Viva a miséria! Viva a miséria?

Viva a miséria! Viva a miséria?

Flávio F. de Figueiredo*

05 de fevereiro de 2021 | 13h29

Flavio F. de Figueiredo. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nesta semana os principais meios de comunicação de São Paulo noticiaram a quebra, pelo padre Júlio Lancelotti, de pedras que foram colocadas pela prefeitura sob viadutos para, supostamente, impedir que moradores de rua ali se instalassem.

Há anos os baixos de viadutos, além de calçadas, parques e toda a sorte de espaços públicos, vêm sendo utilizados para moradia, em condições aquém de sub-humanas, de seres que são idênticos a nós e que a cidade não acolhe com a mínima decência.

São pessoas que não têm acesso a nada e que, se continuarem em locais como esses, permanecerão sem coisa alguma.
Além de afrontar contra a saúde e a dignidade, a utilização desses locais para moradia coloca em risco a infraestrutura urbana e deteriora – ainda mais – a cidade.

A simbólica quebra de pedras com marretas mostra a inadequação das soluções adotadas. É necessário que a sociedade reivindique veementemente às autoridades assistência digna para essas pessoas, pois deixá-las sem alternativa é desumano e não resolve nada. Que tal pedir urgentes providências para que sejam oferecidos locais dignos e limpos para dormir, comer e tomar banho? Atendimentos médico e odontológico e encaminhamento para trabalho também seriam muito desejáveis, dentre outros apoios humanitários.

Infelizmente nada disso é feito, enquanto recursos financeiros da cidade são usados para obras não prioritárias, ou para refazer o que se deteriorou por falta de manutenção.

Aparentemente não interessa quebrar esse círculo vicioso, melhorar as condições de vida dessa parcela da população.
Por que não estudar, por exemplo, para alguns baixos abandonados de viadutos, a criação de abrigos temporários, aproveitando espaços existentes? Neles, as pessoas poderiam ser acolhidas com um mínimo de decência, ao invés de precisar dormir com esgoto, ratos, fumaça, etc…

Muitas outras soluções simples e baratas poderiam ser estudadas e desenvolvidas, desde que no meio do caminho não surgisse uma inacreditável quantidade de intermediários, oportunistas, secretarias, departamentos, comissões de estudo etc., que drenam os recursos e reduzem muito aquilo que poderia ser efetivamente empregado para o bem estar da população, em condição de rua ou não.

*Flávio F. de Figueiredo é engenheiro civil, consultor, diretor de Figueiredo & Associados Consultoria; Conselheiro do Ibape/SP – Instituto Brasileiro de Avaliações e Pericias de Engenharia de São Paulo; Coordenador e co-autor da obra Vistorias em Obras Civis – Editora Leud, 2018 e Perícias em Arbitragens – Editora Leud, 2019.

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