Virado para a lua

Virado para a lua

José Renato Nalini*

28 de novembro de 2020 | 07h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Acabo de ler a autobiografia de Nelsinho Motta, cujo título poderia chocar os anacrônicos. A partir daquele dito popular de que os sortudos nasceram com uma parte do corpo “virada para a lua”, Nelsinho não hesitou ao optar pelas duas letras tão usadas, mas ainda consideradas chulas. O subtítulo é convidativo: “dramas, comédias e mistérios de um rapaz de sorte”.

O relato é daqueles que nos amarram. Somos reféns de uma leitura que não quer parar, nem quer chegar ao fim. O moço sabe escrever, o que já provara com seus outros livros, dos quais o meu preferido é “Noites Tropicais” e, em seguida, “Força estranha”. São dezenas de obras, uma façanha, considerada a sua vida de empreendedor artístico, promotor de shows vitoriosos e de eventos louvados pela mídia.

Quem estava acostumado a ver Nelsinho como um “bon vivant”, sempre com as mulheres mais cobiçadas, midiático e onipresente, algo restrito ao nicho carioca da fantasia fútil de um Brasil que já não existe, vai se surpreender com a leitura de suas memórias.

Impressionou-me a condição personalíssima de filho devotado e pai extremoso. A despeito de qualquer outra consideração, ele nasceu em berço de ouro. Leva o nome de seu avô, respeitado intelectual que é portador da “tríplice coroa”: formado pelo Largo de São Francisco, chegou à Academia Brasileira de Letras e ao Supremo Tribunal Federal. Cândido Motta foi também imortal da Academia Paulista de Letras.

Fala muitas vezes do pai, a quem chama “Nelsão”. Advogado exitoso, era o porto seguro de toda a família. Diz o filho: “Sofreu grandes perdas, como a de seu irmão Paulo, aos 60 anos, a quem acompanhou durante dois anos de sofrimento por causa de um câncer, sobreviveu a dois desastres pavorosos de carro e a um assalto que poderia ter sido fatal; fez imensos sacrifícios, segurou incontáveis rabos de foguete de filhos, parentes e amigos; mas não teve doenças; arrancou bastante dinheiro, viajou muito; viveu um grande e permanente amor com Xixa, o respeito e a admiração de todos que cruzaram com ele e a gratidão de amigos e discípulos advogados, sempre seguindo sua máxima: “Quem recebeu mais, tem que dar mais”.

Teve motivos para se orgulhar de seu pai: “Nelsão sempre foi muito ativo e entusiasmado em tudo o que fazia. Advogado bem-sucedido, montou um dos maiores escritórios do Rio de Janeiro, formou muitos advogados e tornou-se mentor de muitos outros, não só pelo seu saber jurídico mas por sua personalidade de irradiante simpatia, generosidade e calor humano. Nelsão gostava de gente. De ajudar”. Acrescenta que o pai “tinha como máxima: “Cruzou o seu caminho e pediu ajuda, tem que ajudar”.

A mãe, Cecília, era Xixa para a família. É personagem permanente nas 479 páginas deliciosas, das quais 250 escritas durante a pandemia em dois meses. “Leonina orgulhosa e mandona, era de uma doçura extrema com os filhos e sobretudo com os netos, desde que fizessem o que ela queria. Gostava de usar a metáfora dos bichos que adoram quando lhes alisam o pelo no sentido em que nascem. Se for no contrapelo…”.

Cúmplice do filho em todas as suas empreitadas, inclusive nos venturosos relacionamentos, foi e continua a ser uma influência definitiva. A despedida é narrada no texto “Xixa forever”, que sensibiliza qualquer ser humano que teve mãe.

Lar de eruditos, com lastro que permitiu a Nelson superar turbulências e surfar tranquilamente por décadas tempestuosas, num Brasil que passou por vinte e um anos de arbítrio e por outros sustos.

Esse berço fez de Nelsinho Motta uma pessoa sensível e terna. Pai muito presente, desde sempre viajou com as filhas, propiciou a elas um convívio instigante e elas reconhecem o especialíssimo companheiro, um pai artista, criativo e dinâmico empreendedor. Carinhoso por natureza, é um amigo de verdade. Vibra com o sucesso alheio, sofre com o fracasso dos alvos de seu afeto. Lamenta de forma bem enfática a partida de quem ama, quando encetam a viagem sem retorno. Há inúmeros depoimentos sobre as mortes que o marcaram. Não é um registro formal e frio. Há real sentimento de perda, que se pode quase apreender, tão tangível a narrativa.

O que apreciei e me causa a melhor das impressões, é o respeito demonstrado pelas extraordinárias mulheres que amou e pelas quais foi idolatrado. Postura de cavalheiro, de homem polido e elegante. Vale como um precioso programa de postura para os que não sabem se comportar após o término dos relacionamentos.

Fez-me recordar, com saudades imensas, do nosso querido Paulo Bomfim, um dos mais amados e cobiçados paulistanos, cujo charme o fez colecionador de vários haréns, mas que sempre se manteve discreto e generoso em relação às parceiras. Como só os espíritos qualificados, cada vez mais raros, conseguem ser.

Nelsinho teria muito mais o que contar. Tenho a certeza de que ainda o fará. Foi muito importante para ele assimilar o “tempo lógico” da psicanálise lacaniana. Segundo ele, “a ideia do “tempo lógico” não valia só para sessões de análise. Passou a servir como medida de muita coisa importante na vida – sentimentos, trabalhos, relacionamentos, nos quais a intensidade vale mais do que o relógio e o calendário”.

Vale a pena ler o livro de Nelson Cândido Motta Filho, o genial Nelsinho.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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