Você não é livre, e eu posso provar

Você não é livre, e eu posso provar

Flávia Sato*

23 de junho de 2022 | 05h00

Flávia Sato. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Um dos mitos mais persistentes em nosso imaginário é o do livre-arbítrio. De fato, vale esclarecer que não se trata de questionar o arbítrio em si – é claro que há escolhas e decisões. A dúvida é: há liberdade? Embora existam estudos, especialmente no campo das neurociências, que questionam sistematicamente a existência desse espaço de “liberdade” que precede qualquer ação, inclusive demonstrando o quanto o meio influencia nossas decisões de forma inconsciente¹, pesquisadores e teóricos seguem esbarrando em questões polêmicas como, por exemplo, o que define a própria consciência. Mas deixemos as polêmicas filosóficas de lado por um instante para abordar uma premissa muito melhor fundamentada: a atenção.

O QUE É ATENÇÃO?

Um dos maiores estudiosos sobre o tema é o psicólogo Michael Posner (segundo o site Google Scholar, Posner é citado em cerca de 170 mil artigos abertos). De acordo com ele, a atenção é composta por três sistemas, denominados Alerta, Orientação e Controle Executivo². O sistema de alerta se concentra no tronco cerebral junto ao hemisfério direito e é relacionado à vigilância e à prontidão para receber informações. O sistema de orientação está atrelado ao córtex parietal e é responsável pela capacidade de priorização de um estímulo sobre outros, ou a capacidade de foco. Por último, o sistema de controle executivo se concentra no córtex cingulado frontal/anterior da linha média e é responsável por manter a estabilidade da atenção em função de um objetivo.

Salvo situações em que haja deficiência anatômica do cérebro quanto às áreas associadas à atenção, todas as pessoas possuem esses mecanismos sendo ativados a cada instante. Se você está dirigindo na estrada e de repente, os carros na sua frente param, você imediatamente freia e liga o pisca-alerta: seu sistema de alerta está ativo, pronto para receber informações relevantes. Se você está focado em ler um livro, seu sistema de orientação está ativo (o que explica, talvez, não ouvir alguém te chamando em outro cômodo da casa, por exemplo). Ao mesmo tempo, o controle executivo está atualizando a cada instante o seu objetivo: se quiser terminar esse livro, precisa seguir optando por continuar a ler, e não, por exemplo, levantar 5 vezes por minuto para abrir a geladeira, ir ao banheiro ou parar para dar uma olhadinha no feed do Instagram ou do LinkedIn.

Isso também implica que, se você está trabalhando com 32 abas abertas no seu navegador e está alterando sua orientação a cada segundo sob o pretexto de conseguir fazer muitas coisas ao mesmo tempo (o famoso e falso multitasking), o que você está fazendo, na verdade, é perdendo tempo e energia: seu cérebro está exausto com atividades infinitas no seu controle executivo e, a cada distração, ele vai levar mais de 20 minutos³ para voltar para o estado de orientação anterior.

NÃO FALTA ATENÇÃO, FALTA AUTORREGULAÇÃO

Supondo que você seja saudável e esteja com todas as suas funções cerebrais em dia, não lhe falta atenção. Mas, posso apostar, falta autorregulação. Vejamos alguns exemplos que ilustram essa a deficiência de autorregulação no dia a dia:

1. Você quer ler um livro ou ver uma palestra e não consegue focar.
2. Você quer aprender, mas quando consegue ler um livro ou ver uma palestra, não retém qualquer informação.
3. Você quer adotar hábitos saudáveis, mas não consegue.
4. Você quer abandonar hábitos ruins, mas não consegue.
5. Você quer ser agente de mudança no mundo, mas não consegue arrumar a própria vida.
6. Você quer se conectar com as pessoas, mas presta mais atenção nos seus pensamentos do que no que elas falam durante uma suposta conversa.
7. Você quer ser produtivo, mas pega o celular 80 vezes durante o dia⁴, na maioria das vezes para fazer nada de útil.
8. Você quer ser equilibrado, mas age compulsivamente (comida, compras, pornografia, jogos, exercícios físicos, etc).
9. Você quer estar presente, mas revive acontecimentos passados consistentemente na sua mente.
10. Você quer se sentir alegre, mas não sente vontade de fazer coisas que sabe que são prazerosas.

Três coisas importantes para notar sobre essas frases. Primeiro, todas elas ilustram comportamentos totalmente dependentes do próprio indivíduo. Segundo, todas começam com “você quer”, ou seja, ilustram vontades. Ora, se são comportamentos que partem de um desejo real e que só dependem do próprio indivíduo, por que não se concretizam? É porque, terceiro, todas elas estão atreladas ao domínio da atenção. A causa-raiz da falta de competência em se autorregular e concretizar comportamentos desejáveis e totalmente dependentes de você mesmo é não saber fazer a atenção operar em função da sua vontade. Se a sua atenção não está sob o seu domínio, você definitivamente não é livre e suas escolhas estão à mercê do ambiente (leia-se contexto e pessoas), das suas emoções (que estão fora do seu controle) e, simplesmente, da aleatoriedade.

Agora, se você releu as frases e está pensando “nada disso tem a ver com atenção”, olhe de novo. A atenção, que é a base da competência de autorregulação, é responsável pela capacidade de autoindução motivacional, redução do impacto de emoções como ansiedade e medo, menor reatividade fisiológica ao estresse, maior velocidade para retornar ao estado basal pós-estresse e maior capacidade de foco e aprendizado. Bingo: se você treinar a sua atenção, certamente tem mais chances de conseguir agir de acordo com as suas vontades mais racionais e colocar os comportamentos que você deseja em prática. Em outras palavras, você tem mais chances de ser a pessoa que gostaria de ser.

COMO FORTALECER O DOMÍNIO DA ATENÇÃO

Se alguém te perguntar “como posso fortalecer meu bíceps”, o que você responde? Pois é, com atenção não é diferente, ainda que a analogia não seja perfeita. A resposta é algo que você e ninguém quer ouvir: treino. Sim, treinar a atenção demanda esforço consciente e consistente, e não é algo que vai acontecer da noite para o dia.

Você já deve ter ouvido falar sobre práticas de mindfulness. Se não, procure pelo termo no Google e se atualize – definitivamente essa vai ser uma tendência crescente nos próximos anos. Mindfulness, grosseiramente falando, é um treino de atenção que você pode fazer no conforto do seu lar em qualquer momento. E se você já ouviu falar sobre isso, mas acha que é coisa de “abraçador de árvore”, saiba que essa prática possui evidências científicas⁵ de alterações cerebrais até mesmo em um nível estrutural, por exemplo, no hipocampo (associado à memória) e córtex pré-frontal ventromedial e dorsolateral (ambos associados à regulação emocional). Também há evidências sobre o efeito da prática na liberação de cortisol e adrenalina, o que acarreta sistemicamente em outras funções fisiológicas, como pressão arterial e atividade no sistema nervoso simpático.

Filosofar sobre se temos ou não livre-arbítrio impacta muito pouco ou nada no seu dia a dia, mas é inquestionável (e espero que você esteja convencido disso) de que a capacidade de autorregulação de sua própria atenção não é algo que pode fazer alguma diferença, mas, de fato, é algo que pode transformar totalmente a sua experiência de vida. Se temos alguma chance de sermos algo perto de livres, fortalecer o domínio da nossa atenção é, sem sombra de dúvidas, nossa melhor aposta.

*Flávia Sato é graduada em Comunicação Social pela UNESP, pós-graduada em Mindful Leadership pela NYU e pós-graduada em Gestão Emocional nas Organizações pelo Hospital Israelita Albert Einstein. É professora certificada do programa internacional Cultivating Emotional Balance, Ashtanga Yoga e Mindfulness, sócia e Diretora de P&D da Academia Soul e associada do IFL-SP

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