Você é ‘Maria vai com as outras’ em seu planejamento financeiro?

Você é ‘Maria vai com as outras’ em seu planejamento financeiro?

Daniela Ispirian Mir Gelamo*

20 de fevereiro de 2020 | 10h00

Daniela Ispirian Mir Gelamo. FOTO: DIVULGAÇÃO

Já ouviu falar do comportamento de manada? Talvez tenha ouvido de outras formas, tais como, psicologia das massas, conformidade social, efeito adesão, ou até mesmo pelo bom e velho “Maria vai com as outras”. Em 1982, Sylvia Orthof lançou o livro infantil chamado “Maria-vai-com-as-outras”: Se as outras ovelhas fossem ao polo sul, Maria ia, mesmo com frio. Se fossem para o deserto, Maria ia, mesmo sentindo calor. Se fossem comer jiló, Maria comia, mesmo sem gostar. Um dia, Maria passou a pensar por si e não seguiu mais as furadas das outras. Infelizmente, a mensagem que Sylvia Orthof quis ensinar em seu livro não foi completamente aprendida por nós, que desde a infância fazemos escolhas impulsionados pelas opções dos outros, ou seja, agindo conforme a maioria, independente da sua vontade individual.

Antes este viés estava associado a pessoas solitárias, sem opinião própria ou que não conseguiam tomar decisões individuais. Mas estudos revelam que este efeito de adesão está muito mais presente na sociedade, que anseia por um senso de comunidade, de pertencer a algo e não perder sozinho. Algumas vezes, perseguir o que a maioria faz é natural e pode até ser saudável, como quando, por exemplo, ao procurar por um hotel na internet você se identifica com aquele mais visitado, onde a maioria dos comentários refletem a experiência que você está buscando. Em contrapartida, este comportamento pode trazer impactos desfavoráveis para a saúde financeira.

Decisões irrefletidas, muitas vezes irracionais e até mesmo por impulso levam o ser humano a seguir o que seu grupo faz, sem validar se aquela escolha está realmente alinhada com seus desejos e projetos de vida.

Vale citar o exemplo na escolha de um hotel, no qual não basta escolher o que a maioria escolheu, é preciso confirmar se ele realmente atenderá sua necessidade e, tão importante quanto, saber se o custo está dentro das suas possibilidades e planejamento.

O efeito manada é muito falado no mundo dos investimentos, quando a decisão de compra e venda de ativos financeiros é feita com base no senso comum. Mas mesmo longe dos investimentos, o comportamento de manada pode impactar financeiramente nossos planos de vida. Um exemplo de grande impacto deste efeito pode ser observado na decisão de compra da casa própria. Sem perceber, algumas pessoas decidem comprar um imóvel, sem refletir profundamente sobre esta aquisição, acreditando que a fazem para se sentir segura, não gastar com aluguéis, ter um teto na aposentadoria, dentre muitas outras desculpas prontas, criadas pelo efeito de adesão.

Existem ainda os valores e crenças que rotulam a família bem sucedida como aquela que tem moradia própria. “Todos têm e só você não tem?”. É quando então compra-se um imóvel só para realizar o “sonho de ter a casa própria”. Mas quem disse que este sonho é de todos? Se você busca morar sempre próximo do trabalho, ou quem sabe mudar de país, ou ainda ter uma família grande, por que comprar um imóvel agora se provavelmente precisará “desfazê-lo” em breve, impactando profundamente seus planos de reserva financeira para realizar projetos e sonhos que são genuinamente seus.

O desejo de pertencer ao um grupo, seja na escola, trabalho, família, amigos, dentre tantos outros, pode fazer com que tenha um custo de vida acima de sua receita, impedindo-o de planejar e realizar projetos de desejo legítimos. Vale frisar que não é preciso radicalizar e excluir toda e qualquer decisão que demonstre o efeito manada latente. O importante é identificar as oportunidades, fazer contas e ter consciência do impacto financeiro envolvido na escolha que lhe fará sentir-se parte do todo.

O efeito manada cria um atalho mental para desviar responsabilidades, evitar perda de energia analisando e buscar resultados rápidos, que nem sempre são os resultados esperados. Sem fazer julgamentos, o cérebro entra no piloto automático. Assim, é essencial que cada um tome uma posição perante o medo de ficar para trás ou ser excluído de um grupo. Encorajar-se para refletir e descobrir os interesses individuais antes de tomar uma decisão. E principalmente, colocar na ponta do lápis os custos e impacto financeiro de decisões relevantes.

Vale algumas dicas

  • Não deixe que os outros pensem por você;
  • Identifique suas prioridades e mantenha o foco nelas;
  • Escolha bem a manada que deseja seguir;
  • Seja paciente e disciplinado;
  • Evite agir emocional ou impulsivamente;
  • Resista aos apelos de publicidade;
  • Pratique a análise crítica: aquele produto/serviço realmente está alinhado às minhas necessidades, valores ou projetos?;

O ideal é assumir as rédeas de suas escolhas e não ser uma “Maria vai com as outras”.

*Daniela Ispirian Mir Gelamo é planejadora financeira da GFAI

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