Viver em plenitude

Viver em plenitude

José Renato Nalini*

24 de maio de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A leitura do livro “A coragem de ser imperfeito”, de Brené Brown, oferece conforto nesta fase tão sombria em que não existe vislumbre de cessação da pandemia. Um dos recados da autora é a definição dos 10 sinais de uma vida abundante. São sinais que indicam o que uma pessoa plena tem de cultivar para que sua existência realmente vale a pena.

Serve de indicadores para uma reflexão e estes são tempos que exigem meditação, mergulho na Esperança e uma boa dose de coragem. Vamos a eles: primeiro, cultive a autenticidade e liberte-se daquilo que os outros pensam. Quantas vezes não nos deixamos impressionar pela opinião alheia, nem sempre fiel e veraz. Qual o real significado do o que se passa em mentes que não são as nossas? O ser humano é muito singular na sua vocação de proferir julgamentos. Todos estão, a todo o tempo, emitindo opiniões sobre tudo e sobre todos. Quem se mantiver subordinado a julgamento alheio estará sempre sob tensão. Pois nem sempre, ou quase nunca, há coincidência entre o que pensamos de nós e o que, de nós, pensam os outros.

Um segundo indicador é o cultivo da autocompaixão e a libertação da pretensão ao perfeccionismo. As 4 esferas psíquicas de relacionamento começam exatamente com o adequado amor próprio. quem não consegue se auto respeitar e se auto amar, também não conseguirá amar o outro. Reconheçamo-nos seres falíveis, providos de algumas qualidades e de infinitos defeitos. Abandonemos a vã pretensão de agradar a todos. Escrivá já dizia: “Não sou moeda de ouro, que a todos apetece!”

O terceiro sinal é: cultive um espírito flexível; liberte-se da monotonia e da impotência. Flexibilidade é um atributo de quem consegue sobreviver, apesar das adversidades. Nossa vida pode não ser a mais emocionante. Porém ela não é tediosa e, dentro das nossas naturais limitações, todos temos condições de imprimir sentido e significado a esse percurso existencial.

Quarto indicador: cultive a gratidão e a alegria. Liberte-se do sentimento de escassez e do medo do desconhecido. Gratidão é uma virtude muito negligenciada. Contudo, temos inúmeras razões para sermos reconhecidos. Em primeiríssimo plano, pela dádiva gratuita da vida. Quantos não gostariam de estar agora respirando e foram ceifados desta experiência terrena por incúria, inoperância, incompetência e má fé?

Valorizemos aquilo que nos é ofertado, ainda que não tenhamos qualquer mérito que nos habilitasse a tanto. Qual o valor do oxigênio, da Aurora, do poente, do gorjeio dos pássaros e do perfume das flores? Somos imensamente ricos por desfrutar da abundância dos dons espontâneos da natureza e da Providência. Tudo à nossa disposição. Usufruamos dessa exuberância e confiemos no amanhã.

Uma sexta pista aponta para a criatividade e o desapego à comparação. Somos todos irrepetíveis, heterogêneos e singulares. Os percursos não se repetem. Cada qual tem de trilhar a sua vereda. Pode torná-la aprazível e dadivosa. Desnecessário cotejá-la com outras sendas.

Sétimo recado é devotar-se ao lazer e ao descanso. É saudável encontrar tempo para aquilo que faz bem ao corpo e, principalmente, à alma. Desligar o moto contínuo da ininterrupta atividade física e mental, recarrega baterias e têmpera. Quem alega não ter tempo para isso , pode ser surpreendido pelo tempo propiciado pela natureza, pelo senso comum das coisas ou pela própria transcendência.

Oitava recomendação: calma e tranquilidade são essenciais. Expele a ansiedade do seu cotidiano. Ela não faz falta alguma e pode fazer mal para quem não consiga domá-la.

Penúltima indicação para uma vida plena dedicar-se a tarefas relevantes, libertar-se de dúvidas e de suposições. A relevância há de se aferir segundo a métrica da ética pessoal. Pode consistir em acariciar uma pessoa querida, que pode ser o animal de estimação, tão mais fiel do que o bicho humano. Ou semear para ver germinar e florescer. Ou escrever mensagem carinhosa que enterneça alma necessitada de cuidados. Não desperdiçar aquilo de que não dispomos, ou seja, o precioso tempo que escoa a cada instante. Vedar acesso à insignificância. Ter ambição ao sonhar: não há limites para o sonho.

Por último, este decálogo para reflexão propõe muitos sorrisos, música, dança e atividades lúdicas que entretenham a criança que não pode morrer dentro de nossas tão provadas e sofridas consciências.

Viver em plenitude significa abraçar com vontade a vida, considerar-se capaz de amar e de ser amorável. O significado desta viagem terrena é mensurável pela régua da afeição. Ficaríamos surpresos pudéssemos perscrutar, por vidas que nos parecem exitosas, o quanto se amou e se foi amado, nesta breve peregrinação por um planeta a cada dia aparentemente menos merecedor de nossa compaixão.

Amar é a regra básica exigível a qualquer ser que se considere credenciado a ser chamado racional.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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