Violência escolar: o que faz de Suzano um alerta geral?

Violência escolar: o que faz de Suzano um alerta geral?

Rejane Dias*

08 de abril de 2019 | 11h30

FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O Brasil atravessa um momento de grande intolerância e violência dentro da escola. Desde 2002, ao menos 9 escolas brasileiras sofreram atentados por parte de alunos ou ex-alunos. O massacre de Suzano engrossou uma lista de casos de violência com morte num País já acostumado a uma rotina de agressão e abuso dentro da escola.

Quem conhece a realidade das escolas brasileiras ouve relatos assustadores: Violência verbal e física, assédio moral e sexual, desrespeito e ameaças. Um cenário perfeito para uma onda de crimes. É ali que eles entram portão adentro, armados, e abrem fogo sem dó e nem piedade.

É preciso entender onde reside o problema. É a depressão que atinge cada vez mais cedo os alunos em idade escolar? É a negligência dos pais? É a internet? São os jogos e filmes? É a fixação por desafios? Onde estão os responsáveis pelos jovens que passaram ou estão passando por vivências traumáticas? Quais estudos o País tem hoje sobre a incidência de transtornos neurológicos na idade escolar?

São perguntas ainda sem respostas no Brasil!

Revogar o Estatuto do Desarmamento, que na visão do governo parece ser a solução mais conveniente, é um absurdo. Não se combate a violência com mais violência.

Nos Estados Unidos, onde nasceu essa onda de ataques, e onde a gente sabe que há um regime permissivo de comércio de armas, mais de 660 ataques foram registrados desde 2002, de acordo com um levantamento da Escola Naval de Pós-graduação dos Estados Unidos.

Mais do que nunca, é preciso criar iniciativas que contribuam para o fortalecimento de uma rede de proteção dentro da escola, que envolva alunos, professores e pais.

Mais que isso, é preciso haver efeitos multiplicadores dessas iniciativas, para dizer ao Brasil que não haverá mais espaço dentro da escola para qualquer forma de violência.

Não merecemos que outra tragédia seja necessária para tomar uma atitude firme.

Quando dois alunos invadem uma escola e atiram para todo lado, quando um vigia provoca um incêndio que mata crianças, quando uma professora morre tentando salvá-las, é que todo mundo se comove.

Depois, quase sempre esses episódios caem no esquecimento e nenhuma política nacional sofre avanço. Somente quando um caso como esse de Suzano acontece, é que os brasileiros se lembram de Realengo, e, assim, os transformam em mera estatística.

Um debate como esse, exige que falemos todos os dias dos crimes silenciosos, que servem de escada para os mais intensos.

É preciso avançar nas investigações e nos estudos sobre a incidência de distúrbios mentais entre jovens. O que vemos são professores e gestores escolares desesperados, sem instrução, sem nenhuma política a nível de Estado. Quando a violência bate à porta da escola, o que resta é se abaixar, se proteger ou correr.

Há nesses casos um rastro de sadismo sem precedente algum. O que explica um aluno priorizar a escola como campo de violência?

É preciso realizar debates regionais sobre essa questão.

Os professores estão vitimados pela depressão. Muitos deles estão desistindo da carreira. Abandonando-a cada vez mais cedo.

A inserção efetiva de uma rede de atendimento psicossocial é o primeiro passo. Temos que colocar psicólogos, assistentes sociais, que conversem com os alunos e com os pais, que questionem a ausência deles, inclusive.

Precisamos de uma rede de profissionais que ajudem o professor e os pais a entenderem esses fenômenos. E, por conta desse desafio, os casos que o Brasil já protagonizou não podem cair no esquecimento.

*Rejane Dias é deputada federal e primeira-dama do Estado do Piauí