Você já doou hoje?

Você já doou hoje?

A cultura de doação precisa ser ampliada no Brasil

Cynthia Betti*

13 de setembro de 2020 | 11h00

Cynthia Betti. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nos últimos meses, com a pandemia de Covid-19, as doações no Brasil bateram o recorde e ultrapassaram os R$ 6 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR). É um volume expressivo e houve contribuições de empresas e de pessoas de todos os perfis socioeconômicos. Mesmo entre doadores e doadoras majoritariamente pertencentes à classe média, como é o caso daqueles que apadrinham e amadrinham crianças pela Plan International Brasil, houve uma resposta muito positiva quando a organização fez um convite para que dobrassem sua contribuição por alguns meses ao longo da quarentena, para apoiarem a ajuda humanitária que foi direcionada para mais de 10 mil famílias.

A emergência em saúde pública exacerbou as desigualdades do país e fez muitas pessoas enxergarem a parcela da população que vive em extrema pobreza. Os números positivos de doações durante a pandemia mostram que existe um grande potencial para doação no país.

Mas, na prática, a cultura de doação precisa ser mais desenvolvida. O Brasil ocupa a 74ª posição no ranking mundial de doações, segundo o relatório World Giving Index 2019, elaborado pela organização britânica Charities Aid Foundation. Apenas 0,2% do PIB brasileiro é gasto em filantropia, segundo o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis). Não há dúvida de que o povo brasileiro é generoso e está disposto a ajudar quem precisa. Mas por que isso não se reflete em mais doações?

Alguém poderia supor que o brasileiro não doa mais por falta de condições financeiras. Mas o exemplo de Mianmar, um dos países mais pobres do sudeste asiático, prova que o desenvolvimento de uma cultura de doação não depende de riqueza. Mianmar foi classificado como o segundo país mais generoso do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo o mesmo relatório.

Parte dos brasileiros talvez justifique o baixo índice de doações pela falta de confiança nas organizações não governamentais. Assim como em qualquer outro segmento da sociedade, o terceiro setor não está livre de organizações mal-intencionadas, mas estamos falando da minoria delas. A boa notícia é que existem cada vez mais ferramentas que permitem que o cidadão reconheça as ONGs idôneas. É possível checar, por exemplo, se a organização tem selos ou certificados de transparência e boa gestão, além de ser possível consultar os relatórios publicados nos sites ou conversar com pessoas que são diretamente impactadas pelo trabalho delas.

Nos últimos anos, a percepção dos brasileiros sobre as organizações sociais melhorou. A parcela da população que acredita que o trabalho dessas organizações teve impacto em suas comunidades subiu de 72% para 79%, segundo o Brasil Giving Report 2020, divulgado pelo Idis. A percepção positiva sobre o impacto das ONGs no país como um todo subiu de 73% para 83%.

Este é o momento de as ONGs, tanto brasileiras quanto internacionais, trabalharem juntas para incentivar o desenvolvimento de uma cultura de doação permanente no Brasil e ampliar o impacto do trabalho que fazem. São várias as iniciativas de colaboração para o fortalecimento da transformação social, tais como Joining Forces, Rede de Meninas e Igualdade de Gênero, Rede Nacional Primeira Infância, das quais a Plan International Brasil faz parte, são muito importantes para garantir esse trabalho em rede.

É importante observar que não há concorrência entre ONGs. Não há qualquer necessidade de disputar doadores ou doadoras em um país onde há ainda tanto potencial para captar mais pessoas para a causa pela qual elas mais se identificam, seja a luta pela igualdade de gênero, a defesa do direito dos idosos, o acesso à educação de qualidade, o combate à discriminação racial, entre tantos outros temas importantes para a nossa sociedade.

Os verdadeiros concorrentes das ONGs são questões como a violência, o feminicídio e o tráfico de drogas, entre outros. Esses problemas aparecem refletidos em rankings dos quais o Brasil não deve se orgulhar. O Brasil é, por exemplo, o 7º país mais desigual do mundo, o 5º país no ranking mundial de feminicídio, o 4º no ranking de casamento infantil, além de aparecer entre as 20 piores colocações no ranking das três áreas analisadas pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes.

As ONGs podem ajudar a reverter essa situação, mas para isso precisam da colaboração dos brasileiros e de todos os que moram e acreditam neste país. Ao doar, você contribui não apenas para que o Brasil suba no ranking mundial de doações, mas principalmente para que o Brasil mude sua posição nos rankings acima. E então, você já doou hoje?

*Cynthia Betti é diretora executiva da ONG Plan International Brasil

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