Você duvida?

Você duvida?

José Renato Nalini*

06 de agosto de 2020 | 06h30

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Em 22.10.1966, o filósofo Vilém Flusser publicou um artigo no Estadão cujo título era ?. Não é engano, não. O nome do artigo era um ponto de interrogação. É o símbolo da dúvida. E aquilo que motivou o autor há mais de meio século, continua a angustiar a lucidez restante.

Uma das características de considerável parcela das novas gerações é a absoluta certeza que elas demonstram a respeito de quase tudo. Quantas vezes, ao indagar algo aos jovens, a primeira e impulsiva resposta é “Com certeza!”. Entretanto, prevalece a dúvida. Quais as certezas de que podemos nos gabar?

Nos anos 50, Vilém Flusser já havia escrito o seu livro “A dúvida” e esse estado de espírito, para ele, era polivalente: “Pode significar o fim de uma fé, ou pode significar o começo de uma outra. Pode ainda, se levada ao extremo, instituir-se como ‘ceticismo’, isto é, como uma espécie de fé invertida. Em dose moderada estimula o pensamento, mas em dose excessiva paralisa toda atividade mental. A dúvida como exercício intelectual proporciona um dos poucos prazeres puros, mas como experiência moral ela é uma tortura. A dúvida, aliada à curiosidade, é o berço da pesquisa, portanto, de todo conhecimento sistemático – mas em estado destilado mata toda curiosidade e é o fim de todo conhecimento”.

Sempre acreditei que a dúvida metódica é um hiato no trajeto que culmina em obtenção de certeza. Hiato breve, apenas para propiciar reflexão. Quando a dúvida persiste, converte-se em sistemática. Esta neutraliza, paralisa, inibe e acaba no ceticismo e, finalmente, no niilismo.

Para Kant, na visão de Flusser, o ceticismo é um lugar de descanso para a razão, embora não seja uma moradia. Só que o mundo empurra os seres humanos para essa postura irreversivelmente cética. Não é possível acreditar-se naquilo que já foi sólido alicerce para firmes convicções.

Senão veja-se: o Estado, considerada a sociedade política suficientemente ampla para acolher todas as demais formas associativas particulares e também as miríades de vocações individuais, é uma experiência frustrante. O representante, em regra, esquece-se de que representa alguém e que tem de buscar o bem comum. Apodera-se do cargo, da função e procura seus interesses egoísticos.

A família sofreu tantas intempéries que é raro configurar o nicho de segurança afetiva suficiente para aliviar as agruras do convívio. A fragilidade dos laços familiares, a preponderância dos interesses pecuniários, o egoísmo a suplantar vínculos de sangue ou de parentesco civil dão mostra de uma outra instituição em perigo.

A escola não consegue formar gerações equilibradas, hábeis em aceitar contratempos, voltadas à edificação de uma sociedade harmônica. Menos ainda, chegar ao parâmetro de convívio justo, fraterno e solidário como o constituinte de 1988 prometeu no preâmbulo da Carta Cidadã.

O pacto fundante da República Federativa do Brasil se propôs a eliminar a miséria, reduzir as desigualdades, tutelar o meio ambiente, cujo equilíbrio é essencial para as futuras gerações. Alguém duvida de que tudo isso foi esquecido e que a vida é o reflexo de um campo de batalha, nem sempre incruento, em que se digladiam forças alimentadas pela mentira, pela dissimulação, pela farsa e pela crueldade?

Se já existiam certezas fragilizadas, elas se tornaram esvaziadas com o advento da peste. A pandemia desmentiu a sensação de segurança que os governos faziam questão de divulgar, como se estivessem a cumprir, a contento e com eficiência, as missões para as quais foram preordenados. As falhas e vulnerabilidades exibiram o cenário de abandono de políticas públicas de saúde, principalmente as encarregadas da prevenção. Como prevenir patologias se mais da metade da população não dispõe de água ou de esgotamento doméstico?

Existem, é verdade, resíduos de fé. Naqueles que encontram na crença o lenitivo que a vida real recusa. Mas há muitos seres humanos desprovidos dessa dádiva. Tantos os que não têm, para seu conforto espiritual, o arsenal contábil que acumula créditos para a vida verdadeira, que começa com a morte. Como devolver a essa legião uma esperança em dias melhores?

A dúvida a respeito de quase tudo é estímulo a que se agarre à tentativa de encontrar algumas certezas. Dentre elas, a de que o homem provido de razão tem de ser o condutor de seu próprio destino. Deletar os mentirosos, os hipócritas, os cegos que pretendem conduzir os caolhos e começar de novo uma coexistência baseada na verdade.

A pandemia tem o condão de evidenciar a insuficiência dos esquemas que até hoje nos mantiveram inermes e com os quais não se atingiu o estágio de cooperação que deve existir entre seres racionais.

Não se duvide de que, a despeito do período inglório, a vida pode ser bem melhor, se tivermos a coragem de expulsar os vendilhões do templo e restaurar as bases para relações respeitosas e verdadeiramente humanas. Você duvida de que isso seja possível?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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