“Você não vai sacanear meus amigos”, ameaçou advogado, segundo delator

“Você não vai sacanear meus amigos”, ameaçou advogado, segundo delator

Francisco de Assis e Silva, executivo do Grupo, contou à Procuradoria que Willer Tomaz o avisou em telefonema que procurador da República Ângelo Goulart vazou detalhes da Operação Patmos

Luiz Vassallo

22 de maio de 2017 | 05h15

JBS. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

O procurador da República Ângelo Goulart Villela – preso na Operação Patmos quinta-feira, 18 – vazou as tratativas da JBS com o Ministério Público Federal ao advogado Willer Tomaz,supostamente ligado aos senadores Renan Calheiros (PMDB/AL) e Romero Jucá (PMDB/RR). A revelação foi feita em delação premiada pelo diretor do Grupo Francisco de Assis e Silva.

Ângelo Goulart atuava pelo Ministério Público Federal no âmbito de várias operações contra o crime organizado e corrupção, como a Greenfield – investigação sobre rombo bilionário nos maiores fundos de pensão do País.

O procurador também integrava a equipe do vice-procurador geral Eleitoral, Nicolau Dino, e recentemente estava cedido à força-tarefa de outras duas investigações, Cui Bono e Sépsis, sobre crimes supostamente relacionados à JBS.

Ele teve a prisão decretada pelo ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, por suspeita de recebimento de mesada de R$ 50 mil para repassar informações sigilosas à JBS.

O executivo Assis e Silva afirmou ao Ministério Público Federal que foi obrigado a ‘tirar o paletó’ em um jantar com o advogado e o procurador – ambos suspeitavam que Assis estava colaborando com as autoridades e, eventualmente, gravando a reunião.

O delator afirma ter ouvido ‘frases ameaçadoras’ de Willer depois que o advogado soube da investigação em curso na Procuradoria-Geral da República.

O executivo da JBS relatou ter recebido uma ligação de Willer em que o advogado sugeriu já saber que a empresa estava firmando delação premiada. “Vocês estão fazendo delação premiada! Vocês não vão sacanear meus amigos. Foi o Ângelo que me contou.”

De acordo com o delator, ele teria sido questionado por Willer se o informaria caso Joesley Batista, um dos donos da JBS, fechasse acordo de colaboração. “Eu respondi: jamais. Olha, o Joesley está em Nova York, e ele pode estar fazendo delação lá, então toca sua vida e o processo.”

Poucos dias antes da conversa por telefone entre o advogado e o delator, a JBS havia avançado nas tratativas de delação premiada com o procurador da República Anselmo Lopes, disse o executivo.

De acordo com as delações da JBS, o grupo contratou o advogado pelo fato de ele ter bom trânsito com integrantes do Judiciário em Brasília e, especialmente, por sua relação com o procurador Ângelo Goulart.

Willer Tomaz é investigado por receber de Joesley R$ 8 milhões com a missão de conseguir o arquivamento do inquérito contra o empresário na Greenfield.

Segundo a delação de Assis e Silva, metade desse valor seria bancada em honorários que os próprios executivos assumiram ser ‘acima da média’para a prestação de serviços advocatícios e outros R$ 4 milhões seriam pagos como ‘taxa de sucesso’ – caso ele obtivesse êxito na ação.

De acordo com a delação premiada de executivos da JBS, o advogado ainda reclamou que rachava os valores com o procurador Angelo Goulart, com um amigo de Joesley Batista, André, e com o presidente da OAB do Distrito Federal, Juliano Costa Couto, suposto responsável por sua indicação ao trabalho.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO JULIANO COSTA COUTO

Ao site da Ordem dos Advogados do Brasil do Distrito Federal, o presidente da entidade, Juliano Costa Couto, afirmou ter feito somente a indicação do advogado para atuar no processo em razão de seu renome no âmbito do Distrito Federal. Ele nega ter participado de qualquer contratação e afirma não ter procuração nos autos, além de não ter atuado no processo. “Fato que será comprovado através da certidão já solicitada em petição protocolada junto ao Ministério Público Federal. A citação no despacho do ministro Fachin é no que diz respeito a indicação do advogado. Não fui objeto de qualquer medida judicial ou pedido do Ministério Público nesse sentido”, afirmou o presidente da OAB-DF.

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