Virando a página da crise no mercado livreiro

Virando a página da crise no mercado livreiro

Francisco Canato*

10 de fevereiro de 2019 | 10h00

Francisco Canato. FOTO: DIVULGAÇÃO

Mais de 50 anos trabalhando com a distribuição de livros, o início de um ano novo e as últimas notícias sobre a situação complicada de algumas livrarias importantes levaram a um momento de reflexão. Do tempo em que o livreiro era uma figura tão importante quanto um advogado, jornalista ou professor e de fila na porta das livrarias em algo muito parecido com o que temos hoje nos cinemas quando estreia um filme concorrido.

O conhecimento do livreiro era algo realmente impressionante. Ele dominava por completo todo aquele universo. Temas, obras, autores, títulos que se completavam, absolutamente tudo! Quem viveu ou lembra não evita a comparação com a figura deste profissional hoje, muito mais contida e amparada pelos vários sistemas de informática que servem estabelecimentos de diferentes portes.

O número de livrarias também era algo muito maior. Para se ter uma ideia, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgou um levantamento no ano passado que mostra bem a diferença. Somente no intervalo de uma década, o número de livrarias e papelarias em funcionamento no Brasil encolheu 29%. No final de 2017 eram 52.572 estabelecimentos – 21.083 a menos do que em 2007. É claro que o mercado muda em 10, 20, 30 anos.

Novas ferramentas e um perfil de público completamente diferente forçam uma evolução, mas na visão de quem acompanhou praticamente todas as fases deste ramo, esta redução drástica é uma importante raiz do cenário atual, onde testemunhamos, com pesar, seguidos anúncios de fechamento de grandes marcas. Este movimento não afetou somente o acesso do público, mas, também, a relação com as editoras e distribuidoras. Algumas passaram a negociar a venda das publicações diretamente, o que só contribuiu para a redução. Como expor o produto sem ponto de venda?

A internet é um ambiente maravilhoso e fértil para ações, mas é parte do negócio. A parte da evolução que vem com o tempo, novas ferramentas e público que comentei. A livraria como ponto de venda é outra. Não são conflitantes. O digital não precisa (e não deve) substituir o físico. Claramente falta um equilíbrio entre as duas pontas e, mais do que isso, a consciência dos players deste mercado de quando e como se reinventar. E se os noticiários embalam chamadas apocalípticas sobre tudo que está dando errado, bons exemplos mostram o que é possível no real e no virtual.

O estado da livraria Lello, na cidade do Porto, em Portugal, era crítico até apostarem no vínculo com o universo dos livros do Harry Potter para atrair leitores e fãs, tornando o local um ponto turístico e salvando a marca da falência iminente. A experiência chama o leitor e, uma vez lá, os livros também.

Na internet, a experiência também é importante, mas o foco é outro. As palavras de ordem são praticidade, comodidade, tempo e preço. Sem o envolvimento, a sedução de dezenas de títulos na loja, a busca é direta para conseguir determinado título ou material mais barato e mais rápido, o que, claro, não é ruim.

Por isso empresas como a Disal têm investido em digital para desenvolver e entregar soluções que otimizem processos. Nos últimos dois anos, por exemplo, houve um esforço para criação de canais omnichannel, onde o usuário compra pela internet e retira na loja física, e o aumento de market place com a disposição de produtos em sites de grandes redes de varejo. Indo além, a decisão de apostar em inteligência artificial e as infinitas possibilidades e facilidades que os algoritmos trazem.

Foi um orgulho lançar um dos primeiros chatbots do setor. A assistente Clara, que está programada para ajudar o cliente em uma série de dúvidas que antes precisavam de um caminho maior até a solução, o que, às vezes, acabava em desistência. Não só isso, mas a possibilidade de entender melhor o comportamento deste consumidor para cada vez mais criar ações adequadas ao seu perfil e trazer mais facilidades e experiências tão impactantes quanto no espaço físico. Este, aliás, é de extrema importância na estratégia da Disal. São 18 livrarias especializadas nas principais capitais. Todas fiéis representantes da essência destes estabelecimentos, com a exposição dos principais materiais, profissionais treinados e realização de eventos.

Estas, entretanto, não são receitas ou soluções mágicas para tirar o mercado da crise, mas inspirações. O próximo passo, talvez, seria uma maior união do setor, com cabeças discutindo, com foco, as melhores saídas para o setor de maneira geral. Considerando particularidades, mas desenhando oportunidades para o curto, médio e longo prazo.

*Francisco Canato, presidente do Conselho de Administração da Disal Editora e Distribuidora

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