Investigado: Eu sempre gostei, eu até curso arquitetura, né. Então eu gosto de móveis, gosto de…
Promotor (Dr. Fernando): Na época você já fazia arquitetura?
Investigado: Na época… Que ano que era? 2013? Comecei arquitetura em 2015 nos Estados
Unidos.
Promotor (Dr. Denilson): Essa aquisição foi em que período de 2013?
Investigado: Não me recordo se foi em 2013. Foi em 2013? Na minha lembrança foi antes de eu ir
pros Estados Unidos, que foi em 2015. Fui em agosto. Não lembro se fiquei meses ou um ano, um
ano e meio. É um chute.
Promotor: Aí o senhor interessou, “Dirceu vai lá e compra que eu gostei”.
Investigado: Não, “Dirceu vai lá e avalie se é cabível, é uma ideia”, pelo jeito deu certo.
Promotor (Dr. Fernando): Quem deu a palavra final?
Investigado: Também não saberia te dizer.
Promotor (Dr. Denilson): Não foi o senhor?
Investigado: Não.
Promotor (Dr. Fernando): O Dirceu tinha autonomia para dar a palavra final da compra de uma
sala que valia mais de 2 milhões pelo menos?
Investigado: O Dirceu era nosso homem de confiança. Ele tinha carta branca pra comprar e
vender imóveis do nosso interesse.
Promotor (Dr. Denilson): Quem deu a carta branca pra ele?
Investigado: Não saberia te dizer.
Promotor: Foi o senhor?
Investigado: Não. Eu não tenho condição pra dar…”

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