Violência epidêmica e o nosso papel

Violência epidêmica e o nosso papel

Luciana Graiche*

20 de julho de 2020 | 04h30

Luciana Graiche. Foto: Divulgação

Como se sabe, em prol da economia do país, a cidade de São Paulo vem retomando suas atividades aos poucos. Comércios estão sendo abertos, parques também, mas milhares de mulheres, idosos e crianças ainda estão presos dentro de um ciclo de violência que parece não ter fim.

Essa realidade, muitas vezes, pode ser transformada com uma simples atitude sua, do seu vizinho ou do colega de trabalho. Colocar o assunto em evidência, dialogar e esclarecer pode fazer a diferença e salvar vítimas dessa outra epidemia que também assola o nosso país: a violência doméstica e familiar.

Todos podem se envolver e se responsabilizar enquanto cidadãos. Os discursos de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” ou “depois eles se acertam e eu serei o vilão”, já não condizem mais com essa triste realidade que buscamos combater.

Esta nova postura vem sendo reforçada dia após dia e a recente aprovação no Senado, no dia 8 de julho, de projeto de lei que obriga moradores e síndicos de condomínios a denunciarem casos de violência doméstica às autoridades competentes, vem trazer ainda mais vigor ao assunto. O texto agora vai à análise da Câmara dos Deputados.

Enquanto a proposta segue em tramitação, as estatísticas aumentam significativamente durante o isolamento social, por isso são tão importantes as campanhas de conscientização e de encorajamento à denúncia por todos, já que muitas vezes a própria vítima se vê impedida de tomar uma atitude.

O aumento de casos de violência doméstica, só em São Paulo, segundo dados do Cravi (Centro de Referência e Apoio à Vítima), bateu recorde e cresceu 70% em maio de 2020 em relação ao mesmo mês do ano passado.

É preciso buscar maneiras de atuar, orientar e colocar luz sobre o problema. Essas medidas cabem aos cidadãos e às empresas. As ações podem seguir em diversas direções, abrangendo vítimas e testemunhas da violência. Exemplos de boas alternativas incluem criação de botões de acesso virtual para as mulheres vítimas de violência doméstica em canais de comunicação do condomínio, empresas e associações direcionando as vítimas para uma rede de apoio, acolhimento e auxílio, como por exemplo, o projeto SOS Justiceiras. Outras opções abarcam a distribuição de cartilhas de orientações para condôminos, treinamento de funcionários para alerta de emergência e acolhimento das vítimas, dentre outras.

O assunto precisa ser debatido, exposto e esclarecido, de modo que todos possam participar efetivamente da redução dos problemas sociais, como é o caso da violência doméstica. Questões culturais e estruturais já nos trouxeram tarde para essa discussão, por isso é tão importante que todos tenham claro seu papel no combate. Não importa se a vítima pede ou não ajuda, o senso de conduta deve direcionar para a denúncia e ação imediata. A base para a atuação das pessoas é saber, de maneira clara, o que é preciso fazer em casos emergenciais: como socorrer a vítima, como pedir ajuda, como denunciar e como acolher. Já há informações e dispositivos legais suficientes para subsidiar atitudes proativas, como redes de apoio psicossocial e médica, envolvimento de instituições sérias e o principal: a disposição das pessoas para ajudar ao próximo.

O enfrentamento à violência, em seus mais variados gêneros, como assédio moral e sexual, calúnia, difamação, injúria, racismo, homofobia, além de crimes contra crianças, idosos e pessoas portadoras de necessidades especiais, deve ser pauta constante em reuniões de condomínios e treinamentos de colaboradores.

Não se deve agir apenas em casos explícitos de violência doméstica, que envolvem agressões graves, barulhos e pedidos de socorro. É preciso prevenir, tocar na ferida, abordar o tema, dialogar, preparar e ilustrar exemplos para que essa luta venha a fazer parte da construção de um novo “senso comum”, de uma nova educação social, em proteção ao bem comum.

Há epidemias que enfrentamos há séculos e a violência doméstica é uma delas.

*Luciana Graiche é vice-presidente do Grupo Graiche

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