Violência doméstica também é uma responsabilidade das organizações

Violência doméstica também é uma responsabilidade das organizações

Carla Fava*

21 de dezembro de 2019 | 07h00

Carla Fava. FOTO: DIVULGAÇÃO

Infelizmente a violência doméstica é uma realidade que nos perturba, persegue e assombra, mesmo em pleno século 21. A cada 2 minutos uma mulher é vítima no Brasil. Não acredita? Olhe para o lado. Uma delas pode estar sentada na sua frente agora. Pode ser inclusive sua colega de trabalho que acabou de te dar bom dia.

Percebendo que a violência com mulheres é mais próxima do que imaginam e que o discurso do “nunca aconteceu comigo então não tenho nada a ver com isso” não é aceitável, muita gente já começou a se movimentar para se tornar agente da mudança.

Dentro das empresas, esse assunto ainda é um tabu a ser derrubado. Por falta de empatia, por negligência ou por acreditar que existe uma falsa separação entre vida doméstica e vida profissional, ainda são poucas as empresas que possuem algum tipo de ação para combater a violência doméstica e estruturas voltadas para o suporte e apoio de mulheres que sofrem ou sofreram este tipo de violência. É o que mostra a pesquisa realizada pela Talenses: hoje apenas um quarto das empresas brasileiras está engajada para mudar esse cenário.

Uma linha de raciocínio retrógrada e rasa, mas ainda bastante comum legitima este número ínfimo: como ocorre no ambiente doméstico, não cabe à empresa intervir quando o assunto é violência doméstica contra mulheres. Ou seja, segundo essa lógica, quem sofre a violência não é a colaboradora da empresa, mas a fulana que bateu o cartão no fim do expediente e que já está fora do horário comercial. Se pararmos para refletir rapidamente, no fim das contas não estamos falando de uma mesma pessoa violentada? Não é óbvio que suas emoções e estado psicológico (invariavelmente abaladas quando sofrem violência doméstica) impactam diariamente em sua produtividade e performance no trabalho?

Mesmo com a naturalidade de causa e efeito que percebemos nessa relação, apenas 25% das empresas possuem políticas e ações voltadas para o combate à violência doméstica. Por outro lado, notam-se políticas estruturadas para assuntos como assédio moral e sexual em mais da metade das empresas avaliadas. Uma das hipóteses para que este assunto tenha mais envolvimento das organizações é que o assédio é praticado internamente e por colaboradores, não havendo espaço para a omissão da empresa.

A pesquisa da Talenses escancara também o urgente lado social do tema e sua conexão com o dia a dia dos colaboradores. Empresas que possuem mais funcionários com escopo operacional tendem a evidenciar maior número de casos de violência contra a mulher. Fazendo um recorte social, soma-se ainda o fato de que no Brasil mais mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica são vítimas de violência. Mulheres essas que, muitas das vezes não têm condições de sair de casa e sustentar a si e seus filhos com seus próprios recursos e, por isso, permanecem em uma relação abusiva. E é aí que empresas com este perfil se mostram mais adiantadas para tratar do tema em relação as empresas com maior parte do quadro de colaboradores com escopo administrativo, por meio de políticas e ações para vítimas de violência doméstica, oferecendo inclusive, apoio jurídico e psicológico para as mulheres que sofreram ou sofrem violência em suas próprias casas.

Mas é preciso fazer mais. O papel das empresas para mitigar qualquer dado que hoje nos assombra sobre o assunto é inegável e fundamental. Cabe a elas tomar as rédeas das iniciativas e colocar o tema na agenda prioritária, visto que o espectro de atuação pública por meio dos poderes executivo, legislativo e judiciário é sempre mais lento e burocrático.

O primeiro passo é investir em campanhas de conscientização. Quanto mais gente tiver real visibilidade dos impactos e da importância do assunto, melhor e mais fácil para mudar de fato. O segundo passo é criar canais de denúncia efetivos para dar voz às mulheres, em paralelo ao processo de treinamento para formar gestores mais empáticos e atentos. Em seguida, estabelecer processos para acolher as vítimas e acompanhar caso a caso, estimulando ambientes acolhedores, propícios para o diálogo e que sejam a fonte de mudança para colocar fim ao machismo que hoje perpetua e legitima inconscientemente a violência contra a mulher.

O século 21 não aceita mais a violência contra a mulher, e essa luta é de todos nós. Não se tratam apenas de colaboradoras mais produtivas e sim, do papel e responsabilidade social das organizações pelo fim do ciclo de violência. A propagação do problema e a empatia com mulheres que sofrem em suas próprias casas abre constantemente um espaço gigante para mudarmos este cenário. Espaço que deve ser ocupado o mais rápido possível pela iniciativa privada, para que o abismo entre homens e mulheres deixe de existir para sempre e para botar fim nos milhares de vieses inconscientes que invadem atitudes e pensamentos a todo tempo. E isso deve ser feito todo dia, e em todo lugar. Inclusive e principalmente nas empresas.

*Carla Fava, gerente de Comunicação, Marketing e Inteligência de Mercado da Talenses

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