Violência contra a mulher

Violência contra a mulher

Tinda Costa*

11 de janeiro de 2020 | 07h00

Tinda Costa. FOTO: DIVULGAÇÃO

Sempre que me perguntam por que eu decidi escrever um livro sobre violência contra a mulher, começo a minha resposta explicando que nasci e cresci no interior de Minas Gerais, estado líder nessa modalidade de crime. E desde muito cedo ouvia histórias terríveis de mulheres submetidas a todo tipo de abuso pelos maridos, companheiros, namorados, principalmente. Ainda estudante, assisti à criação, em Belo Horizonte, em agosto de 1980, do “Quem Ama Não Mata”, primeiro movimento organizado no Brasil para denunciar o constante assassinato de mulheres em Minas e em outros estados, como São Paulo , o mais desenvolvido da federação, mas também entre os primeiros nessa trágica estatística.

Ao longo de décadas, sem políticas públicas, campanhas de conscientização ou  debates mais sérios sobre o assunto, as agressões e assassinatos só aumentaram. E a  morte violenta de mulheres nas mãos de seus algozes ganhou nome: feminicídio. Hoje, os números  por atrás do burocrático rótulo  “violência doméstica” ocultam  uma realidade aterradora, que choca, em muitos casos,  pela brutalidade e frieza dos atos perpetrados contra mulheres.

Somos a quinta nação que mais agride e mata mulheres. A rigor, é impossível saber exatamente o número de casos de violência física, sexual(estupro) e psicológica contra elas, porque  muitos não chegam a ser registrados. Em São Paulo, em 2019,  ano em que  completa 13 anos da Lei Maria da Penha, que criminalizou esse tipo de violência, os casos de feminicídio cresceram 44%  no primeiro semestre. E seguem crescendo. De abril a outubro, a Polícia Militar paulista contabilizou 101.929 ocorrências de violência doméstica. Em Minas, o quadro ganha características de epidemia: nos seis primeiros meses do ano, informa a Polícia Civil,  405 mulheres foram agredidas por dia, chegando a assombrosa marca de 73.457 casos.

Quando pensei em criar um personagem para o meu romance,  minha única certeza era que teria que ser uma mulher, uma heroína. A Filha da Mãe,  suspense dramático, com uma pitada de investigação policial, conta a história de Cleonice,  ou Cleo, jovem vítima de violência física e psicológica do marido, que resolve, junto com a mãe, ajudar outras mulheres abusadas e agredidas pelos parceiros. Heroína do nosso tempo, ela é uma mulher comum que, após sobreviver a um relacionamento tóxico,  se reinventa, volta a estudar e a trabalhar, luta para crescer profissionalmente, criar seus filhos e proteger mulheres em perigo.

Concordo plenamente com a jornalista, escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras Rosiska Darcy de Oliveira, quando, numa crônica com o título Vestígios da Idade da Pedra, escreveu: “Estancar a violência contra as mulheres é, em qualquer país, e nós somos responsáveis pelo nosso, essencial à democracia. Urgente porque o que está em curso é uma contrarrevolução. É a vingança da barbárie contra a revolução que, no século 20, quebrou o paradigma milenar que sujeitava as mulheres aos homens e deu, assim, um passo adiante no processo civilizatório”.

Com A Filha da Mãe, quis exatamente isso, criar uma oportunidade de refletirmos, todos nós, sobre as maneiras através das quais vamos conseguir mudar esse retrato medonho da situação da mulher no Brasil.

*Tinda Costa  é publicitária e jornalista

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