‘Virtus in medium est’ (a virtude está no meio)

‘Virtus in medium est’ (a virtude está no meio)

Edson Miranda*

11 de abril de 2020 | 14h00

Edson Miranda. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Um microrganismo revolucionou o mundo nos últimos meses. A humanidade se uniu para contra-atacá-lo. O novo coronavírus, agora intitulado como covid-19.

A covid-19 está fazendo com que divergências políticas, sociais e religiosas sejam postas de lado e todos os países estão somando esforços, para enfrentar essa nova e assustadora pandemia.

Surgem novos heróis: os médicos, os enfermeiros, os assistentes, os agentes sanitários etc. E algo interessante: a quarentena está levando as famílias a ficarem reunidas novamente em suas casas e a solidariedade ganhou uma nova dimensão, diante do cuidado com os grupos de risco, que há muito tempo não se via.

Contudo, agora estamos vivendo uma contenda entre aqueles que entendem que a quarentena é vital para o combate à disseminação do vírus, e aqueles que pregam a finalização do isolamento, diante dos transtornos que essa situação causa à economia mundial.

Não há dúvida de que estamos numa pandemia e de que todos os esforços devem ser feitos, para se evitar o pior, ou seja, a perda de um número considerável de vidas, principalmente advindas dos grupos de risco: pessoas com mais de 60 anos e aqueles que têm comorbidades.

Temos que pensar que vivemos num mundo carregado de microrganismos e que alguns deles, infelizmente, ceifam vidas. No ano passado, mais de 1.000 pessoas morreram de H1N1 no Brasil. No caso da covid-19 a dimensão do problema é maior, pois afeta muito os grupos de risco. Mas, veja-se que o seu índice médio de mortalidade é baixo: 2,3%. A título de comparação, a SARS teve índice médio de mortalidade de aproximadamente 10%, o Ebola é de 50%, a Raiva é de mais de 90%. Assim, não estamos à beira do Armagedom.

Com certeza, não teremos uma pandemia da dimensão da peste negra, que, em pleno século XIV, dizimou 1/3 da população da Europa ou da gripe espanhola que matou milhões de pessoas pelo mundo.

Contudo, não há dúvidas de que o isolamento ou a quarentena sejam os meios mais eficazes para reduzir a velocidade do contágio e evitar o colapso no atendimento médico à população. Isto não se discute e há até uma maioria esmagadora com esse entendimento compartilhado por autoridades públicas, cientistas e especialistas.

Aliás, afirma-se que Bérgamo na Itália enfrentou o pior cenário no combate à covid-19, face à demora das suas autoridades em determinar o isolamento.

Por outro lado, os arautos da recessão econômica bradam aos quatro cantos que o isolamento é exagerado e que isso causará danos às atividades econômicas de demorada reversão. Segundo eles, enfrentaremos uma crise econômica nos moldes de 2008.

Ora, há exagero nessas afirmações, pois as autoridades sanitárias brasileiras já asseveraram que o isolamento será mantido, até o momento em que “a curva exponencial de contágio” seja quebrada, o que deve ocorrer em breve. Não se tem como prever a data, mas não ficaremos isolados por meses, como alguns querem fazer crer.

O importante é que se sabe que a crise da covid-19 passará e que a vida voltará à normalidade. Isto gera tranquilidade e cria a perspectiva de que a economia, aos poucos, recuperará sua vitalidade. Não estamos como em 1929 após o “crash” da bolsa de Nova Iorque, que levou o mundo à grande depressão, sem qualquer perspectiva de normalidade. Até porque, os governos de diversos países estão implementando medidas para reduzir os danos econômicos que o isolamento traz. E uma outra inovação surgiu em decorrência do isolamento, o aprimoramento do teletrabalho e o surgimento de inúmeras novas atividades, que passaram a utilizar a ferramenta do “delivery”. Muito provavelmente, os profissionais que estão isolados, estão utilizando o tempo disponível, forçosamente obtido, refletindo sobre novas abordagens em seus negócios e até uma reorganização geral de suas atividades.

Por isso que o velho ditado latino “virtus in medium est” (a virtude está no meio) se aplica ao momento em que vivemos no Brasil, ou seja, o isolamento é imprescindível para o combate à contaminação exponencial da covid-19, mas ele não deve se estender ao ponto de levar a economia nacional ao colapso. Provavelmente, diante do bom senso da maioria das autoridades públicas, que colocaram de lado seus posicionamentos políticos e se uniram de forma exemplar contra essa pandemia, logo será encontrado o meio, e lá se encontrará a virtude.

*Edson Miranda, advogado, escritor e professor universitário

Notícias relacionadas

Tudo o que sabemos sobre:

Artigocoronavírus

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: